Especial de fim de ano

23:49

Eu tinha uma regra de que no meu carro só tocaria rock'n'roll mas, como bom aquariano que sou, não via a hora de descumprir esse acordo que fiz comigo mesmo e que um CD do Skank testemunhou. Mas bom, permitam que eu me explique. Ao menos, tente. Pois assim como o segundo Sol do Nando Reis, confesso que abrir uma exceção para aquela menina era algo que não tinha explicação. Liguei o rádio e ela começou a acompanhar o funk que estava tocando. Funk! Deixei tocar devido a empolgação dela, mas lá pelas tantas, senti vontade de colocar um fim na cantoria.
- Que música chiclete.

- Muito! Fez tanto sucesso que essa guria vai cantar no especial de fim de ano do Roberto Carlos.
- Ah é? Então até o Roberto está tentando inovar.
- Pois veja só. Outro que eu queria ver nesse especial era o Wesley Safadão.
- Amiga, eu sou do rock e você me vem cantando funk e falando do especial do Roberto Carlos? E ainda queria o Wesley Safadão? Fala sério. Nada contra, mas né.
- Ah, mas acho que o Roberto ainda tem um lado roqueiro. Será que não? Tem aquela  do calhambeque, tem aquela que foi gravada pelo Jota Quest. E tem aquela ótima, que é do Caetano mas o Roberto que gravou primeiro, aquela assim...
 Depois de limpar a garganta, cantarolou, sem muita afinação:
- Meu amooooooor, tudo em volta está deserto. Tudo certo. Tuuudo certo como dois e doooois são cinco.
Dessa vez, eu não queria parar a cantoria. Tanto que só iria beijar aquela minha carona depois do refrão. Sim, leitor, eu já tava querendo um beijo daquela menina desde o começo da noite. Mas aí o Caetano me lembrou da Maria Bethânia, que me fez pensar no que seria de mim depois de ter você. Ela, no caso.
A minha rua nunca teve amendoeiras. Inclusive, acho que nunca vi uma amendoeira na vida. Mas eu me considero um poeta. E Bethânia me deixou a dúvida. Depois de ter você, poetas para quê?
Será que, devido a inutilidade da nossa produção, haveria algum consenso para que a gente não escrevesse mais? Como bom aquariano (e talvez bom poeta) que sou, obviamente que continuaria a escrever mesmo assim. Quantos versos sobre nós eu já guardei, já dizia a testemunha do meu acordo sobre o carro e o rock'n'roll. Mesmo que os escritos fossem escondidos e só ela soubesse. Crime sem castigo.
A cantora de funk estava errada, pois hoje a menina me escapou. No meu carro, ainda era o rock que tinha razão. Amores imperfeitos são, de fato, as flores da estação. Mesmo sendo um bom aquariano, eu é que não iria contrariar os engenheiros. Ela foi embora. Aperto de mãos. Apenas bons amigos.

Se por acaso alguém se interessar pelas músicas que eu escuto:
Engenheiros do Hawaii - Pra ser sincero
Caetano Veloso - Como 2 e 2 (curto a versão do Caetano, mas não escondo que quem despertou meu interesse pela música foi a Brícia Helen, do The Voice Brasil)
Skank - Amores imperfeitos
Ludmilla - Hoje
Maria Bethânia - Depois de ter você (a versão com a Adriana Calcanhoto me deixa louca)

poesia

trópicos

03:31

foi amor
tipo chuva de verão
os poemas destruíram placas
os clarões dos sorrisos
impressionaram os transeuntes
foi amor de passagem
tipo chuva de verão
o barulho da cama
assustou os cachorros
cada toque era
um raio
e no fim da tempestade
a nossa rua ficou sem energia
foi amor
tipo chuva de verão
daquelas que
antes
no calor
te fazem querer tirar a roupa
durante
te colocam num ônibus
que você não sabe
pra onde tá indo
e depois
resta juntar os papéis que voaram
colocar as telhas de volta no lugar
consertar a placa
porque a gente nem sabia mais
a hora de parar
mas a gente parou
porque foi amor
tipo chuva de verão
e eu adoro chuva de verão
mas tratando de coração
eu quero mesmo
é dilúvio