volta ao mundo

Volta ao mundo Jaraguá do Sul

03:16

- Tá esperando o da Figueira?
- Tô esperando o amor da minha vida.
- Então boa sorte pra você.
- Você não acredita em alma gêmea?
- Não.
- Que coincidência. Minha alma gêmea também não.
- Você por acaso é vidente?
- Eu não, mas sou poeta.
- Poeta, dá pra acreditar em destino e em coincidência ao mesmo tempo?
- Você acredita em destino?
- Eu, sim.
- Eu também.
- Que coincidência.
- E você acredita em sorte e acaso. Mas não em alma gêmea?
- Parece-me uma ideia triste, pois tem tanta gente ruim no mundo. Todo mundo merece uma alma gêmea?
- Quem é você pra julgar? E você tá considerando que alma gêmea é algo bom.
- Claro que é. É uma grande realização.  Encontrar o amor da sua vida. Amar intensamente. Viver felizes para sempre...
- Assim que você imagina que é ser realizado?
- Sei lá. Eu gostaria de encontrar o amor da minha vida, se houvesse um.
- Não é melhor pensar que há?
- O que?
- A vida pode ter vários amores, e um deles pode ser o amor por alguém especial. Não seria mais otimista, e até mais feliz, pensar que existe um amor da sua vida? Uma alma gêmea, mesmo que você nem acredite em alma. Talvez seja bom considerar isso um prêmio. E se você não for merecedor, meu caro, ainda dá tempo de mudar.
- Nossa, você serve mesmo pra ser poeta.
Alguém interrompe a conversa, educadamente.
- Desculpa, vocês estão esperando o da Barra?
- Eu tô esperando o amor da minha vida.
- E não estamos todos?
- Bom, eu tô só esperando o da Figueira.
- Então você também acredita em alma gêmea?
- Eu, sim.
- Que coincidência.
Foi dormir com um único pensamento lhe rodeando a cabeça, e até falou bem baixinho:
- Talvez hoje, excepcionalmente, minha alma gêmea também acredite.

Como se eu fosse sua

16:49

Vou escrever sobre aquela vez que dançamos valsa. Vou colocar um trecho do Danúbio azul, mas você tem que prometer que vai tentar ler no ritmo. Mesmo que a gente nunca tenha dançado valsa, você pode ler como se fosse pra você. Vou lembrar de quando estivemos em Viena, das rosas e dos homens vestidos de Mozart. E mesmo que você nunca tenha pisado na Áustria, tenha uma alergia fortíssima ao pólen das flores ou nem goste tanto de música clássica assim, não precisa se preocupar, pode ler sem medo, como se fosse pra você.
Eu vou cantar aquela música do Nando Reis que eu gosto. E mesmo se você não morar num andar 12 do bairro das laranjeiras, saiba que eu tô cantando pra você. Vou fazer um poema sobre seus olhos azuis, mas mesmo se os seus olhos forem verdes, castanhos ou daquela cor meio cinza que eu acho tão bonita, leia cada rima como se fosse pra você.
E eu vou inventar histórias complexas, brigas intermináveis e reconciliações ultrarromânticas. Beijos no frio e debaixo de chuva, madrugadas em claro numa cama de solteiro, regadas a vinho, gemidos e admiração de coxas. Então, mesmo que a gente não brigue, durma cedo em cama de casal, mesmo se acabar dando sol na quarta-feira e a gente tomar cerveja, não se preocupa, pode ler todas as histórias como se fossem suas.
Enquanto eu tentar escrever o meu amor, meu amor, pode ler sem medo,
como se fosse todo seu.

juro

Juro que não fomos nós.

18:08

Coloca as nossas coisas na nossa mala vermelha. Nossas roupas, nossos celulares, nossas comidas, e não podemos esquecer de agilizar uma boa playlist pra nossa viagem. Posso fazer uma confissão? Eu ainda não me acostumei a usar tantas palavras relacionadas ao pronome 'nós'. Você lembra quando foi que eu e você viramos nós? Acho que foi naquele teatro que fomos juntos. Ah, claro, eu lembro. Nesse dia eu conheci aquela amiga tua, que tava namorando um estrangeiro. É, e logo depois eles terminaram. Eles deixaram de ser eles eles e passaram a ser eles ele e ela. E nós ainda éramos nós eu e você, agora já viramos nós nós. É, mas a gente não perdeu a individualidade, né meu bem? Pois é, às vezes acho que somos tão diferentes, nem sei se era pra eu combinar tanto com você. Acho que a gente se misturou um pouco, mas isso não é perder individualidade, sei lá. Mas a mala é nossa, e passamos a ser muito mais nós do que eu e você, pelo menos para fins poéticos. Não é encantador o fato de que, na língua portuguesa, a palavra nós possa ser um pronome pessoal ou um substantivo? Ai, só você mesmo pra ficar falando dessas coisas, mas é encantador, sim. Nós é uma palavra tão bonita. E não é? Olha o que eu pensei agora: Meu fone de ouvido, querido, tá cheio de nós. Só tenho música que me lembra de você. Olha, é bonito isso, mas eu sei bem que nem todas as tuas músicas te fazem pensar em mim. É verdade, mas você entendeu a piadinha. Falando nisso, você lembra o nome daquela música que nós ouvimos na rádio e gostamos? Eu te falei que queria baixar. Aquela que eu comecei a dançar? Não sei se falaram o nome, e de qualquer jeito, me distraí com a sua dança. Com a nossa dança, você quis dizer.
Diz aí, a sua playlist tem espaço pra nós dois? A nossa tem.

cirrose

A causa foi cirrose hepática [3]

10:00

era uma viciada em amar
achou que era brincadeira
coisa de jovem, bobeira
que deveria experimentar

se não curtir, é só parar
era o que diziam pra ela
que caiu nessa balela
e acabou por se viciar

usava sem nem pudor
diziam que era natural
e que sequer fazia mal
esse diacho de amor

mas olha, pior que faz
vou te contar a verdade
você não sabe a metade
do que o amor é capaz

um dia, o amor pode faltar
sem nenhum motivo bem claro
isso não é muito raro
só eu que não sei explicar

no caso dela foi tédio
na cama só tinha desgraça
então recorreu à cachaça
pra fazer papel de remédio

digo logo a consequência
o que lhe tirou a vida
não foi o excesso de bebida
foi de amor, a abstinência