volta ao mundo

Volta amor Carvoeira sul

09:00


Eu vou deixar os outros amores para os universos paralelos. Eu vou deixar os outros amores numa gaveta discreta do armário de casa, numa gaveta discreta de mim. Vou pedir pra não abrirem e não tirarem nada do lugar, mas se quiserem, então que seja. Então prefiro que seja você. Mas devolva cada um de volta, pra onde estava. Os tantos outros amores devem mesmo é ficar ali.
Eu vou deixar meus outros amores pra contar nas próximas sessões de terapia comigo mesma. Vou deixá-los no será que será. Será que poderiam ter sido, outros amores? Se ele não fosse o meu amor, então talvez seria você. Mas se ele fosse, o meu amor, se ele deixasse o lugar vago pra você, será que teria dado certo? Será que você também não teria ido? Quanto eu teria amado, sofrido, desabafado e escrito sobre você? Quantas declarações teríamos feito? Teria eu invocado outros universos, ainda mais paralelos, por você? Talvez pudesse ter sido a gente, amor. Talvez pudesse ter sido amor.
Mas vou deixar meus outros amores para conjecturar, para imaginar as situações mais inusitadas. Vou deixar meus outros amores pra esquecer. Vou deixá-los no ponto. Quantos passaram que a gente perdeu? Quantos amores? Mas estão nos seus lugares, perdidos.
Vou deixar os outros amores para escrever, na constante aflição de que talvez fosse mais romântico te deixar ali também. No tempo esperado no ponto de ônibus. Na narração detalhada do primeiro beijo. Na mais longa aflição, que é a por reconhecer o seu rosto no meio dos outros.
Eu não sou tão boa com fisionomias. Note que os outros amores nem sempre têm rosto, mas podem ter seu cheiro e gosto, e a mesma cor de olhos dos seus, verdes. Ou da tempestade, castanhos. Ou da cor do pôr do Sol.
Todo outro amor é inspiração. E pra não ser mais um outro amor, tem que ser muita inspiração.
Eu vou guardar os outros amores juntos com os nossos bilhetes não premiados da loteria. Junto com os meus cartões não enviados ou não recebidos. Vou guardar com meus celulares roubados e arquivos perdidos, talvez achados. Com nossas conversas, contatos e sorrisos.
Quero deixar vivo o personagem mais apaixonante da história, mas que vença o melhor romance.
Os outros, deixo numa caixa na casa da mãe, onde um dia eu vou buscar um porta-retrato com tema de casal e uma foto nossa, no dia dos namorados.
Os outros amores, eu deixo pra olhar pra trás e pensar, será que era você? Será que era? Será que seria?
Eu, que sou tão fácil, farei uma bela coleção de outros amores, menos ou mais possíveis. Estaria eu na coleção de outros amores dos meus outros amores? Ou ainda, será que eu tenho a coleção ou será ela que me tem? De qualquer forma, sou refém. De um amor e de outros. De todos, mas principalmente do meu.
Vou deixar os outros amores para os outros universos. Por escolha nem sempre minha. Por intervenção do destino ou do acaso. Por falta de tempo ou circunstância, mas não por falta de amor. Vou deixar os outros amores para sentir saudade do que não aconteceu.
Vou deixar os outros amores para os universos paralelos.
Esse universo, meu amor, não tem mais jeito, é todo nosso.

poesia

voltar-te-ei

00:24

eu vou voltar
eu vou voltar pro seu condomínio
sei que já me mandou embora
contando segundos
contando que eu ia voltar
então nem venha reclamar
avisa o porteiro que eu vou voltar
avisa a sua mãe que eu vou voltar
depois de doze poemas
cinquenta e quatro pedidos
sete maquinadas
vinte partidas de truco
e oitenta e três de coração
isso chutando baixo
uma caixa de curativos
dois rascunhos de TCC
uma prece, cinco livros
eu vou voltar depois que fechar o cartão
e eu pagar os meus pecados
eu vou voltar depois de ter você
quando o Sol aparecer
quando a brisa bater eu vou voltar
quando a cortina mexer
e o esmalte secar
quando eu decorar aquela música
aquela que você gosta
se você não estiver apaixonada por outra até lá
eu vou voltar
eu vou te procurar
por todas as ruas
e corações que você já morou
eu vou fazer serenata
eu vou levar meu bumbo e pandeiro
vou preparado pra te levar pra casa
que é comigo
não sei onde
avisa a janela que eu vou voltar
se apoia na primeira vista
que a minha volta não é de segunda
é de semana inteira
mês, ano, década
tempo de amor bem vivido
infinito enquanto dure
se não der, se não durar
eu vou de novo
daí você espera um pouco
e avisa sua mãe de novo
eu vou me revoltar
voltando-te de novo

Corinthians campeão

01:21



  E se eu te falar que joguei fora as alianças e devolvi o chaveiro e o copo? Me livrei das cartas abertas e fechadas. Já preenchi o rascunho deixado pelo TCC e tô esperando pra ver aquele filme só com você. E aquele outro quero ver de novo. Queria entender como que caralhos as minhas últimas buscas envolvem de sex shop e motel Floripa até vestido de noiva Cinderela e serenata Vitório alma gêmea. Gritavam para a separada não porque achavam que ela não amava, mas porque sabiam que ela amava demais. Você sempre soube e eu nunca reclamei. As palavras, depois que passam pela cabeça, vão direto para o lado direito do corpo. Eu sou escritora destra, meu amor. Segurar minha mão direita é ter, na sua, o meu coração. Na nossa série engraçada, na de suspense, na de aventura. No nosso musical, no nosso filme romântico ou no desenho. No nosso poema, conto ou livro de ficção. O final pra mim é você, ainda que nunca termine. O final da lista, o final da garrafa, o final do ciclo da máquina de lavar. Fim de jogo. Fim da tinta. Fim do campeonato. Corinthians campeão. Dia das mães rendeu devolução de tupperware. O teclado é cruel quando comparado à caneta. A frieza do teclado corresponde às letras riscadas na folha de papel. Aos amassados, aos rasgados, aos perdidos e aos encontrados. Aos riscos no canto da folha pra testar a tinta e aos nossos nomes escritos dentro de um coração desenhado. As teclas destacam as mentiras e amenizam as verdades. Suavizam as curvas e censuram algumas traquinagens. Mas não hoje, se eu tenho coragem. Hoje eu aumento o nível de açúcar no sangue, rasgo foto, fico com fita adesiva nos dedos e fico colorida. É hoje que eu morro viva. Se a caneta funcionar, agora que o texto acaba.

09/05/2017 - Terça-feira, 18:45

Imagem e semelhança

23:05

  Seria mentira e seria tão inútil. Fingir que não nos conhecemos por cortesia. Alguém acreditaria? Talvez eu acreditasse. Afinal de contas, você só conhece a minha arte, que é tão pouco e ao mesmo tempo bastante. Suficiente, mas não necessário. E falando em poetas e poesias e coisas parecidas, onde anda você? Achou que era saudade, né? Mas são sinônimos. Isomorfos, com o mesmo radical poético. Poesia, amor e saudade. Não sou eu, é o papel que sente a sua falta. É por isso que preciso de tanto amor, pra ter alguns que gostem de ouvir esse CD sobre uma pessoa só. Se não se apaixonar pela minha escrita, melhor eu desistir e te deixar pra outra, porque meu lado poeta é por vezes o melhor e o pior, mas sempre é o mais verdadeiro de todos. Eles têm sido que nem eu, os meus escritos. À minha imagem e semelhança. Saem atrasados, se arrumam do jeito que dá e são tão inseguros que se derretem com todo e qualquer elogio. Demorados, assanhados, viajados, marcados e feitos pra você, como você pediu. Gostam de banhos quentes depois de dias frios e de balanços. De bolachas e de biscoitos, chame-os como quiser. Um dia eu acho meu balanço, como boa ou má libriana que sou. Me dá lugar na sua vergonha, me dá flor e outros clichês. Canetas especiais e a liberdade que eu preciso. Não me daria fim nem se quisesse. Eu mesma, não sei se quero.

volta ao mundo

Conformal ou Volta ao Mundo Madrugadão

00:27

- Chamei o atual pelo nome do ex e não foi a primeira vez. Já fiz no começo, por não lembrar mesmo. Já fiz por acaso, não foi ato falho. Já fiz em tantas histórias na cabeça. Dramáticas até demais, com aquelas brigas de novela, sérias o suficiente pra quebrar um coração mas inevitavelmente solucionadas com declarações de amor, tão melosas que colam os pedaços de volta, um por um. Porém, também de forma inevitável, os corações frágeis, mas que gostam de aventura, se quebrem de novo, antes mesmo de secar. O negócio é que, de noite, quando nos encontramos desencontrados, desesperados, desalinhados, atordoados e fazendo promessas de sobriedade para a semana que vem, qualquer amor é amor. Não que o nosso amor seja qualquer, não se engane. Eu abro espaço no meu colo pro meu amor dormir e na minha cama pra dobrar as suas roupas. Mas meu bem, o prazer é todo meu. Que prazer, por sinal. E afinal que tipo de personagem eu seria se não errasse o ponto de vez em quando? A dosagem, o tempo no forno, o horário e a sincronização das legendas. Você já me achou perdida, então se quiser reclamar até pode, mas não sei se vou resolver. Hoje tive uma fantasia de que filmava um primeiro beijo. Meu, mas meu amor gostava de ver. Teríamos nós aquele momento eternizado para sempre, enquanto o arquivo não se perdesse e as redundâncias fossem socialmente aceitas. Outra boca pra você elogiar, para colorirmos de batom e alegrar o nosso dia. Outra alma, talvez trigêmea. Outro amor, talvez imaginário. Falo isso sem a menor intenção de te provocar ciúmes, mas talvez um pouco com essa intenção, sim. Achei o sonho que eu tanto queria. Erótico, conformal, produto do inconsciente. Tão inusitado que estava aqui o tempo todo. Estava dentro da gaveta, salvo junto com as fotos, deixado no meio de um livro. Escrito do jeito que deu. Na margem, no verso, no resto e no inverso. Qualquer amor é amor depois que as crianças dormem e os eu-líricos acordam. Até o nosso, que não é qualquer, mas é amor. Pra um eu-lírico carente como eu, bem me serve. A essa hora da aurora, seu cobrador, qualquer amor é amor.