marca página

21:46

[...]

 No dia 5, ela só escreveu. Escreveu até não poder mais. Chegou em casa e, como se fosse trabalho a ser feito, escreveu. Também como se fosse a novela que ela tanto queria ver – ou livro que ela muito queria ler – escreveu. Como se fosse passatempo, esporte. Como se fosse seu vício, ofício ou sacrifício. Escreveu como se não houvesse amanhã. Como se estivesse apaixonada, depois como se não estivesse. Escreveu até cair o braço. Caíram com ele as palavras, que precisavam sair naquele momento de suas veias, de suas entranhas. Fez das tripas coração e do coração fez texto, tudo para poder ser lida. Escreveu como se a vida fosse só aquilo até o ponto. Depois o outro ponto. Outra vida, era disso que ela precisava! Escreveu para que pudesse dormir de noite. Escreveu para que ou outros pudessem dormir e ela parasse de gritar, em silêncio, todos os pensamentos bons e maus que entravam pela janela e encostavam na sua cabeça fraca. Escreveu porque existiu. Porque viveu mais um dia para contar história e ah! Quanta história ela quer contar. Seus dedos curtos e ágeis a traíam, enquanto revelavam sua vida e morte a quem quisesse e tivesse disposição para descobrir. Era possível escrever sobre escrever, por escrever. Era possível escrever, como verbo intransitivo. Meramente escrever em si. Escrever em sim. Escrever, enfim.
[...]

era um bar

Era o mesmo bar de rock

13:28


Eu vou deixar pra escrever amanhã, porque ainda não li o que eu planejei. Fui na biblioteca querendo te encontrar, mas quando peguei o nosso livro, vi que a gente se encontrou foi numa estação de trem. Foi só isso que eu vi, não cheguei no final ainda. Eu vou deixar pra escrever amanhã, porque a nossa história tem que servir de inspiração, e hoje a gente brigou feio então, se eu escrevesse, poderia até te matar. E eu só me permito matar pessoas se elas forem personagens. Na minha interpretação, eu até posso matá-las, mas elas nunca morrem. Assim como você não morre mais, por razões a priori e posteriori discutidas. Tudo que eu escrevo tem um pouco de você. Até o que eu escrevi antes de te conhecer tem um pouco de você, porque você sempre foi o amor que eu tanto procurava. Se por acaso você não acreditar em destino, não tem problema, porque eu também sempre nego a minha crença. Fomos feitos um pro outro, do jeito poético, literal, físico, metafísico e espiritual. Além de tudo isso, foi uma tremenda coincidência a gente se conhecer nesse universo. Mas não vou escrever sobre nada disso hoje porque já tá tarde eu não vou conseguir encaixar aqui o fato de que eu fui no banheiro e demorei retocando a maquiagem bem na hora que tava tocando Sweet Child O' Mine. Você ficou bravo comigo e nem percebeu que eu te dei um passe livre na melhor música do Guns. Eu, pelo menos, suponho que essa é a melhor música deles, porque foi a única tocada naquela noite que eu reconheci. Esses especiais de banda de rock que você me arrasta, hein. Ainda por cima pra pedir hambúrguer sem cebola, fala sério. E pro show do Jorge e Mateus, quando você vai me levar? Eu já sei que não vai dar dessa vez, porque a gente vai olhar o preço do ingresso e decidir investir em outra coisa. Precisamos de uma panela nova e eu sei que você quer muito comprar aquela blusa que eu gostei, só pra me agradar. Eu me sinto tão amada que é como se sobrasse amor igual sobra açúcar no fundo da xícara de café. Ainda bem que eu gosto de café doce, mas não vou escrever sobre isso hoje, porque corro o risco de não conseguir fazer você sentir o mesmo. Não posso escrever hoje porque sinto que vai aparecer no texto a minha vontade de esfolar a cara de uma pessoa no asfalto. Talvez, depois de escrito, o sentimento se acalme um pouco, mas de qualquer forma, quem ela pensa que é pra querer se meter no meio da gente? Viu, hoje não posso escrever, porque ela queria aparecer, e assim ela vai conseguir. Se for destino isso, então que seja, mas não serei eu a escrever. Não devo escrever hoje porque, mesmo sóbria o suficiente para omitir, estou alterada o suficiente para revelar. Não devo escrever hoje porque aquele bar de rock não me lembrou só de você, mas admito que foi você que arrebatou o meu melhor sorriso da noite. Sem música específica, sem trechos dessa vez e sem solos de guitarra que não vão me conquistar. Nessa madrugada, sem engenharia, sem direito e definitivamente sem matemática. Você é amor em formato máximo e por isso eu não devo te escrever.
Amanhã quem sabe, mas não hoje.

poesia

o poema caleidoscópico

13:50


pode ser que é teimosia
orgulho ou insegurança
se as palavras fazem dança
vou chamar de poesia
essa obra ainda incompleta
eu já tenho até minha meta
até o fim, vou rimar
do jeito que der pra fazer
sou capaz até de apelar
mas eu faço rimar pra você

eu quero é fazer um palpite
de conselho pode chamar
e azar de quem me critique
de qualquer jeito eu vou dar

aprendi coisa pertinente
pra quem é morador, residente
de cidade apaixonável
que tal qual meu coração
até mesmo no verão
tem o clima meio instável

esse guarda-chuva perdido
encontrou, pode ficar
não pense que foi roubado
talvez foi até esquecido
mas agora que conquistado
dele melhor não largar

contanto que ele queira
vê se não deixa escapar
já fiz muito essa besteira
talvez já esteve comigo
mas escuta bem o que digo
não pense que eu vou voltar

vê se não deixa ir embora
como por vezes já fiz
talvez foi em boa hora
agora que foi achado
talvez até consertado
talvez ele é mais feliz

realize esse meu desejo
e os seus melhores pedidos
deixando bem protegidos
os sorrisos que eu prevejo

achei que era chuvarada
meu desejo era desabar
escuta o barulho, inspirada
é o céu a te agraciar

eu que já tive tantos
ou ao menos escrevi
cantos e desencantos
mas até agora, sorri

desde corações quebrados
assuntos mal resolvidos
plurais mal concordados
amores correspondidos
guada-chuvas achados
trens e ônibus perdidos

se achou o meu antigo
eu te aconselho a cuidar
chegasse aqui, meu amigo
primavera há de chegar

e quanto a esse romance
eu que fui azarão
ou você que teve sorte
a gente perdeu a chance
de virar reconciliação
debaixo de chuva forte

não se atreva a analisar
o poema caleidoscópico
rimar tudo é tão utópico
e a minha mão já fria
logo vai raiar o dia
mas quem pode me julgar?
não importa mais o trópico
aqui chove poesia
quero mesmo é me molhar

poesia

ela

21:48

ele me disse
sou sua
como o mais articulado
e impetuoso
ato falho
ele me disse
sou sua
aproveitando-se
das artimanhas
do português
flexionando pronome
e discordando em
gênero, número e grau
ele me disse
que é minha
e assim
concomitantemente
virou musa e artista
e como se não bastasse
virou bela obra ainda
ele me disse
sou sua
porque comigo
ele é o que quiser
e se ele quer ser minha
eu que sou bem feliz
ele me disse
sou sua
como quem fosse
minha paixão
e minha ilusão
minha luz
e escuridão
começo e fim de mês
dia dez e dia
vinte e seis
todas as minhas estações
equinócios, solstícios,
galáxias e constelações
minha primavera
verão e meu inverno
meu céu e meu
inferno
ele me disse
sou sua
e eu respondi
também sou
dela e dele
seu e sua
meu e minha
todinha
somos os dois
ou as duas
rascunho ou arte final
que acaba
por bem ou por mal
mas não chores, não
sorria
se ele é mesmo minha
não duvido
mas quem diria
essa aí vai acabar
é virando poesia

impublicáveis

impublicável em 3 atos

20:35

I

se até ele tem seus impublicáveis
por que eu não haveria de ter?
não é que eu simplesmente goze pensando em você
eu escrevo pensando em você
não tem os seus impublicáveis
por quê?
não existe poema impublicável
os não publicados simplesmente não existem
te deixariam tristes se existissem?
são sobre vergonha e cobrança?
tristeza e solidão?
procurar no dia todo um motivo pra chorar
não achar

e continuar procurando?
medo de encarar a vida
medo de que a minha desvie da sua
não é que eu simplesmente goze pensando em você
pensando
[gozando]
em mim
ainda bem que vou trabalhar escrevendo em quadro
porque quando tiver que consultar por LER
de tanto escrever ou bater siririca
eu posso usar essa desculpa
amor desculpa
impublicável é o caralho
poema impublicável existe só
onde existe contradição
é platônico
alucinação
não é que você simplesmente goze na minha cara
você escreve com o meu corpo
o que melhor achar
e ainda faz crítica literária

essa playlist também me mata
mas eu boto no volume máximo
e rezo pra ela continuar boa
tudo me lembra você
de forma ruim ou melhor
não gosto de passar frio
porque ele disfarça o frio da minha barriga
quando eu vejo você
boto a culpa no zodíaco
pois sei que é toda minha
assim na terra
como no ar
dizia que não gostava de sofrer
mas também era louco por drama
imagino nossas piores brigas
ensaio argumentos
e até sentimentos ruins
os bons
são inensaiáveis
imaginados com o mesmo fogo
ou água
superam sempre as expectativas

se reconheça
em toda a obra
que eu fizer ou já fiz
no universo
que já era nosso

antes de fazer-se a luz

II

se deus tivesse que mandar
uma amostra de seu trabalho
para o concurso
ela certamente mandaria você
cantada barata
mas (mais) pura verdade
pecado inconfessável
poema impublicável
a mais perfeita e complexa
combinação de sentimentos
contradições e absurdos
poros e pelos
curvas e olhares
não era sua obra mais
bem acabada
mas era sua preferida

eu virei calçada quando você morreu
concreto
minha silhueta no chão
riscada de giz
era louca e por isso morreu
não se matou
mas viveu de amor
botou a culpa na Lua
porque sabia
que era toda dela

III

eu já te dei o universo
mas sou abstrata o suficiente
para não dá-lo a uma pessoa
eu dou a um sentimento
o sentimento
por sentimento
com sentimento
eu dei o universo pro amor
aquele
que arrebata
que mata e revive
respira, entorpece
e volta
vomita
goza
aperta o coração
deixa sem ar
sem amar
dor de cabeça
dor nos ombros
é fardo!
mas é bom fardo
que cansa ao mesmo
tempo que energiza
se eu dei o universo pro amor
é porque ele era meu
e você respondeu
- eu só quero você
quem sou eu pra me dar
se eu sou da rua
eu sou da Lua
coloco a culpa nela porque sei
que sou toda minha

se eu dei o universo pro amor
agora dou amor pro universo
em forma de texto impublicável
que é minha melhor versão
talvez não a mais bem
acabada, mas a minha
preferida definitivamente
em três atos não
começo, meio
não fim ainda
mas amor,
amor
e ainda mais amor

volta ao mundo

Volta amor Carvoeira sul

09:00


Eu vou deixar os outros amores para os universos paralelos. Eu vou deixar os outros amores numa gaveta discreta do armário de casa, numa gaveta discreta de mim. Vou pedir pra não abrirem e não tirarem nada do lugar, mas se quiserem, então que seja. Então prefiro que seja você. Mas devolva cada um de volta, pra onde estava. Os tantos outros amores devem mesmo é ficar ali.
Eu vou deixar meus outros amores pra contar nas próximas sessões de terapia comigo mesma. Vou deixá-los no será que será. Será que poderiam ter sido, outros amores? Se ele não fosse o meu amor, então talvez seria você. Mas se ele fosse, o meu amor, se ele deixasse o lugar vago pra você, será que teria dado certo? Será que você também não teria ido? Quanto eu teria amado, sofrido, desabafado e escrito sobre você? Quantas declarações teríamos feito? Teria eu invocado outros universos, ainda mais paralelos, por você? Talvez pudesse ter sido a gente, amor. Talvez pudesse ter sido amor.
Mas vou deixar meus outros amores para conjecturar, para imaginar as situações mais inusitadas. Vou deixar meus outros amores pra esquecer. Vou deixá-los no ponto. Quantos passaram que a gente perdeu? Quantos amores? Mas estão nos seus lugares, perdidos.
Vou deixar os outros amores para escrever, na constante aflição de que talvez fosse mais romântico te deixar ali também. No tempo esperado no ponto de ônibus. Na narração detalhada do primeiro beijo. Na mais longa aflição, que é a por reconhecer o seu rosto no meio dos outros.
Eu não sou tão boa com fisionomias. Note que os outros amores nem sempre têm rosto, mas podem ter seu cheiro e gosto, e a mesma cor de olhos dos seus, verdes. Ou da tempestade, castanhos. Ou da cor do pôr do Sol.
Todo outro amor é inspiração. E pra não ser mais um outro amor, tem que ser muita inspiração.
Eu vou guardar os outros amores juntos com os nossos bilhetes não premiados da loteria. Junto com os meus cartões não enviados ou não recebidos. Vou guardar com meus celulares roubados e arquivos perdidos, talvez achados. Com nossas conversas, contatos e sorrisos.
Quero deixar vivo o personagem mais apaixonante da história, mas que vença o melhor romance.
Os outros, deixo numa caixa na casa da mãe, onde um dia eu vou buscar um porta-retrato com tema de casal e uma foto nossa, no dia dos namorados.
Os outros amores, eu deixo pra olhar pra trás e pensar, será que era você? Será que era? Será que seria?
Eu, que sou tão fácil, farei uma bela coleção de outros amores, menos ou mais possíveis. Estaria eu na coleção de outros amores dos meus outros amores? Ou ainda, será que eu tenho a coleção ou será ela que me tem? De qualquer forma, sou refém. De um amor e de outros. De todos, mas principalmente do meu.
Vou deixar os outros amores para os outros universos. Por escolha nem sempre minha. Por intervenção do destino ou do acaso. Por falta de tempo ou circunstância, mas não por falta de amor. Vou deixar os outros amores para sentir saudade do que não aconteceu.
Vou deixar os outros amores para os universos paralelos.
Esse universo, meu amor, não tem mais jeito, é todo nosso.

poesia

voltar-te-ei

00:24

eu vou voltar
eu vou voltar pro seu condomínio
sei que já me mandou embora
contando segundos
contando que eu ia voltar
então nem venha reclamar
avisa o porteiro que eu vou voltar
avisa a sua mãe que eu vou voltar
depois de doze poemas
cinquenta e quatro pedidos
sete maquinadas
vinte partidas de truco
e oitenta e três de coração
isso chutando baixo
uma caixa de curativos
dois rascunhos de TCC
uma prece, cinco livros
eu vou voltar depois que fechar o cartão
e eu pagar os meus pecados
eu vou voltar depois de ter você
quando o Sol aparecer
quando a brisa bater eu vou voltar
quando a cortina mexer
e o esmalte secar
quando eu decorar aquela música
aquela que você gosta
se você não estiver apaixonada por outra até lá
eu vou voltar
eu vou te procurar
por todas as ruas
e corações que você já morou
eu vou fazer serenata
eu vou levar meu bumbo e pandeiro
vou preparado pra te levar pra casa
que é comigo
não sei onde
avisa a janela que eu vou voltar
se apoia na primeira vista
que a minha volta não é de segunda
é de semana inteira
mês, ano, década
tempo de amor bem vivido
infinito enquanto dure
se não der, se não durar
eu vou de novo
daí você espera um pouco
e avisa sua mãe de novo
eu vou me revoltar
voltando-te de novo

Corinthians campeão

01:21



  E se eu te falar que joguei fora as alianças e devolvi o chaveiro e o copo? Me livrei das cartas abertas e fechadas. Já preenchi o rascunho deixado pelo TCC e tô esperando pra ver aquele filme só com você. E aquele outro quero ver de novo. Queria entender como que caralhos as minhas últimas buscas envolvem de sex shop e motel Floripa até vestido de noiva Cinderela e serenata Vitório alma gêmea. Gritavam para a separada não porque achavam que ela não amava, mas porque sabiam que ela amava demais. Você sempre soube e eu nunca reclamei. As palavras, depois que passam pela cabeça, vão direto para o lado direito do corpo. Eu sou escritora destra, meu amor. Segurar minha mão direita é ter, na sua, o meu coração. Na nossa série engraçada, na de suspense, na de aventura. No nosso musical, no nosso filme romântico ou no desenho. No nosso poema, conto ou livro de ficção. O final pra mim é você, ainda que nunca termine. O final da lista, o final da garrafa, o final do ciclo da máquina de lavar. Fim de jogo. Fim da tinta. Fim do campeonato. Corinthians campeão. Dia das mães rendeu devolução de tupperware. O teclado é cruel quando comparado à caneta. A frieza do teclado corresponde às letras riscadas na folha de papel. Aos amassados, aos rasgados, aos perdidos e aos encontrados. Aos riscos no canto da folha pra testar a tinta e aos nossos nomes escritos dentro de um coração desenhado. As teclas destacam as mentiras e amenizam as verdades. Suavizam as curvas e censuram algumas traquinagens. Mas não hoje, se eu tenho coragem. Hoje eu aumento o nível de açúcar no sangue, rasgo foto, fico com fita adesiva nos dedos e fico colorida. É hoje que eu morro viva. Se a caneta funcionar, agora que o texto acaba.

09/05/2017 - Terça-feira, 18:45

Imagem e semelhança

23:05

  Seria mentira e seria tão inútil. Fingir que não nos conhecemos por cortesia. Alguém acreditaria? Talvez eu acreditasse. Afinal de contas, você só conhece a minha arte, que é tão pouco e ao mesmo tempo bastante. Suficiente, mas não necessário. E falando em poetas e poesias e coisas parecidas, onde anda você? Achou que era saudade, né? Mas são sinônimos. Isomorfos, com o mesmo radical poético. Poesia, amor e saudade. Não sou eu, é o papel que sente a sua falta. É por isso que preciso de tanto amor, pra ter alguns que gostem de ouvir esse CD sobre uma pessoa só. Se não se apaixonar pela minha escrita, melhor eu desistir e te deixar pra outra, porque meu lado poeta é por vezes o melhor e o pior, mas sempre é o mais verdadeiro de todos. Eles têm sido que nem eu, os meus escritos. À minha imagem e semelhança. Saem atrasados, se arrumam do jeito que dá e são tão inseguros que se derretem com todo e qualquer elogio. Demorados, assanhados, viajados, marcados e feitos pra você, como você pediu. Gostam de banhos quentes depois de dias frios e de balanços. De bolachas e de biscoitos, chame-os como quiser. Um dia eu acho meu balanço, como boa ou má libriana que sou. Me dá lugar na sua vergonha, me dá flor e outros clichês. Canetas especiais e a liberdade que eu preciso. Não me daria fim nem se quisesse. Eu mesma, não sei se quero.

volta ao mundo

Conformal ou Volta ao Mundo Madrugadão

00:27

- Chamei o atual pelo nome do ex e não foi a primeira vez. Já fiz no começo, por não lembrar mesmo. Já fiz por acaso, não foi ato falho. Já fiz em tantas histórias na cabeça. Dramáticas até demais, com aquelas brigas de novela, sérias o suficiente pra quebrar um coração mas inevitavelmente solucionadas com declarações de amor, tão melosas que colam os pedaços de volta, um por um. Porém, também de forma inevitável, os corações frágeis, mas que gostam de aventura, se quebrem de novo, antes mesmo de secar. O negócio é que, de noite, quando nos encontramos desencontrados, desesperados, desalinhados, atordoados e fazendo promessas de sobriedade para a semana que vem, qualquer amor é amor. Não que o nosso amor seja qualquer, não se engane. Eu abro espaço no meu colo pro meu amor dormir e na minha cama pra dobrar as suas roupas. Mas meu bem, o prazer é todo meu. Que prazer, por sinal. E afinal que tipo de personagem eu seria se não errasse o ponto de vez em quando? A dosagem, o tempo no forno, o horário e a sincronização das legendas. Você já me achou perdida, então se quiser reclamar até pode, mas não sei se vou resolver. Hoje tive uma fantasia de que filmava um primeiro beijo. Meu, mas meu amor gostava de ver. Teríamos nós aquele momento eternizado para sempre, enquanto o arquivo não se perdesse e as redundâncias fossem socialmente aceitas. Outra boca pra você elogiar, para colorirmos de batom e alegrar o nosso dia. Outra alma, talvez trigêmea. Outro amor, talvez imaginário. Falo isso sem a menor intenção de te provocar ciúmes, mas talvez um pouco com essa intenção, sim. Achei o sonho que eu tanto queria. Erótico, conformal, produto do inconsciente. Tão inusitado que estava aqui o tempo todo. Estava dentro da gaveta, salvo junto com as fotos, deixado no meio de um livro. Escrito do jeito que deu. Na margem, no verso, no resto e no inverso. Qualquer amor é amor depois que as crianças dormem e os eu-líricos acordam. Até o nosso, que não é qualquer, mas é amor. Pra um eu-lírico carente como eu, bem me serve. A essa hora da aurora, seu cobrador, qualquer amor é amor.

poesia

fim de semana

21:23

sexta

em vez de declamação
eu falava reclamação de poesia
antes mesmo de pensar
que escreveria
no fim do dia, então
se eu fosse reclamar
eu mesma me atenderia
isso são horas, menina?
hoje já fechou
acabou o mês
não tem mais dia útil
aderimos à greve geral
não faço mais rima hoje
nem por bem e nem por mal

sábado

alguém lhe falou
que amor
ultrapassava o corpo
não estavam mentindo
mas quando amou
ela foi o mais corpo possível
mas o corpo não é eterno
e ela não acreditava
nem em céu nem em inferno
então felizes para sempre
existe só mesmo na arte
poesia é amor
amorfo
intáctil
atemporal
incomensurável
(que ela considerava
a melhor palavra
da língua portuguesa)
então era isso que faziam
os artistas
não só amavam
mas o amor eternizavam
podem invocar o apocalipse
queimar todos os papéis
limpar todos os servidores
amor uma vez escrito
acabou
ou melhor
não acaba nunca mais

domingo

na alegria e na tristeza
na riqueza e na pobreza
na saúde e na doença
até que nem a morte os separe
proclamou a arte
pode rimar a noiva
falou a poesia
ou alternativamente
quando voltamos à forma
ao corpo
ao tempo
à medida
até que a vida os separe
porque ela faz essas coisas
prega peças
mas ela sabe o que faz
eu que não sei
digo que sei escrever
mas ainda não sei contar
sei chorar e sei sorrir
já nasci sabendo sentir
e não aprendo a controlar
não sei terminar poesia
não me obrigue, por favor
e o clichê você já conhecia
eu só sei rimar com amor

Bolinho de chuva

00:45

  Ela disse que me amava ao terceiro dia e eu, obviamente, duvidei. Mas ela me amava de verdade. Amava o máximo que ela podia naquela quarta-feira cinzenta. E sem a menor compaixão, ela ainda me disse que era melhor eu fazer alguma coisa até o dia seguinte, porque na sexta-feira ela era da Lua. Não entendi bem o que ela quis dizer, mas achei melhor tomar atitude. Entretanto, calculei mal o tempo que levaria para ela escolher a bebida, depois o tempo da bebida chegar, e o tempo da minha recuperação de fôlego depois das risadas dela. Já era meia noite e oito quando eu tasquei um beijo naquela moça. Ela vai dizer que foi ela que me beijou, se você a perguntar, o que pode ser bem verdade, mas pra mim a relação de beijar é simétrica então tanto faz. Ainda assim, ela me rotulou como um "homem de sexta-feira". Ela dizia que era fácil ser esse tipo de homem, comparado com os homens de terça ou de quarta, mas que ainda era melhor do que ser um homem de sábado ou de domingo. Eu dizia que ela deveria parar de rotular as pessoas ela dizia que fazia isso porque era virginiana. Ou leonina. Sei lá. E dizia que era brincadeira, mas tinha um fundinho de verdade, sim. Ser homem de sexta-feira tinha lá as suas vantagens, mas as sextas ao lado dela seriam divertidas de qualquer jeito. Eram as terças que pegavam a gente. Foi numa terça que a gente chegou atrasado nem lembro aonde, porque ela foi jogar o que tinha cortado das unhas no quintal, antes de sair. Seu primeiro marido ria feito louco quando ela saía para, nas palavras dele, plantar unha. Ela dizia que podia fazer um pedido pra cada. Eu dizia que superstição era besteira e ela dizia que, de qualquer jeito, não se deveria perder uma oportunidade de fazer pedidos. Fazia pedidos com cílios também. Inventou que podia fazer pedido quando via o horário e as horas estavam iguais aos minutos. Ou quando via no número um palíndromo. O mesmo valia para placas de carros. E fazia pedido também quando via fusca azul. Nesses, geralmente, ela só pensava em pedir justamente aquele modelo de carro da cor do céu, porque não era criativa o suficiente com pedidos. Não gostava de pedir amor porque adorava mesmo era conquistar. Pedia felicidade e dinheiro de vez em quando. Um dia sem chuva, no terceiro mês do ano, para ela poder lavar roupa e não precisar cantar que é pau, é pedra, é o fim do caminho. Mas quando chovia, ela gostava também, pois refrescava e ela podia ver as crianças correndo para as suas casas pra comer bolinho de chuva. Ah, era isso que ela deveria ter pedido. Ela disse que me amava ao terceiro bolinho de chuva que eu comi na casa da vó dela. Eram três e cinquenta e um da tarde.
  Eu só pedi pra que fosse verdade.

Nhoque

23:27

Meu ombro range por horas antes da chuva. É dor de quem precisa escrever e que vai descarregar frases bem, ou mal pensadas, em um pedaço de papel. Digo pedaço de papel porque tenho certo apreço ao passado. Se eu tivesse nascido em outra época, o canto dos meus ossos e o desabar de águas não teria como consequência esse tec tec frenético em teclas de computador.

Além das roupas esquecidas e das crianças extasiadas, os corações apaixonados são os únicos que tomam banho de chuva.

Qualquer quantia considerável de tempo sem você me faz querer escrever sobre como a solidão dorme comigo. Minha cama faz barulho devido à hóspede indesejada, de tanto que eu me reviro, tentando apenas ser capaz de ver o Sol nascer sem você.

Não me diga, por favor, que minhas declarações de amor são hiperbólicas demais. Ora, jamais se viu tal redundância.

Meus tec tecs ficam mais lentos porque a frase perfeita está escondida a sete mil chaves. Você é atalho. Se você está pronto, vivo e agosto, nada mais urge por ser exposto.

Amor não dito, de que me vale?

Procuro proparoxítonas para demonstrar amor. Acompanhadas por rimas ricas e um título cativante.

Inocente eu, que pensei que seria mais fácil escrever sobre amor depois de prová-lo. É possível cansar-se da escrita, mas até hoje não me saciei desse sentimento sórdido, que já inspirou tantos e prantos. Ilusão minha.

Vem para a chuva comigo. Já não tenho escapatória.

Se o texto escrito não for perfeito, o amor, pelo menos, será.

Era um trem.

01:59



Era um trem, ela me disse. Ela olhou pro lado e viu um trem. E a luz do trem ficava cada vez mais e mais brilhante. Ela morreu. Pelo menos foi assim que ela me contou. Foi na hora do dia em que o céu fica na sua melhor cor. Anoitecendo, já dava pra ver a Lua, se não fosse a luz do trem. Ah, mas tão jovem! Daqui de cima ela te suplica que não chores. Não te desidrates por causa dela. Em primeiro lugar, ela claramente especificou que não queria cerimônia nenhuma e está decepcionadíssima ao ver vocês virando copinhos de café, um a um, para aguentarem a noite do ritual fúnebre. Alegra-se, entretanto, ao ver crianças correndo felizes ao redor do seu caixão. Nunca serviu para ser gótica pois odeia cemitérios. Mas em geral ela gosta da ideia de decorar ambientes com flores. Tá me contando agora que adora escutar os Titãs e a Marisa Monte cantando que as flores de plástico não morrem. A gente, de carne e osso, fatalmente suporta esse fardo. Ela me conta de quando recebeu flores num aniversário, mas que gostou muito mais das flores inusitadas. Correm boatos de que, em sua casa, há um vaso de flores artificiais roubadas, mas ela sempre desconversa. Durma tranquilo, leitor, ela teve uma boa vida. Além das flores roubadas, ouvi falarem de uma garrafa cheia de corações e várias garrafas vazias de vinho. Bebeu realmente a vida até a gota final. Lambuzou-se toda e ainda sofre com ressacas intermitentes, assim como o mar. Foi chamada de sereia pelo menos uma vez. Apaixonou-se perdidamente pelo menos quarenta e duas. Adotou um cachorro. Fez uma tatuagem. Conheceu o Amazonas, o São Francisco, o Nilo e o Danúbio. Foi pedida em casamento na grand-place de Bruxelas e passou a lua de mel de cama, por alguma intoxicação alimentar. Ela dá uma risada deliciosa quando conta essa história. Seus olhos se enchem de um brilho peculiar e, no milésimo de segundo seginte, ela perde um pedaço do coração. Assistiu todas as temporadas das séries que gostava e até aceitou a morte de um ou outro personagem. Fez teatro, aprendeu a tocar um instrumento e a dançar, não só com você. Quando cansasse de tudo, sucumbiria à poesia. Uma vez, chegou a ficar uma manhã inteira se confessando por ter escrito um poema, em alemão, sobre sexo anal. Foi absolvida pelo literato sob a penitência de escrever outro, ainda mais despudorado, em português. Aprendeu fotografia. Escreveu um livro. Viajou de trem. Recebeu uma serenata e retribuiu o afago com uma tentativa frustradíssima de cantar, registrada por câmeras que nada perdoam, lá do plano de baixo.

Flashes iluminaram, mais tarde, a cena dela morta, com o antigo corpo, agora lesado, estirado ao lado do trilho. Detetives e policiais tentavam entender o que aconteceu. Mas não foquemos na morte, leitores. Só sabemos que o trem tem um papel no acontecido, nada mais. Em um texto curto desses, sobre uma vida curta dessas, nem tudo é exposto. Perco algumas horas me confessando, mas ela me perdoa, certamente.

O piuiiii daquela sala podia ser ouvido daqui. Foi isso que a levou a contemplar a situação terrena. Duas crianças, cansadas, buscavam apenas alguma diversão naquele velório. Nem conheciam direito a defunta. Ela parecia estar muito satisfeita com a brincadeira, mas os pequenos foram repreendidos pela mãe.
Afinal de contas, aquilo ali não era lugar de brincar de trenzinho.