Jack White

Minha próxima esposa vai gostar de Leminski

20:04

AMOR

Amor, então, 

também, acaba? 
Não, que eu saiba. 
O que eu sei 
é que se transforma 
numa matéria-prima 
que a vida se encarrega 
de transformar em raiva. 

Ou em rima.

Paulo Leminski

Garçom, por favor, me traz uma cerveja.
Ah, e me vê também um baralho e um parceiro. De preferência alguém que dance. Que me desculpem os ex maridos que não dançam, mas eu não quero passar o resto da vida levando o meu irmão nas festas para dançar comigo. Acho que foi essa a razão do divórcio. Mentira, amigo, traz mais uma cerveja que eu te conto tudo. Ela não gostava de Jack White, então posso dizer que foi incompatibilidade musical. Mentira, na verdade ela gostava mas eu é que prefiro música ruim mesmo. Mentira, na verdade foi porque ela gostava de gatos. Você sabe, garçom, que eu sou uma dog person. Na verdade foi porque a minha mãe não foi muito com a cara dela. Ou foi o meu irmão, aquele que vai dançar comigo até eu casar de novo. Ou talvez foi porque ela dormia com pouca coberta e eu sou friorenta. Não te convenci? Então senta aqui que eu vou te contar as séries que ela assistia. Garçom, aqui nessa mesa de bar, você já cansou de escutar centenas de casos de amor. Tanto os do Reginaldo Rossi quanto os meus. Sim, porque eu repito várias vezes a mesma história pra tentar ver a razão nos meus atos. Talvez a gente se divorciou para que ela pudesse ser um amor do passado. E antes de me criticar, deixa eu refletir sobre como esse amor é bonito. É o tipo de amor que a gente esquece dos problemas e só lembra dos poemas. Já dizia Leminski, que amor não acaba, mas se transforma numa matéria-prima, que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima. Acho que foi justamente essa esposa que me passou esse poema. Acha aí um guardanapo que eu anoto pra você. Ou então anoto aqui nesse quatro de mole. Quem diria, hein. Uma carta com um poema, vai ser a mais forte do baralho. Acho que tem uma palavra em japonês pra isso, de quando a carta mais fraca vira a mais forte. Tu acha que é facão? Então pede truco nesse fim de outubro. Outubro ou truco. Ou seis. Então você lembra do dia do meu aniversário? Talvez a gente possa casar. Você dança? Em vez de te dar casa, comida e roupa lavada, eu te dou, te caso, te como e te lavo. Que coisa mais feia pra se dizer numa mesa de bar. Traz a saidera que já tá na minha hora de voltar pra casa.
Quanto foi tudo? Dá pra fazer no crédito? Imagino que final de mês seja complicado pra quem vive de comércio.
Ainda bem que eu vivo de amor.

poesia

mas o que

03:04

de tanto beijo que eu já roubei

eu pensei em virar ladrão

e corro tanto atrás de ti
que eu já podia ser atleta

mas com tudo que eu já rimei
acho que eu me decidi

com você de inspiração
eu quero mesmo é ser poeta

poesia

poesia de luto

03:21

encontrei uma poesia
que estava em luto permanente
falava de alguma morte
mas jurava que era inocente 
no dia do julgamento 
a poesia, por sorte,
encontrou o seu escritor
que deixou tudo explicado
não existia culpado
por alguém morrer de amor