volta ao mundo

Volta ao mundo Pantanal morte

01:15

- Eu vou morrer logo.
Foi o que eu respondi pra menina quando ela me perguntou por que eu escrevia. Veja bem, eu até que sou jovem ainda. Se vivi uns dez ou onze amores, foi muito. Isso contando aqueles arrebatadores, aqueles de chorar. Contudo, se variarmos a escala, eu vou morrer daqui a pouco mesmo. Também espero que alguém me mate antes de ler esse texto. Alguém deve ter me falado disso em algum outro ponto de ônibus. Até você, guria, se for ler, esquece a cor do meu cabelo, esquece o meu olhar quando falo dos meus amores e ignora o fato de que viu a capa do meu caderno e a minha caneta roxa. É assim que se lê: matando quem escreve. Mas eu menti pra você. Devo confessar que, na verdade, escrevo porque não tenho talento pra música e nem pra desenho, e essas palavras jogadas consistem na única maneira que encontrei de guardar as minhas paixões. Veja bem, menina, algumas paixões acabam. Acabam e tudo bem. Talvez, se você acredita em universos paralelos, elas não acabem. Ou talvez, se você for muito romântica, mas muito mesmo, elas nunca acabem porque isso simplesmente seria um absurdo. A gente nunca sabe o que vai acontecer, né? Vai que eu morro mesmo antes de passar o próximo volta ao morro. Por isso que eternizo alguns detalhes em palavras. Eu minto o tempo todo, e às vezes é até sem querer. Aquela música não vai sempre me lembrar você. Qualquer música de amor pode me lembrar de qualquer amor. Mas aquela frase que eu escrevi de caneta roxa chorando no ponto de ônibus, ah, ela vai sempre me lembrar você. Eu vou morrer logo, mas você não. Veja bem, até que a gente ainda é jovem, talvez dois ou três amores de diferença. Eu já admiti o meu vício nesse sentimento. No meu funeral, dirão que, de amor, ninguém nunca morreu tanto. Talvez eu mereça isso mesmo. Quem mandou se meter com droga tão pesada? Talvez nós, os viciados, os apaixonados, os sonhadores, mereçamos tal fim. O fim da dose de amor. Pode mandar mais uma, que o meu corpo aguenta. Veja bem, eu até que sou jovem ainda. Se vivi uns doze ou treze amores, foi pouco.
- Mas precisa ser de caneta roxa?

cartas ridículas

Topologia das cartas abertas

01:01

Meu amor,

Desde que a frase "je ne supporte pas de t'écrire" me levou a ler cartas eróticas em francês na internet, eu confesso que estou com uma mania incontrolável de cartas de amor. Mas o que são, nos tempos de hoje, cartas de amor, senão um passatempo de quem gosta de escrever? O que elas são, meu amor, senão redundâncias? Seriam elas um jeito de escrever aquilo que não precisa ser escrito? Sempre foram? E são tão ridículas, todas elas. Sempre foram! Tão cheias de promessas e tão cheias de mentiras. Mentiras, mas que escritas com tanta coragem e delicadeza pelo remetente, até parecem verdades. Ou talvez mentiras, que escritas na ausência tão sentida do destinatário, chegam mesmo a virar verdades. Afinal, o que são elas, as cartas de amor, e o que sempre foram, senão uma tentativa de encurtar distâncias? Por mais que eu goste de escrever, meu amor, só o faço neste momento pois estou impossibilitada de te acariciar como gostaria. Na falta, sinto-me obrigada a tentar, ao menos, colocar em palavras aquilo que o meu corpo chora e sangra. Eu te amo tanto que chega a doer. Mas, essa dor, ah, meu amor, eu não desejo nem para o meu pior inimigo a incompletude de morrer sem senti-la. O ar é mais rarefeito para nós, os apaixonados. Ele nos falta de tempos em tempos, naqueles momentos em que a saudade aperta o peito e morremos um pouco, pois a nossa vida se resume a reencontro.
O que são elas, meu amor, as cartas de amor, senão chegadas e partidas? Ainda por cima, as cartas de amor só existem, de fato, quando são abertas. O que são, meu amor, longas cartas de amor, senão vestidos curtos, escolhidos a dedo para serem tirados e jogados no chão do quarto? E isso ainda é só o começo do que eu posso te prometer. Pois o que seriam as cartas de amor, meu amor, se não fossem exageros? Eu te prometo amor eterno e incontrolável. Te prometo a Lua e as estrelas. Te prometo todos os teus sonhos. Com os meus, não te preocupes. Eu costumava pensar que você parecia um sonho, mas agora sei que eram os meus sonhos que sempre se pareceram com você. Tentarei voltar a algum deles, pois, honestamente, não aguento mais te escrever.
Que a leitura faça a carta verdadeira.

Assino com o título que não acho que mereço, mas que gostaria de reivindicar,
Seu amor.

Obrigada, Fernando Pessoa. Je vous remercie beaucoup, Anaïs Nin.