Jack White

Minha próxima lua de mel vai ser na Grécia

19:52

- Temos que comprar água, amor. Aqui não pode tomar direto da torneira.


Já estávamos acostumadas uma com a outra. A palavra amor já tinha sido tão usada pelas nossas bocas que se tornara um clássico. Mas palavra amor não gasta. Não desgasta. Pode usar com gosto. Pode usar sem medo.
Eu me apaixonei por você na chuva. Foi grande, forte. Foi fora de época, contradizendo todas as meteorologias. Você é exatamente como aquela chuva que estava anunciada para três da tarde, mas que acabou dando uma cochilada e só apareceu lá pelas cinco e meia, obrigando os turistas desavisados a entrarem em ônibus, metrô, restaurante e banca de jornal. O horário previsto da chuva estava em todas as publicações.
Mas você é imprevisto. Você é aquele momento de tensão em que a maquininha que monitora os batimentos cardíacos faz bip bip bip biiiiiiiiiiiiip. Também você é a própria equipe médica que salva quem estava em apuros. Você é a hora do conflito no livro de final feliz. Você é susto. Você me tira o fôlego. Também você é o meu fôlego em si.
Me apaixonei por você na chuva e você se apaixonou por mim quando já estávamos secas. Inaugurei a palavra amor. Deitamos juntas. Coxa com coxa. Braço com braço. Mão com mão e pé com pé, o mais quente esquentando o mais gelado. Nossos corpos gastam e envelhecem, mas a gente usa com gosto. Usa sem medo.

- Amor, olha pro céu, Acho melhor comprar outro guarda-chuva, porque esse já está gasto demais.
- Que estranho esse céu escuro. A previsão não era de chuva.

era um bar

Era um bar com música ao vivo

12:04

Era um bar com música ao vivo, mas não daquele tipo que você deve estar imaginando. Não era alguém com seu violão tocando Caetano e Leoni. Tampouco alguém com seu violão tocando clássicos sertanejos. Acho que tinha um violão, mas havia também uma harpa no lugar, e algum instrumento que soava muito parecido com uma gaita de fole. Além disso, metade do bar estava sem mesas, pois aquele espaço era pra dançar. Como eu danço muito mal, usei uma abordagem clichê para iniciar uma conversa.

- Com licença. Posso falar um pouquinho com vocês? Eu sou um escritor amador.
Sou um escritor que não conhece apenas o português, e confesso que pensei em escrever esse texto em inglês, para que a frase ficasse "I am a writer" e, então, não tivesse gênero. Mas a palavra "amador" é a que me prende à minha língua materna. Delego esse problema para os meus tradutores, se algum dia eu tiver prestígio o suficiente para ser traduzido. Só não tirem o Leoni do texto, por favor.
Falei que estava escrevendo um romance, mas que ainda não conhecia bem o meu herói.
Eu não sei se todos acreditaram que eu era, de fato, um escritor, mas tenho certeza que pelo menos uma pessoa o fez. Acreditou, mas não me deu muita atenção. Talvez foi porque já tinha bebido um pouco. Talvez foi porque estava com preguiça, já que o diálogo não era na sua língua materna. Talvez foi só pela zuera (boa sorte, de novo, tradutor). Mas posso afirmar com convicção que ela acreditou que eu era um escritor, mesmo quando seus amigos duvidaram.
- Não sei o que dizer. Como vamos arranjar idéias para o seu livro?
- Você pergunta esse tipo de coisa na mesa de bar?
- Não gosto dessa história do cara super poderoso e da menina indefesa que só procura um grande amor..
- Mas ela também não precisa morrer sozinha com um monte de gatos.
- Cachorros!
- Hã?
- Cachorros, amiga. Quem aqui gosta de gatos?
Falaram que deveria ser um casal de gays. Ou um casal de lésbicas. Falaram que alguém deveria ter olhos verdes. Falaram que o herói deveria saber dançar. Contaram os romances que já aconteceram e/ou ainda acontecem naquele pequeno grupo. Alguém inclusive pegou meu caderninho e minha caneta e escreveu vários nomes, para depois conectar com traços as pessoas que já tinham sido um casal.
Outro alguém interceptou o caderno no caminho de volta pra mim e escreveu "Eu acho que você não é um escritor".
Eles achavam mesmo que eu estava apenas interpretando? Acham que eu sou um ator? Questionei o grupo, e a pessoa que acreditava respondeu com:
- Não estamos todos interpretando? Talvez sejamos todos atores.
- Que filosófico!
- Eu também sou uma escritora.
Até aqui, eu estava utilizando o pronome feminino porque me referi a ela como "uma pessoa".
- Talvez sejamos todos escritores!
- Talvez sejamos todos bêbados!
- Talvez sejamos todos personagens!
- Agora você já tá viajando demais. O que há para ser escrito sobre as nossas vidas?
- Nossas aventuras, nossos amores, nossas viagens...
- Nosso possível futuro brilhante, um emprego que gostamos, uma casa, um gato...
- Cachorro!
- O que tem para ser escrito sobre as nossas vidas? Perguntemos ao escritor, que sentou aqui com a gente.
- É, as nossas vidas não tem esses dramas complexos como aquela série que você gosta.
- Parei de assistir aquela série. Eu não gosto quando muita gente morre. Até o cachorro morre!
- Por quê?
- Não lembro direito, mas sacrificaram o coitadinho.
- Por que você não gosta quando muita gente morre na ficção?
- Porque é uma contradição. É ilógico. Pra mim, os personagens não morrem. Eles enganam a morte, brincam com a vida. Morrem sem morrer.
- Morrem sem viver, né? Porque, na verdade, eles não existem.
A pessoa que acreditava não soube lidar com isso. Tudo bem os seus amigos gostarem de gatos, mas falar uma heresia dessas? Para uma escritora?
Já escutei que o escritor morre toda vez que é lido. Já li que se um escritor se apaixonar por você, você nunca morre. Já me apaixonei e já escrevi.
Já fiz curso de teatro, já trabalhei como policial e vendedor. Estou feliz sendo escritor amador, mas nunca tinha pensado em ser personagem.
Ela já.