era um bar

Era a mesma sala de espera

17:03

Era uma sala de espera como outra qualquer. Lá, eu esperei. Ainda estamos em fevereiro. Eu repetia isso pra mim mesma. A menina não vai aparecer aqui hoje. Aquela da bolsa feia e do baseado. Ela deve estar curada. Aliás, pode ser que ela nem estava doente. Tenho certeza que era uma visita de rotina. Não que ela combine muito com a noção de rotina, mas tudo bem. Quem sabe ela só passou aqui para ver o médico bonitão. Só digo que ele era bonitão pois o vi antes de ter as minhas pupilas dilatadas. Também porque ele foi super simpático e disse:

- Tenho um caso de toxoplasmose. A moça é muito jovem.
Muito jovem para ter dor nas costas. Muito jovem pra ser atriz. Muito jovem para se apaixonar por alguém e fugir para as Antilhas Francesas. Eu tenho certeza que foi isso que aconteceu com a menina da outra consulta. Eu percebi que ela estava com um sorriso anormal e com olhos de quem está quase chorando. O quase-choro feliz é um fenômeno peculiar.
Se eu tivesse que apostar, diria que esse foi o primeiro sorriso depois dela perceber que se apaixonou por alguém. Não me leve a mal, as pessoas podem ficar felizes por vários motivos e podem se sentir realizadas de diversas formas. Mas como poeta, eu aposto que era amor.
Aposto que era um dos primeiros sorrisos e que ela viu corações nas calçadas enquanto chegava no hospital. Sabe? Bem no começo, quando tudo parece que tem formato de coração? Talvez foi por isso que ela veio se consultar, no fim das contas.
Em um dado momento, eu percebi. Na falta daquela menina, a doida da sala de espera era eu. Eu com o cabelo raspado do lado, não aprovado pela vovó, e meu 2048 como droga. Lembremos que não pega internet na sala de espera ok amigos. Dentre aquelas pessoas, eu era a estranha que cantava em uma língua que ninguém entendia.
ESTRANHO É PENSAR QUE O BAIRRO DAS LARANJEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIRAS
Mal sabem eles que meu olho de quem está quase chorando era devido ao gel doido que a médica passou. O sorriso era só comemorando a cicatriz mesmo.
E os corações nas calçadas?
Bom, era o meu próprio coração. 
Que menina largou aqui. 
Logo antes de fugir para as Antilhas.

poesia

fotografia

22:05

fotografia

substantivo feminino
escrever com a luz

poesia
substantivo feminino
manifestação da beleza
substantivo feminino
característica do que cativa
quem observa

você
pronome de tratamento
de origem na expressão
vossa mercê
pronome possessivo
substantivo feminino
minha situação

eu 
pronome pessoal
lírico
adjetivo

eu lírico
quem quer transformar você
pronome de tratamento
em poesia
substantivo feminino

luz
substantivo feminino
torna as coisas visíveis

poesia
substantivo feminino
idem

-

agora apaga a luz
pronome de tratamento
trata de aparecer pra mim
nem que seja em sonho

eu fico na escuridão
só com a recordação
incapaz de escrever com a luz
fazendo fotografia

mas ainda sei da beleza
pois sempre está iluminado
aquilo que foi declarado
graças à poesia

-

feito por uma helena
origem grega
tocha, raio de sol
ou seja,
luz

Ora, pois

22:12



Aqui as ruas tem nomes bonitos. Tem a rua da alegria, a avenida da liberdade e rua da saudade. Saudade, palavra única do nosso idioma para a qual não encontro explicação. Venho sentido saudades, inclusive, do que ainda não deixei. E saudade do que sequer vivi.
Saudade de ser europeu, navegar os sete mares e voltar à península ibérica. Saudade do vinho do porto. Do pastel e do centro cultural de Belém. Mandar cartas de amor ridículas que enfrentam os monstros marinhos para chegar a ti. De comprar vestido branco na rua Augusta e casar em Lisboa, bem na festa de Santo Antônio.
-
Que me perdoem minha vó e os demais parentes conservadores, mas minhas cartas de amor são destinadas a mulheres.
Navegar é preciso, viver não é preciso. Amar não é preciso. Amor é fogo que arde sem se ver. Se o amor nos cega, então cega sou e faço com Saramago nosso ensaio sobre o amor.
Amor é água, que pode parecer que já é mar quando ainda é rio. Como o Tejo, ficando cada vez mais largo até encontrar-se com o Atlântico.
Fique atenta ao correio, a senhorita pode receber uma carta de amor.
Que será ridícula, como todas as outras. Do soneto ao swap no tinder.
E ridículos somos nós, que continuamos a fazê-las incansavelmente.
Eu mesma, não nego.
Apresso-me em amar onde posso. Você me deixa saudade e eu te deixo um pedaço do meu coração.
Herdamos o português dessa terra europeia. Vim de longe, do além mar. De onde os bosques têm mais vida. A vida, mais amores?
A minha, mais amor.