poesia

ela

21:48

ele me disse
sou sua
como o mais articulado
e impetuoso
ato falho
ele me disse
sou sua
aproveitando-se
das artimanhas
do português
flexionando pronome
e discordando em
gênero, número e grau
ele me disse
que é minha
e assim
concomitantemente
virou musa e artista
e como se não bastasse
virou bela obra ainda
ele me disse
sou sua
porque comigo
ele é o que quiser
e se ele quer ser minha
eu que sou bem feliz
ele me disse
sou sua
como quem fosse
minha paixão
e minha ilusão
minha luz
e escuridão
começo e fim de mês
dia dez e dia
vinte e seis
todas as minhas estações
equinócios, solstícios,
galáxias e constelações
minha primavera
verão e meu inverno
meu céu e meu
inferno
ele me disse
sou sua
e eu respondi
também sou
dela e dele
seu e sua
meu e minha
todinha
somos os dois
ou as duas
rascunho ou arte final
que acaba
por bem ou por mal
mas não chores, não
sorria
se ele é mesmo minha
não duvido
mas quem diria
essa aí vai acabar
é virando poesia

impublicáveis

impublicável em 3 atos

20:35

I

se até ele tem seus impublicáveis
por que eu não haveria de ter?
não é que eu simplesmente goze pensando em você
eu escrevo pensando em você
não tem os seus impublicáveis
por quê?
não existe poema impublicável
os não publicados simplesmente não existem
te deixariam tristes se existissem?
são sobre vergonha e cobrança?
tristeza e solidão?
procurar no dia todo um motivo pra chorar
não achar

e continuar procurando?
medo de encarar a vida
medo de que a minha desvie da sua
não é que eu simplesmente goze pensando em você
pensando
[gozando]
em mim
ainda bem que vou trabalhar escrevendo em quadro
porque quando tiver que consultar por LER
de tanto escrever ou bater siririca
eu posso usar essa desculpa
amor desculpa
impublicável é o caralho
poema impublicável existe só
onde existe contradição
é platônico
alucinação
não é que você simplesmente goze na minha cara
você escreve com o meu corpo
o que melhor achar
e ainda faz crítica literária

essa playlist também me mata
mas eu boto no volume máximo
e rezo pra ela continuar boa
tudo me lembra você
de forma ruim ou melhor
não gosto de passar frio
porque ele disfarça o frio da minha barriga
quando eu vejo você
boto a culpa no zodíaco
pois sei que é toda minha
assim na terra
como no ar
dizia que não gostava de sofrer
mas também era louco por drama
imagino nossas piores brigas
ensaio argumentos
e até sentimentos ruins
os bons
são inensaiáveis
imaginados com o mesmo fogo
ou água
superam sempre as expectativas

se reconheça
em toda a obra
que eu fizer ou já fiz
no universo
que já era nosso

antes de fazer-se a luz

II

se deus tivesse que mandar
uma amostra de seu trabalho
para o concurso
ela certamente mandaria você
cantada barata
mas (mais) pura verdade
pecado inconfessável
poema impublicável
a mais perfeita e complexa
combinação de sentimentos
contradições e absurdos
poros e pelos
curvas e olhares
não era sua obra mais
bem acabada
mas era sua preferida

eu virei calçada quando você morreu
concreto
minha silhueta no chão
riscada de giz
era louca e por isso morreu
não se matou
mas viveu de amor
botou a culpa na Lua
porque sabia
que era toda dela

III

eu já te dei o universo
mas sou abstrata o suficiente
para não dá-lo a uma pessoa
eu dou a um sentimento
o sentimento
por sentimento
com sentimento
eu dei o universo pro amor
aquele
que arrebata
que mata e revive
respira, entorpece
e volta
vomita
goza
aperta o coração
deixa sem ar
sem amar
dor de cabeça
dor nos ombros
é fardo!
mas é bom fardo
que cansa ao mesmo
tempo que energiza
se eu dei o universo pro amor
é porque ele era meu
e você respondeu
- eu só quero você
quem sou eu pra me dar
se eu sou da rua
eu sou da Lua
coloco a culpa nela porque sei
que sou toda minha

se eu dei o universo pro amor
agora dou amor pro universo
em forma de texto impublicável
que é minha melhor versão
talvez não a mais bem
acabada, mas a minha
preferida definitivamente
em três atos não
começo, meio
não fim ainda
mas amor,
amor
e ainda mais amor