poesia

de novo de novo de novo

03:12

ah, que gostoso escrever o poema
que há muito não faço
porque acho que tava ocupada
ou por cansaço
por falta de sobriedade
ou por excesso
mas ah
que bom vício
confesso

é aquela fantasia que há muito se guardava
é a notícia que há muito se esperava
é o sábado de quem tanto trabalhava
o amor de quem tanto procurava

mas ai, se eu não achasse
te procuraria nas,
vírgulas,
nas gavetas
nas garrafas de vinho
nas formas de gelo
pendurado no varal
atrás da cortina
em cima da mesa
colado na parede
jogado no chão
debaixo da cama
em cima da cama
em cima da coberta
debaixo da coberta
com a luz acesa
e
ah

ah
o texto que há tempos não faço
amor que há tempos eu acho

mas ai, ai de mim se eu não achasse
que tire de mim os clássicos
e tire de mim os bregas
tire de mim os casacos
lenços, meias e sapatos
só não me deixa sozinha
(não me deixa sem abraços)

jogue fora os meus rascunhos
suma com meu travesseiro
rasgue todas as minhas cartas
e acabe com o meu dinheiro

coma todos os doces da casa
e cancele o meu tcc
que me tire a licença poética
mas me deixe achar você

era um bar

Era outra sala espera

15:20

Lá estava eu esperando o meu nome ser chamado por alguma das secretárias. Batia o pé, olhava as revistas, olhava os gibis, tomava água e decidia, por fim, acompanhar o filme romântico, com a trilha sonora ruim, que passava na televisão do consultório. Dessa vez tinha sido feio. A dor nas costas me deixou sem dormir por noites seguidas e foi muita sorte que a médica conseguiu um encaixe pra me atender. Não somente para as minhas costas, mas digamos que a consulta com o cardiologista já podia ser desmarcada. É seguro afirmar que nessa sala de espera eu encontrei o amor da minha vida. Meu coração, doutora Nádia, já não mais corre perigo. Seus óculos combinavam perfeitamente com o seu cabelo. Todos os formatos se encaixavam - o da janela, o da cadeira, o do seu nariz e o da revista aberta na sua frente. Entre as páginas sobre a viagem dos sonhos, de lua de mel, que algum casal de famosos fez, e a sábia decisão de fechar aquela revista de fofocas e sucumbir às boas e velhas histórias em quadrinhos, caiu da revista um panfleto. O pedaço de papel tinha a mesma idade daquelas velhas novidades contidas na revista. Nele, lia-se "Oficina de contos mal acabados - TODA QUINTA". Ela deu uma risada de quem acha aquilo muito esquisito, mas que deseja, do fundo do coração, que seja de verdade. Uma oficina de contos mal contados, seria o seu sonho? Imaginem, um encontro de todo tipo de artista, bem ou mal sucedidos. Brilhantes compositores desconhecidos, potentes cantores desafinados e intensos poetas, em sua maioria, falidos. O sentimento de conexão com aquela menina foi tão intenso que anulou a raiva que eu sentia, inicialmente, de mim mesmo, por não ter retirado todos aqueles panfletos, de todas aquelas revistas, daquela sala de espera. Eu já avisei pro Daniel que não é pra ele distribuir por aqui. Nesse lado da cidade, eu ainda fico tímido. Não podem descobrir que eu sou romântico. Mas ah, como organizador da oficina e fervoroso crente na sorte, tenho convicção de que essa menina vai ganhar um conto, por bem acabado ou por mal. Um daqueles levemente melosos, que falem sobre a fortuna de amar novamente, porque oh como é cruel o destino, mas que não deixem transparecer qualquer confiança no acaso. Daqueles em que nem é cogitado o que seria de mim se eu não tivesse dado um mal jeito nas minhas costas enquanto me divertia com um ex amor. Ou se a médica não tivesse aquele encaixe. Ou se eu tivesse encontrado todos os panfletos antes dela. Ou se o Daniel nem os tivesse distribuído! Ou se ela não tivesse sido vista na oficina. Não dessa semana, mas da próxima. Imagina que ousadia nem me dar a cortesia de não ter tempo pra não acabar um conto pra ela.

poesia

ipsis litteris

11:47

eu não vou mais escrever

eu não vou mais escrever
porque é muito constrangedor
quem sou eu para o fazer
se a gente já é poesia
sem censura e sem pudor?

se fosse para escrever
tão somente seria
para usar aqueles vocábulos
que outrora eu não conhecia

mas não vou mais escrever
pois quem precisa de rima
quando se tem vento e cortina
manhã entrando da janela?

eu não vou mais escrever
já estou ficando velha
e deveras repetitiva

eu não vou mais escrever
se com o meu simples sorriso
você já tem transcrição
ipsis litteris
do que eu ainda nem te escrevi

pra tua língua
faço tradução
e se eu não achar as palavras
eu te dou procuração

de querelas, não me fale
nem de queixa ou discussão
só me arrume um passatempo
não vou mais escrever, não

poesia

estabanada

23:25

eu preciso é de um poema
já faz uma quarentena
que eu não escrevo nenhum
ainda bem que esse mês é agosto
tem até dia trinta e um
há quem deve discordar
dizer que o tal "mês do desgosto"
parece nunca acabar

mas que parem de reclamar
eu grito: "deixem agosto passar"
e defendo o injustiçado
afinal, eu não me lembro
de ter começado um setembro
sem estar apaixonado

não precisa ser rebuscado
o amor que eu quero encontrar
desde que seja rimado
e que, claro, seja inteiro
já vai poder me inspirar
falo desde o dia primeiro
não quero amor pela metade
o que eu quero é tempestade
mesmo em tempos de secura
será meu presente, então
amor que escrever é tortura
deixar de escrever, contradição

volta ao mundo

Volta à vida Pantanal norte

00:08

- Nem sabe quem que eu encontrei hoje!

Hoje encontrei todos os meus amores. Os passados, os presentes e as maldições. Encontrei um na fila pra fazer fotocópias que ah, se eu pudesse repetir. Encontrei um fazendo um lanche e vendo o jogo. Eu, coitada, tava perdendo. Um deles tava todo de preto, mas quando ele veste azul, até o céu desaba de inveja. Encontrei alguns em cartões postais, porque o mundo também não é tão pequeno assim. Tem aquele que disse que me encontraria no final do mau caminho. Tem aquele rolo que eu contei pra minha vó, que ela chamou de herege. Ou será que era pagão? Aquele por quem eu me apaixonei ao terceiro dia e subi aos céus. O céu ficava no quarto andar daquele prédio. Tinha dias que eu via a Lua tão bonita dali, que tenho sorte de ainda viver pra contar história. Ainda morrer pra contar mentira. Tem aqueles amores que fazem as mentiras do conquistador parecerem verdades. Por outro lado, tem aqueles amores que já surgem encaixados nas mentiras. Parece que foram feitos sob-medida. Já aparecem pré-rimados. Quanto aos escritores, tem aqueles atormentados que não aprendem nunca a lidar com fins. Se eu já aprendi? Ah, amor, eu dou um jeito.

- Quem?
- Aquele teu amigo que gosta de Chico Buarque. Será que ele e a Marieta já estão de boa?


A quem puder interessar:



https://www.youtube.com/watch?v=LqJwBCxCtPU

Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus

https://www.youtube.com/watch?v=EPB5UcFSnT4


https://www.youtube.com/watch?v=74dc_GM60JA

Eu comi o alfajor que eu comprei pra você.

15:55



Comprei um alfajor pra você porque sei que você gosta. Esqueci de te entregar e então, bom, como já estava comprado, eu comi. Também tomei o vinho que você deixou na minha casa. Não era minha intenção te privar do consumo dessa bebida que foi comprada pensando em nós dois, mas bom, mesmo que o "nós dois" deixou de existir, o vinho ainda existia, já estava comprado e estava sob os meus cuidados, então eu tomei. Por sinal, você deixou uma caneca comigo? O teu casaco, eu só te devolvo depois de várias borrifadas do meu perfume nele. Isso se você ainda o quiser e cobrá-lo de mim. Espero, no fundo, que você nem cobre, que considere o casaco como perdido e fique por isso mesmo, ou que sequer sinta falta dele. Torço também pra que você não descubra que está comigo aquele seu arco de coelhinha. Bom, talvez seja melhor deixar essa história para outra hora. Ah, acho que eu tava te devendo uns dez reais da última vez que te vi, mas acho improvável que você me queira rever por essa quantia. Afinal de contas, você também deve ter ficado com alguns pedaços de mim. Dei por falta deles, depois de você. Quantas rimas eu deixei na sua casa e quantos versos eu esqueci nos teus sorrisos? Se algum dia você quiser aquele batom de volta, a gente pode até marcar um café, mas eu quero de volta um poema que nunca mais encontrei. Acho que perdi no meio das tuas cobertas, você pode dar uma olhada? Eu te levo um alfajor, se eu lembrar.

there is no carimbo

23:59

é isso o pior que eu consigo desejar a você
um atraso de vez em quando
uma dorzinha nas costas
uma ou outra decepção amorosa
nada que você não possa remendar
uns dias pra ficar emburrada
filas,
mas nada que atrapalhe demais a sua vida
ter que pegar um carimbo
lá no outro setor
um boleto pra pagar
uns tropeços
aqui e acolá
uns dias chuvosos
alguns trabalhos pra entregar
noites que precisam ser viradas
sem mim
e sem ninguém
e se acaba o café?
uma roupa que mancha
umas assinaturas
papelada, burocracia
um pagamento atrasado
mas claro,
que não te atrapalhe demais
e se precisar,
me avisa!
a gente dá um jeito

quanto a mim,
não te preocupes
eu faço um textinho ou outro
mas nem tento te esquecer

como assim já é dia dez
e não caiu
o novo amor?

dia

dia 21

23:26


não é que
não era
amor
mas talvez
não era
mesmo
talvez era
só apego
quem sabe
substituição

sabe o que
também pode ser?
simplesmente
uma indução

vai ver era
sequência
não era amor
mas era
próximo

não é que
não era
amor
mas talvez
cada vez
era mais
próximo
cada vez
próximo
amor

não é que
não era
amor
era seguinte
era amor
mais um

não é que
não era
amor
mas também
não era fim
não era limite

não é que
não era
amor
mas talvez
não era mesmo
talvez era só
carência
matéria

ou justamente
abstração
talvez era
sensação
amor próximo
tão próximo
quase o mesmo

não é que
não era
amor
convenhamos
que mal e mal
poesia
virou

talvez era só
o frio
o inverno
que começou

não é que
não era
amor
mas mesmo se
foi só sonho
ilusão
se serviu pra inspiração
eu já coloco
alguma fé

não é que
não era
amor
mas que se foda
agora é

cartas ridículas

Topologia das cartas fechadas

13:35

Meu amor,

Até parece que as minhas cartas de amor preferidas são aquelas que são pra você. E olha que eu nem deveria escrevê-las, mas como bom aquariano que não sou, eu escrevo. O que mais eu poderia fazer? A essa altura do campeonato, você já pode ter percebido que eu prefiro cartas borradas de lágrimas a cartas não escritas. Ainda mais quando o destinatário é você. Você, meu amor, não vale uma carta não escrita. Você não vale a tinta não gasta da caneta roxa. Você não vale uma frase de amor não dita sequer. Você não vale uma palavra não rimada no final de um poema não feito. Você é um porre daqueles.
Morte de amor não é assassinato, não é suicídio e nem eutanásia. Morte de amor é acidente. Como que uma coisa dessas acontece? Você, meu amor, tem alguma resposta? De tanta gente no mundo, é você que eu quero materializar aqui do meu lado. Aqui na minha cama, pra esquentar essa noite fria. Depois de você, os pijamas compridos viraram obsoletos. Mesmo a saudade, mesmo a dor de amor, mesmo se for aquela dor que eu escutava os cantores cantando no rádio da minha avó, mesmo isso já me basta. E mesmo se for raiva. Até a tua indiferença, para não dizer a tua própria existência, já me aquece. Ah, meu amor, você não vale um suspiro não dado sequer. Você não vale a ausência do aperto. Você não vale a sua falta não sentida. O que falta em você, meu amor, é amor. O que faltava em mim era você, mas continua faltando. Afinal, o que seria de mim sem a falta tua?
A carta não acaba pra morrer. Ela acaba pra poder existir. Eu não ia deixar de escrever essa carta, mas você, meu amor, pode muito bem deixar de ler.

Eu espero que não deixe,
Seu amor.

volta ao mundo

Volta ao mundo Pantanal morte

01:15

- Eu vou morrer logo.
Foi o que eu respondi pra menina quando ela me perguntou por que eu escrevia. Veja bem, eu até que sou jovem ainda. Se vivi uns dez ou onze amores, foi muito. Isso contando aqueles arrebatadores, aqueles de chorar. Contudo, se variarmos a escala, eu vou morrer daqui a pouco mesmo. Também espero que alguém me mate antes de ler esse texto. Alguém deve ter me falado disso em algum outro ponto de ônibus. Até você, guria, se for ler, esquece a cor do meu cabelo, esquece o meu olhar quando falo dos meus amores e ignora o fato de que viu a capa do meu caderno e a minha caneta roxa. É assim que se lê: matando quem escreve. Mas eu menti pra você. Devo confessar que, na verdade, escrevo porque não tenho talento pra música e nem pra desenho, e essas palavras jogadas consistem na única maneira que encontrei de guardar as minhas paixões. Veja bem, menina, algumas paixões acabam. Acabam e tudo bem. Talvez, se você acredita em universos paralelos, elas não acabem. Ou talvez, se você for muito romântica, mas muito mesmo, elas nunca acabem porque isso simplesmente seria um absurdo. A gente nunca sabe o que vai acontecer, né? Vai que eu morro mesmo antes de passar o próximo volta ao morro. Por isso que eternizo alguns detalhes em palavras. Eu minto o tempo todo, e às vezes é até sem querer. Aquela música não vai sempre me lembrar você. Qualquer música de amor pode me lembrar de qualquer amor. Mas aquela frase que eu escrevi de caneta roxa chorando no ponto de ônibus, ah, ela vai sempre me lembrar você. Eu vou morrer logo, mas você não. Veja bem, até que a gente ainda é jovem, talvez dois ou três amores de diferença. Eu já admiti o meu vício nesse sentimento. No meu funeral, dirão que, de amor, ninguém nunca morreu tanto. Talvez eu mereça isso mesmo. Quem mandou se meter com droga tão pesada? Talvez nós, os viciados, os apaixonados, os sonhadores, mereçamos tal fim. O fim da dose de amor. Pode mandar mais uma, que o meu corpo aguenta. Veja bem, eu até que sou jovem ainda. Se vivi uns doze ou treze amores, foi pouco.
- Mas precisa ser de caneta roxa?

cartas ridículas

Topologia das cartas abertas

01:01

Meu amor,

Desde que a frase "je ne supporte pas de t'écrire" me levou a ler cartas eróticas em francês na internet, eu confesso que estou com uma mania incontrolável de cartas de amor. Mas o que são, nos tempos de hoje, cartas de amor, senão um passatempo de quem gosta de escrever? O que elas são, meu amor, senão redundâncias? Seriam elas um jeito de escrever aquilo que não precisa ser escrito? Sempre foram? E são tão ridículas, todas elas. Sempre foram! Tão cheias de promessas e tão cheias de mentiras. Mentiras, mas que escritas com tanta coragem e delicadeza pelo remetente, até parecem verdades. Ou talvez mentiras, que escritas na ausência tão sentida do destinatário, chegam mesmo a virar verdades. Afinal, o que são elas, as cartas de amor, e o que sempre foram, senão uma tentativa de encurtar distâncias? Por mais que eu goste de escrever, meu amor, só o faço neste momento pois estou impossibilitada de te acariciar como gostaria. Na falta, sinto-me obrigada a tentar, ao menos, colocar em palavras aquilo que o meu corpo chora e sangra. Eu te amo tanto que chega a doer. Mas, essa dor, ah, meu amor, eu não desejo nem para o meu pior inimigo a incompletude de morrer sem senti-la. O ar é mais rarefeito para nós, os apaixonados. Ele nos falta de tempos em tempos, naqueles momentos em que a saudade aperta o peito e morremos um pouco, pois a nossa vida se resume a reencontro.
O que são elas, meu amor, as cartas de amor, senão chegadas e partidas? Ainda por cima, as cartas de amor só existem, de fato, quando são abertas. O que são, meu amor, longas cartas de amor, senão vestidos curtos, escolhidos a dedo para serem tirados e jogados no chão do quarto? E isso ainda é só o começo do que eu posso te prometer. Pois o que seriam as cartas de amor, meu amor, se não fossem exageros? Eu te prometo amor eterno e incontrolável. Te prometo a Lua e as estrelas. Te prometo todos os teus sonhos. Com os meus, não te preocupes. Eu costumava pensar que você parecia um sonho, mas agora sei que eram os meus sonhos que sempre se pareceram com você. Tentarei voltar a algum deles, pois, honestamente, não aguento mais te escrever.
Que a leitura faça a carta verdadeira.

Assino com o título que não acho que mereço, mas que gostaria de reivindicar,
Seu amor.

Obrigada, Fernando Pessoa. Je vous remercie beaucoup, Anaïs Nin.

dia

dia 23

18:33


não é que
não era
amor
é que
simplesmente
era demais
simplesmente
não podia
não ser

na poesia
não cabia
que adjetivos teria?
era demais
pra simplesmente
ser
mas queria
tanto ser
que no fim
era só
querer

bem me quer
mal me quer
mal me é
era demais
era tudo
ao redor de mim
eu que te criei
assim

se deixar de ser
um dia
porque menos
não seria
em despedida
não sou chegada
mas pra terminar
rimada
posso até virar

partida

poesia

títul

21:32

já estou ficando aflito
por causa desse problema
um amor assim tão bonito
vai ter que acabar em poema

tá percebendo daí?
você tá virando arte!
mas não te animes em excesso
rimas tortas, poema modesto
pode ser que eu te descarte
que eu te deixe na gaveta
que eu te jogue na sarjeta
e se você sair daqui
será que alguém vai te encontrar?
[alguém vai te completar?]

se você dormir comigo
[vai sentir o tremelique]
e corre ainda mais perigo
pode ser que eu te publique

então gasto algumas horas
te deixando do meu jeito
e pro povo lá de fora
ai de quem botar defeito!

depois de muito tentar
quando já estou esgotado
chego inclusive a pensar
que nem devia ter começado
mas tinha que ser assim
eu tinha que te escrever
você tá perdido sem mim
e eu só me perco em você

com essa perdição de amor
e com nervosismo de paixão
eu já estou acostumado
mas sofro do mal de escritor
o que incomoda mesmo é a aflição
por um poema inacabad

poesia

equinócio de outono

00:42



não vou falar dos sorrisos
e nem do nosso pecado
que é pra ninguém desconfiar
já me deram alguns avisos
mandaram tomar cuidado
porque podem nos censurar

só revelo o que for necessário
vou esconder quase tudo
o signo, eu deixo no ar
eu não conto do aniversário
e até o gênero eu mudo
se for melhor pra rimar

se eu me tornei escritor
e isso não posso afirmar
foi por pura teimosia
enquanto você, meu amor
não precisou se tornar
você sempre foi poesia

Rua Borboletas Psicodélicas, 29 de fevereiro de 2016

23:06



Era o fim de verão mais quente que eu passei naquela cidade. Pelo menos entre os verões da minha memória. Sensação térmica batendo nos quarenta graus. O meu singelo ventilador já estava cansado de tanto trabalhar naquela estação. Na verdade, eu também.
Voltava pra casa escutando alguma rádio, que tocava alguma música, que fazia algum sucesso, mas que eu não dava a mínima atenção. Eu não escutava, de fato. Apenas deixava que aquela estação preenchesse o vazio sonoro com o qual eu só consigo lidar quando estou a escrever. Eu prestava atenção mesmo era nos detalhes da vista. Como alguém que gosta de escrever, de vez em quando eu escrevo com a luz e acabo gostando do resultado. Quando sem câmera, eu apenas observo. Depois tento relembrar a imagem. Então lá estava eu. Imóvel. Na esquina. Olhando. Eu usava as mãos para proteger os olhos do Sol daquele dia. E que dia ensolarado!
Olhei com atenção para tentar fotografar na minha mente a imagem que via. Depois disso, já no primeiro passo, com a visão ainda meio abalada pela luz do Sol, esbarrei num sorriso de saia. Ela me perguntou se eu estava bem. Eu estava. Perguntou-me se o meu projeto de queda era um novo passo de dança. Foi incêndio tal qual aquele na Estação da Luz e no Museu da Língua Portuguesa. Essa língua, que comigo é tão materna a ponto de me oferecer o ombro para escutar os meus devaneios, as minhas mentiras e os meus quase-poemas. Quando sem papel e caneta, eu apenas amo. Depois tento relembrar a poesia. Aquela saia, convidando-me para dançar no primeiro esbarrão, certamente merecia algumas palavras.
Naquele dia, a língua portuguesa recebeu mais uma carta de amor. Ainda na dúvida, arranquei uma folha de um caderno velho e escrevi no topo os dizeres "Rua Borboletas Psicodélicas, 29 de fevereiro de 2016". A imagem da placa dessa rua é uma das que tenho reveladas na memória. Eu estava longe daquela rua, tão somente usei o nome porque achei propício, mas escrevi, sim, naquela data. Não foi sem resistência, pois, afinal, eu não gosto de escrever em fevereiro. Onde já se viu um mês que, a cada quatro anos, te dá um dia a mais? Um dia a mais pra dançar, pra gozar, pra chorar, pra sorrir, pra dormir, pra beber. Pra escrever. Um dia a mais pra sentir saudade. Um dia a mais pra viver. Um dia a mais pra morrer de amor.

Peguei a foto da página Minha Vida em WordArt porque sim, eu adoro essa zoeira.
Esse texto tem um irmão e ele tá aqui: Ora, pois.

poesia

menina daltônica

13:09



a menina foi até o varal
pra ver se secou o lençol
levou pra dentro e dobrou
mas bem rápido ela voltou
ficou comigo ali fora
observando o quintal
gosto dos nomes dessa hora
crepúsculo e por do Sol

mas o nome que eu mais gosto
você não acerta, eu aposto
é difícil até de rimar
esse termo tão incomum
mas melhor, não há nenhum
então vê se não leva susto
pois agora vou revelar
e só pode ser lusco-fusco

gosto ainda mais das cores
eu enxergo melhor do que ela
e daquela linda aquarela
éramos dois espectadores

começou no azul de all-star
azul de passarinho
passarinho de Quintana
passou pelo verde de avançar
pelo roxo de vinho
e amarelo de banana

rosa de cerejeira
rosa de tantas flores
vermelho de fruta madura
vermelho de tantas dores
de sangue e de batom
não se ouvia nenhum som
de repente, uma loucura
chegou em casa uma criança
e os cães da vizinhança
fizeram uma barulheira

mas ela só observava
ou melhor, apreciava
e continuava quieta
gostava daquele momento
se ela tiver talento
deveria ser poeta

para escrever sobre o amor
sobre liberdade e sobre dor
a mente com seus dramas
o corpo com suas camas
sobre ser criancinha
e o crepúsculo da adulteza
e sobre ser passarinha
e ver nas cores mais beleza

ela, sempre em transição
num lusco-fusco de amor
sou eu aquele beija-flor
beija-flor de codinome
eu fico no pé de mamão
até a hora que o Sol some

depois eu saio voando
e a menina me invejando
de fato, é uma regalia
mas se eu pudesse trocar
eu sei bem o que faria
por mais que voar seja bom
pudera eu ter o dom
de fazer o céu virar
lusco-fusco poesia

cartões postais

Femusc, Age of Aquarius, praia, orgamos etiênicos e Adele.

23:59



Hello. It's me. I was wondering if after all these years you'd like to meet.
Chegou 2016 e já estamos em fevereiro. Pra mim, quem nasce hoje é aquariano, mas há controvérsias.
Dizem que, nesse país, o ano só começa depois do carnaval. Para um blog, o ano só pode começar depois de um texto. Eu fiz vários rascunhos que prometiam ser o primeiro texto do ano. Um deles contava a minha saga com alguns dos meus cartões postais preferidos, que ia de Viena até Lisboa, tudo isso pela frase "Agora é tarde, Inês é morta", que me daria a deixa para comentar sobre tudo que eu queria ter feito em 2015 e que não fiz, como aprender a programar, dançar ou mudar os paranauê do layout desse blog. Esse texto acabou ficando enorme, pois eu desenvolvi uma paixão por cartões postais que quem já viu a minha coleção pode falar sobre.
Daí lá pelo dia 9 de janeiro, eu pensei em escrever que, dos 9 dias que já tinham passado do ano, eu deveria ter dormido por pelo menos 3 dias inteiros (provavelmente mais porque férias né) e que, em algum momento desses 3 dias, eu passei a acreditar em algo que a Etiene tinha me falado e que eu não acreditava antes.
Também, como ficou claro, pensei em usar a música da Adele que estava em alta nesse ano novo. They say that água do mar is supposed to heal, but I ain't done much healing.
Em outras palavras - me perdoem pelo trocadilho infame - eu fui em tanto concerto pra continuar com os mesmos defeitos.
Atrasei este texto (que era pra ser o primeiro do ano e acabou não o sendo) mas, no fim, eu gostei dele. Espero que gostem também.
Feliz 2016.

Observações:
Mil obrigadas para o Gerson que me ajudou a mudar o que eu queria aqui no blog. Espero que os leitores gostem disso também! Eu gostei!
O que a Etiene dizia e que eu não acreditava era que é possível ter orgasmos dormindo. Agora eu acredito!

poesia

poema de madrugada

03:55

que trabalhosa empreitada
escrever uma poesia
se já estou tão cansada
e logo vai raiar o dia

escolher alguma trama
não deve ser complicado
até porque já estou na cama
e queria alguém do meu lado

eu escrevo sobre a gente
e com rima, sim, senhor
é um assunto recorrente
eu escrevo sobre amor

até cogitei outros temas
mas o que posso fazer?
eu prefiro os meus poemas
quando são sobre você