era um bar

Era outra sala espera

15:20

Lá estava eu esperando o meu nome ser chamado por alguma das secretárias. Batia o pé, olhava as revistas, olhava os gibis, tomava água e decidia, por fim, acompanhar o filme romântico, com a trilha sonora ruim, que passava na televisão do consultório. Dessa vez tinha sido feio. A dor nas costas me deixou sem dormir por noites seguidas e foi muita sorte que a médica conseguiu um encaixe pra me atender. Não somente para as minhas costas, mas digamos que a consulta com o cardiologista já podia ser desmarcada. É seguro afirmar que nessa sala de espera eu encontrei o amor da minha vida. Meu coração, doutora Nádia, já não mais corre perigo. Seus óculos combinavam perfeitamente com o seu cabelo. Todos os formatos se encaixavam - o da janela, o da cadeira, o do seu nariz e o da revista aberta na sua frente. Entre as páginas sobre a viagem dos sonhos, de lua de mel, que algum casal de famosos fez, e a sábia decisão de fechar aquela revista de fofocas e sucumbir às boas e velhas histórias em quadrinhos, caiu da revista um panfleto. O pedaço de papel tinha a mesma idade daquelas velhas novidades contidas na revista. Nele, lia-se "Oficina de contos mal acabados - TODA QUINTA". Ela deu uma risada de quem acha aquilo muito esquisito, mas que deseja, do fundo do coração, que seja de verdade. Uma oficina de contos mal contados, seria o seu sonho? Imaginem, um encontro de todo tipo de artista, bem ou mal sucedidos. Brilhantes compositores desconhecidos, potentes cantores desafinados e intensos poetas, em sua maioria, falidos. O sentimento de conexão com aquela menina foi tão intenso que anulou a raiva que eu sentia, inicialmente, de mim mesmo, por não ter retirado todos aqueles panfletos, de todas aquelas revistas, daquela sala de espera. Eu já avisei pro Daniel que não é pra ele distribuir por aqui. Nesse lado da cidade, eu ainda fico tímido. Não podem descobrir que eu sou romântico. Mas ah, como organizador da oficina e fervoroso crente na sorte, tenho convicção de que essa menina vai ganhar um conto, por bem acabado ou por mal. Um daqueles levemente melosos, que falem sobre a fortuna de amar novamente, porque oh como é cruel o destino, mas que não deixem transparecer qualquer confiança no acaso. Daqueles em que nem é cogitado o que seria de mim se eu não tivesse dado um mal jeito nas minhas costas enquanto me divertia com um ex amor. Ou se a médica não tivesse aquele encaixe. Ou se eu tivesse encontrado todos os panfletos antes dela. Ou se o Daniel nem os tivesse distribuído! Ou se ela não tivesse sido vista na oficina. Não dessa semana, mas da próxima. Imagina que ousadia nem me dar a cortesia de não ter tempo pra não acabar um conto pra ela.