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 No dia 5, ela só escreveu. Escreveu até não poder mais. Chegou em casa e, como se fosse trabalho a ser feito, escreveu. Também como se fosse a novela que ela tanto queria ver – ou livro que ela muito queria ler – escreveu. Como se fosse passatempo, esporte. Como se fosse seu vício, ofício ou sacrifício. Escreveu como se não houvesse amanhã. Como se estivesse apaixonada, depois como se não estivesse. Escreveu até cair o braço. Caíram com ele as palavras, que precisavam sair naquele momento de suas veias, de suas entranhas. Fez das tripas coração e do coração fez texto, tudo para poder ser lida. Escreveu como se a vida fosse só aquilo até o ponto. Depois o outro ponto. Outra vida, era disso que ela precisava! Escreveu para que pudesse dormir de noite. Escreveu para que ou outros pudessem dormir e ela parasse de gritar, em silêncio, todos os pensamentos bons e maus que entravam pela janela e encostavam na sua cabeça fraca. Escreveu porque existiu. Porque viveu mais um dia para contar história e ah! Quanta história ela quer contar. Seus dedos curtos e ágeis a traíam, enquanto revelavam sua vida e morte a quem quisesse e tivesse disposição para descobrir. Era possível escrever sobre escrever, por escrever. Era possível escrever, como verbo intransitivo. Meramente escrever em si. Escrever em sim. Escrever, enfim.
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