Era um trem.

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Era um trem, ela me disse. Ela olhou pro lado e viu um trem. E a luz do trem ficava cada vez mais e mais brilhante. Ela morreu. Pelo menos foi assim que ela me contou. Foi na hora do dia em que o céu fica na sua melhor cor. Anoitecendo, já dava pra ver a Lua, se não fosse a luz do trem. Ah, mas tão jovem! Daqui de cima ela te suplica que não chores. Não te desidrates por causa dela. Em primeiro lugar, ela claramente especificou que não queria cerimônia nenhuma e está decepcionadíssima ao ver vocês virando copinhos de café, um a um, para aguentarem a noite do ritual fúnebre. Alegra-se, entretanto, ao ver crianças correndo felizes ao redor do seu caixão. Nunca serviu para ser gótica pois odeia cemitérios. Mas em geral ela gosta da ideia de decorar ambientes com flores. Tá me contando agora que adora escutar os Titãs e a Marisa Monte cantando que as flores de plástico não morrem. A gente, de carne e osso, fatalmente suporta esse fardo. Ela me conta de quando recebeu flores num aniversário, mas que gostou muito mais das flores inusitadas. Correm boatos de que, em sua casa, há um vaso de flores artificiais roubadas, mas ela sempre desconversa. Durma tranquilo, leitor, ela teve uma boa vida. Além das flores roubadas, ouvi falarem de uma garrafa cheia de corações e várias garrafas vazias de vinho. Bebeu realmente a vida até a gota final. Lambuzou-se toda e ainda sofre com ressacas intermitentes, assim como o mar. Foi chamada de sereia pelo menos uma vez. Apaixonou-se perdidamente pelo menos quarenta e duas. Adotou um cachorro. Fez uma tatuagem. Conheceu o Amazonas, o São Francisco, o Nilo e o Danúbio. Foi pedida em casamento na grand-place de Bruxelas e passou a lua de mel de cama, por alguma intoxicação alimentar. Ela dá uma risada deliciosa quando conta essa história. Seus olhos se enchem de um brilho peculiar e, no milésimo de segundo seginte, ela perde um pedaço do coração. Assistiu todas as temporadas das séries que gostava e até aceitou a morte de um ou outro personagem. Fez teatro, aprendeu a tocar um instrumento e a dançar, não só com você. Quando cansasse de tudo, sucumbiria à poesia. Uma vez, chegou a ficar uma manhã inteira se confessando por ter escrito um poema, em alemão, sobre sexo anal. Foi absolvida pelo literato sob a penitência de escrever outro, ainda mais despudorado, em português. Aprendeu fotografia. Escreveu um livro. Viajou de trem. Recebeu uma serenata e retribuiu o afago com uma tentativa frustradíssima de cantar, registrada por câmeras que nada perdoam, lá do plano de baixo.

Flashes iluminaram, mais tarde, a cena dela morta, com o antigo corpo, agora lesado, estirado ao lado do trilho. Detetives e policiais tentavam entender o que aconteceu. Mas não foquemos na morte, leitores. Só sabemos que o trem tem um papel no acontecido, nada mais. Em um texto curto desses, sobre uma vida curta dessas, nem tudo é exposto. Perco algumas horas me confessando, mas ela me perdoa, certamente.

O piuiiii daquela sala podia ser ouvido daqui. Foi isso que a levou a contemplar a situação terrena. Duas crianças, cansadas, buscavam apenas alguma diversão naquele velório. Nem conheciam direito a defunta. Ela parecia estar muito satisfeita com a brincadeira, mas os pequenos foram repreendidos pela mãe.
Afinal de contas, aquilo ali não era lugar de brincar de trenzinho.