Especial de fim de ano

23:49

Eu tinha uma regra de que no meu carro só tocaria rock'n'roll mas, como bom aquariano que sou, não via a hora de descumprir esse acordo que fiz comigo mesmo e que um CD do Skank testemunhou. Mas bom, permitam que eu me explique. Ao menos, tente. Pois assim como o segundo Sol do Nando Reis, confesso que abrir uma exceção para aquela menina era algo que não tinha explicação. Liguei o rádio e ela começou a acompanhar o funk que estava tocando. Funk! Deixei tocar devido a empolgação dela, mas lá pelas tantas, senti vontade de colocar um fim na cantoria.
- Que música chiclete.

- Muito! Fez tanto sucesso que essa guria vai cantar no especial de fim de ano do Roberto Carlos.
- Ah é? Então até o Roberto está tentando inovar.
- Pois veja só. Outro que eu queria ver nesse especial era o Wesley Safadão.
- Amiga, eu sou do rock e você me vem cantando funk e falando do especial do Roberto Carlos? E ainda queria o Wesley Safadão? Fala sério. Nada contra, mas né.
- Ah, mas acho que o Roberto ainda tem um lado roqueiro. Será que não? Tem aquela  do calhambeque, tem aquela que foi gravada pelo Jota Quest. E tem aquela ótima, que é do Caetano mas o Roberto que gravou primeiro, aquela assim...
 Depois de limpar a garganta, cantarolou, sem muita afinação:
- Meu amooooooor, tudo em volta está deserto. Tudo certo. Tuuudo certo como dois e doooois são cinco.
Dessa vez, eu não queria parar a cantoria. Tanto que só iria beijar aquela minha carona depois do refrão. Sim, leitor, eu já tava querendo um beijo daquela menina desde o começo da noite. Mas aí o Caetano me lembrou da Maria Bethânia, que me fez pensar no que seria de mim depois de ter você. Ela, no caso.
A minha rua nunca teve amendoeiras. Inclusive, acho que nunca vi uma amendoeira na vida. Mas eu me considero um poeta. E Bethânia me deixou a dúvida. Depois de ter você, poetas para quê?
Será que, devido a inutilidade da nossa produção, haveria algum consenso para que a gente não escrevesse mais? Como bom aquariano (e talvez bom poeta) que sou, obviamente que continuaria a escrever mesmo assim. Quantos versos sobre nós eu já guardei, já dizia a testemunha do meu acordo sobre o carro e o rock'n'roll. Mesmo que os escritos fossem escondidos e só ela soubesse. Crime sem castigo.
A cantora de funk estava errada, pois hoje a menina me escapou. No meu carro, ainda era o rock que tinha razão. Amores imperfeitos são, de fato, as flores da estação. Mesmo sendo um bom aquariano, eu é que não iria contrariar os engenheiros. Ela foi embora. Aperto de mãos. Apenas bons amigos.

Se por acaso alguém se interessar pelas músicas que eu escuto:
Engenheiros do Hawaii - Pra ser sincero
Caetano Veloso - Como 2 e 2 (curto a versão do Caetano, mas não escondo que quem despertou meu interesse pela música foi a Brícia Helen, do The Voice Brasil)
Skank - Amores imperfeitos
Ludmilla - Hoje
Maria Bethânia - Depois de ter você (a versão com a Adriana Calcanhoto me deixa louca)

poesia

trópicos

03:31

foi amor
tipo chuva de verão
os poemas destruíram placas
os clarões dos sorrisos
impressionaram os transeuntes
foi amor de passagem
tipo chuva de verão
o barulho da cama
assustou os cachorros
cada toque era
um raio
e no fim da tempestade
a nossa rua ficou sem energia
foi amor
tipo chuva de verão
daquelas que
antes
no calor
te fazem querer tirar a roupa
durante
te colocam num ônibus
que você não sabe
pra onde tá indo
e depois
resta juntar os papéis que voaram
colocar as telhas de volta no lugar
consertar a placa
porque a gente nem sabia mais
a hora de parar
mas a gente parou
porque foi amor
tipo chuva de verão
e eu adoro chuva de verão
mas tratando de coração
eu quero mesmo
é dilúvio

dia 29

00:01

não é que

não era
amor
é que
simplesmente
não era
só servia pra poesia
mas quem é
que escreveria?
e será que
guardaria?
seria um escrito
de gaveta?
rascunho
mas feito a caneta
cheio de borrões
vai pro lixo?
assim?
amassado
rasgado
riscado
mordido
escrito
rimado
gemido
lembrado
sonhado
cuspido
e escarrado
não é que
não era
amor
é que
era
poesia

poesia

desculpa

00:00

esses tempos alguém me disse
sem saber que eu escrevia
que o amor era uma desculpa
pra gente fazer poesia

já pra fazer amor
a gente não pede desculpas
e nem sequer deveria
pois se o amor for pecado
deverá ser absolvido
e se não for correspondido
ao menos será rimado

pra vida, eu não tenho desculpa
nem pra morte, e nem pra dor
se eu partir antes do leitor
peço que salve os meus escritos
um dia, alguém pode gostar
mas o meu corpo, manda queimar
enterra as cinzas e planta uma flor

aqui, descansa um poeta
cuja vida era uma desculpa
pra poder morrer de amor

Jack White

Minha próxima esposa vai gostar de Leminski

20:04

AMOR

Amor, então, 

também, acaba? 
Não, que eu saiba. 
O que eu sei 
é que se transforma 
numa matéria-prima 
que a vida se encarrega 
de transformar em raiva. 

Ou em rima.

Paulo Leminski

Garçom, por favor, me traz uma cerveja.
Ah, e me vê também um baralho e um parceiro. De preferência alguém que dance. Que me desculpem os ex maridos que não dançam, mas eu não quero passar o resto da vida levando o meu irmão nas festas para dançar comigo. Acho que foi essa a razão do divórcio. Mentira, amigo, traz mais uma cerveja que eu te conto tudo. Ela não gostava de Jack White, então posso dizer que foi incompatibilidade musical. Mentira, na verdade ela gostava mas eu é que prefiro música ruim mesmo. Mentira, na verdade foi porque ela gostava de gatos. Você sabe, garçom, que eu sou uma dog person. Na verdade foi porque a minha mãe não foi muito com a cara dela. Ou foi o meu irmão, aquele que vai dançar comigo até eu casar de novo. Ou talvez foi porque ela dormia com pouca coberta e eu sou friorenta. Não te convenci? Então senta aqui que eu vou te contar as séries que ela assistia. Garçom, aqui nessa mesa de bar, você já cansou de escutar centenas de casos de amor. Tanto os do Reginaldo Rossi quanto os meus. Sim, porque eu repito várias vezes a mesma história pra tentar ver a razão nos meus atos. Talvez a gente se divorciou para que ela pudesse ser um amor do passado. E antes de me criticar, deixa eu refletir sobre como esse amor é bonito. É o tipo de amor que a gente esquece dos problemas e só lembra dos poemas. Já dizia Leminski, que amor não acaba, mas se transforma numa matéria-prima, que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima. Acho que foi justamente essa esposa que me passou esse poema. Acha aí um guardanapo que eu anoto pra você. Ou então anoto aqui nesse quatro de mole. Quem diria, hein. Uma carta com um poema, vai ser a mais forte do baralho. Acho que tem uma palavra em japonês pra isso, de quando a carta mais fraca vira a mais forte. Tu acha que é facão? Então pede truco nesse fim de outubro. Outubro ou truco. Ou seis. Então você lembra do dia do meu aniversário? Talvez a gente possa casar. Você dança? Em vez de te dar casa, comida e roupa lavada, eu te dou, te caso, te como e te lavo. Que coisa mais feia pra se dizer numa mesa de bar. Traz a saidera que já tá na minha hora de voltar pra casa.
Quanto foi tudo? Dá pra fazer no crédito? Imagino que final de mês seja complicado pra quem vive de comércio.
Ainda bem que eu vivo de amor.

poesia

mas o que

03:04

de tanto beijo que eu já roubei

eu pensei em virar ladrão

e corro tanto atrás de ti
que eu já podia ser atleta

mas com tudo que eu já rimei
acho que eu me decidi

com você de inspiração
eu quero mesmo é ser poeta

poesia

poesia de luto

03:21

encontrei uma poesia
que estava em luto permanente
falava de alguma morte
mas jurava que era inocente 
no dia do julgamento 
a poesia, por sorte,
encontrou o seu escritor
que deixou tudo explicado
não existia culpado
por alguém morrer de amor

poesia

o sommelier caduco

00:12

o sommelier caduco
um dia, em casa e sozinho
tomou um copo de suco
e ainda pensou que era vinho

desprovido de sobriedade
seu amigo, o escritor
olha qualquer felicidade
e acha que pode ser amor

poesia

perdi

22:00

ela é profissional
em todos os jogos de azar
e eu, mais uma amadora
que ela tentou ensinar

aumentei, mas não tinha mão
botei na mesa o meu coração
ela viu que era encenação
e levou, sem dó, a premiação

avisei já no começo
que eu não iria ganhar
que eu não tinha experiência
e não prestava pra roubar

eu não tenho muita sorte
e nem consigo blefar
mas eu não sou competitiva
só queria jogar por jogar

ela é profissional
sabe bem onde apostar
e eu, mais uma amadora
só queria amar por amar

poesia

Volta ao mundo Carvoeira norte [2]

20:30

você merece 
alguém que
volte

volta ao mundo
sul
ou norte

beira-amar
ou continente 

tinha muita gente 
nesse que passou

e falando de
transporte
mobilidade
e acesso à
saudade

você tá meio
sem sorte
merece alguém que
volte

e eu
meu amor
só vou

não eu

Juro que foi a Helena.

00:42

Presta atenção. A Helena tá apaixonada por você, e eu te aconselho fortemente a não se apaixonar por ela. Dizem que ela é meio doida. Pois é. Ela fez uma lista de desejos e você tá no topo. A Helena é viciada em listas. A Helena disse que deveria abusar do teu corpinho. Não eu. A outra Helena. Ela me contou do que ela já fez. Também do que quer fazer. Helena com H de horny. Helena com H de heartbreaker. Não eu, tá. A outra Helena.
Juro pra vocês.

dia

dia 26

23:53

não é que não era
amor
mas mesmo se fosse
não seria
com quem conjugaria?
não era verbo
pra dele
se fazer carne
não era pronome
era gemido contido
filme não feito
poema não lido
rei afogado
truco não pedido
sem nem jogar
a gente perdeu
não é que não era
amor
mas mesmo se fosse
não seria
agora
se fosse jogo
se a gente fosse
a gente mesmo
perderia

poesia

dia 25

21:45

não é que 
não era 
amor
não é que 
não era 
nada
não é nem 
que era 
cilada
é que 
simplesmente
não era
nunca foi
não conjugava
não pra 
mim
só pra 
eles
não pra 
nós
que não éramos
nunca fomos
nós
não é que
não era 
amor
é que
simplesmente
não era

juro

Juro que não foi amor.

21:00

Me passa o horário que você nasceu. Eu quero fazer o teu mapa astral. Tu acredita mesmo nessas coisas? Eu acho engraçado. E cristão nenhum pode me zoar. Não brinca assim com religião, menina! Não tô brincando, tô só dizendo a verdade. Você ainda é de igreja e eu briguei com ela faz algum tempo. Será que isso significa que a gente não combina? Não sei, mas casamento comigo é só no cartório. Você quer casar comigo? Eu sempre quis. Mas a gente nem combina! Então você não quer? Eu quero. Que bom que já te ensinei a dançar. Eu era todo duro pra isso. Você sempre foi do rock e eu sempre fui do sertanejo. Logo eu. Você sempre foi dos Los Hermanos e eu sempre fui do molejo. Não era amor. Era cilada. Cilada. CILADA. CI - LA - DA. É isso que a gente é. Teus discos de muito bom gosto não combinam com os meus CDs bregas. Esse tanto de livro que você tem, e eu com os meus romances de adolescente. A gente nunca daria certo mesmo. Você nunca me deu chance. Sabia que chance significa sorte em francês né? Eu adoro esse fato. E eu adoro você. Mas isso não é sorte, querido. Isso é azar, e dos grandes. Será que não é só problema no timing? Essa é outra palavra que eu gosto. Porque até tem tradução, mas fica muito melhor em inglês mesmo. Eu queria falar mais inglês. Quando que a gente vai pra Nova York? Lembrei de outra palavra que eu gosto: overthink. Mas isso é uma coisa que eu não deveria mais fazer. Pois é, pensando melhor, a gente nunca daria certo mesmo. Acho que os nossos pais discordam, hein? Eles te adoram, fazem até campanha pra te ter como nora. Querido, eu faço campanha pra ser nora da sua mãe faz muito tempo. Como que eu nunca percebi isso? Sei lá, ninguém me leva muito a sério. Eu sou afobada e você é todo quietão. Você deve ter percebido que a gente não combina. Naquela festa que eu já cheguei sem salto e você ficou de paletó a noite inteira. Você quase nem bebe, enquanto eu... bom, já nos ensina a pichação no ponto de ônibus, que quem nunca usou LSD não teve uma vida plena. Tá brincando, né? LSD não é muito perigoso? Não faço a menor ideia. Não sei se eu teria coragem de usar. Nem eu. Mas agora sério, o que a gente precisa fazer pra ter uma vida plena? Acho que a gente devia ir pra Nova York. E pra Londres também. Acho que todo mundo devia se apaixonar. Ah, eu já me apaixonei em Londres. Você se apaixona demais. Você ama demais. Não acho que isso seja um defeito. Mas quem ama demais, às vezes se fode demais também. Mas, com você, eu não vou ter decepção, né? Não posso prometer nada. A gente é muito diferente. Não sei se as tuas amigas vão gostar do nosso romance. E você sabe que se elas não gostarem, eu termino na hora. Eu imagino que a gente vá discutir muito. Você tem outra cabeça, completamente diferente da minha. Não vamos falar de política, por favor, que o assunto é polêmico demais. Você acredita em reencarnação? Porque eu acho que a gente não vai dar certo nessa vida. Então quem sabe é melhor deixar pra próxima. Que bela ironia, você mesma disse que os nossos signos combinavam pra caramba. Os solares sim, mas precisaria do resto do mapa pra dizer se a gente combina mesmo. Aliás, você ainda não me disse que horas que você nasceu.

não eu

Não eu. A outra Helena.

23:45

Agora, por exemplo, a Helena tá trancada no quarto. E eu nem te aconselho a entrar ali, porque ela vai te matar. Sim, ela mesma disse isso. Não eu. Que fique bem claro. A outra Helena. Mas ela disse que era uma morte metafórica. Só não disse se ia te matar de dor ou de prazer. Ou de amor, que é um misto dos dois.
A Helena adora morrer de amor. E matar também.
A outra Helena. Não eu.

microconto

microconto abacate tá de boa

17:52

- O, você gosta de abacate?
- Gosto sim. Tinha um pé de abacate na minha casa.
- Tenho um aqui comigo. Você quer?
- Tô de boa, mas obrigada.

- E de amor, você gosta?
- Tem um aí com você?
- Vai querer ou tá de boa?
- Olha, obrigada de novo, mas eu tô de boa.

poesia

ainda faço um poema pra ti

03:13

ainda faço um poema pra ti
cê tem o sol na minha lua
tá com o carro na minha rua
se você me permitir
eu faço um poema pra ti
até tento fazer com rima
igual à que eu fiz ali em cima
me perdoa se eu não conseguir
ainda faço um poema pra ti
nem que leve a madrugada
e eu fique atordoada
escrevendo, sem dormir
o meu poema pra ti
quero que fique bonito
mas eu já disse, e repito
nada posso garantir
ainda faço um poema pra ti
e vou me expor por inteiro
vê se te cuida, parceiro
senão eu vou desistir
de fazer um poema pra ti
e então, pobre coitado
cê vai se ver obrigado
a contentar-se com esse daqui

volta ao mundo

Volta ao mundo Jaraguá do Sul

03:16

- Tá esperando o da Figueira?
- Tô esperando o amor da minha vida.
- Então boa sorte pra você.
- Você não acredita em alma gêmea?
- Não.
- Que coincidência. Minha alma gêmea também não.
- Você por acaso é vidente?
- Eu não, mas sou poeta.
- Poeta, dá pra acreditar em destino e em coincidência ao mesmo tempo?
- Você acredita em destino?
- Eu, sim.
- Eu também.
- Que coincidência.
- E você acredita em sorte e acaso. Mas não em alma gêmea?
- Parece-me uma ideia triste, pois tem tanta gente ruim no mundo. Todo mundo merece uma alma gêmea?
- Quem é você pra julgar? E você tá considerando que alma gêmea é algo bom.
- Claro que é. É uma grande realização.  Encontrar o amor da sua vida. Amar intensamente. Viver felizes para sempre...
- Assim que você imagina que é ser realizado?
- Sei lá. Eu gostaria de encontrar o amor da minha vida, se houvesse um.
- Não é melhor pensar que há?
- O que?
- A vida pode ter vários amores, e um deles pode ser o amor por alguém especial. Não seria mais otimista, e até mais feliz, pensar que existe um amor da sua vida? Uma alma gêmea, mesmo que você nem acredite em alma. Talvez seja bom considerar isso um prêmio. E se você não for merecedor, meu caro, ainda dá tempo de mudar.
- Nossa, você serve mesmo pra ser poeta.
Alguém interrompe a conversa, educadamente.
- Desculpa, vocês estão esperando o da Barra?
- Eu tô esperando o amor da minha vida.
- E não estamos todos?
- Bom, eu tô só esperando o da Figueira.
- Então você também acredita em alma gêmea?
- Eu, sim.
- Que coincidência.
Foi dormir com um único pensamento lhe rodeando a cabeça, e até falou bem baixinho:
- Talvez hoje, excepcionalmente, minha alma gêmea também acredite.

Como se eu fosse sua

16:49

Vou escrever sobre aquela vez que dançamos valsa. Vou colocar um trecho do Danúbio azul, mas você tem que prometer que vai tentar ler no ritmo. Mesmo que a gente nunca tenha dançado valsa, você pode ler como se fosse pra você. Vou lembrar de quando estivemos em Viena, das rosas e dos homens vestidos de Mozart. E mesmo que você nunca tenha pisado na Áustria, tenha uma alergia fortíssima ao pólen das flores ou nem goste tanto de música clássica assim, não precisa se preocupar, pode ler sem medo, como se fosse pra você.
Eu vou cantar aquela música do Nando Reis que eu gosto. E mesmo se você não morar num andar 12 do bairro das laranjeiras, saiba que eu tô cantando pra você. Vou fazer um poema sobre seus olhos azuis, mas mesmo se os seus olhos forem verdes, castanhos ou daquela cor meio cinza que eu acho tão bonita, leia cada rima como se fosse pra você.
E eu vou inventar histórias complexas, brigas intermináveis e reconciliações ultrarromânticas. Beijos no frio e debaixo de chuva, madrugadas em claro numa cama de solteiro, regadas a vinho, gemidos e admiração de coxas. Então, mesmo que a gente não brigue, durma cedo em cama de casal, mesmo se acabar dando sol na quarta-feira e a gente tomar cerveja, não se preocupa, pode ler todas as histórias como se fossem suas.
Enquanto eu tentar escrever o meu amor, meu amor, pode ler sem medo,
como se fosse todo seu.

juro

Juro que não fomos nós.

18:08

Coloca as nossas coisas na nossa mala vermelha. Nossas roupas, nossos celulares, nossas comidas, e não podemos esquecer de agilizar uma boa playlist pra nossa viagem. Posso fazer uma confissão? Eu ainda não me acostumei a usar tantas palavras relacionadas ao pronome 'nós'. Você lembra quando foi que eu e você viramos nós? Acho que foi naquele teatro que fomos juntos. Ah, claro, eu lembro. Nesse dia eu conheci aquela amiga tua, que tava namorando um estrangeiro. É, e logo depois eles terminaram. Eles deixaram de ser eles eles e passaram a ser eles ele e ela. E nós ainda éramos nós eu e você, agora já viramos nós nós. É, mas a gente não perdeu a individualidade, né meu bem? Pois é, às vezes acho que somos tão diferentes, nem sei se era pra eu combinar tanto com você. Acho que a gente se misturou um pouco, mas isso não é perder individualidade, sei lá. Mas a mala é nossa, e passamos a ser muito mais nós do que eu e você, pelo menos para fins poéticos. Não é encantador o fato de que, na língua portuguesa, a palavra nós possa ser um pronome pessoal ou um substantivo? Ai, só você mesmo pra ficar falando dessas coisas, mas é encantador, sim. Nós é uma palavra tão bonita. E não é? Olha o que eu pensei agora: Meu fone de ouvido, querido, tá cheio de nós. Só tenho música que me lembra de você. Olha, é bonito isso, mas eu sei bem que nem todas as tuas músicas te fazem pensar em mim. É verdade, mas você entendeu a piadinha. Falando nisso, você lembra o nome daquela música que nós ouvimos na rádio e gostamos? Eu te falei que queria baixar. Aquela que eu comecei a dançar? Não sei se falaram o nome, e de qualquer jeito, me distraí com a sua dança. Com a nossa dança, você quis dizer.
Diz aí, a sua playlist tem espaço pra nós dois? A nossa tem.

cirrose

A causa foi cirrose hepática [3]

10:00

era uma viciada em amar
achou que era brincadeira
coisa de jovem, bobeira
que deveria experimentar

se não curtir, é só parar
era o que diziam pra ela
que caiu nessa balela
e acabou por se viciar

usava sem nem pudor
diziam que era natural
e que sequer fazia mal
esse diacho de amor

mas olha, pior que faz
vou te contar a verdade
você não sabe a metade
do que o amor é capaz

um dia, o amor pode faltar
sem nenhum motivo bem claro
isso não é muito raro
só eu que não sei explicar

no caso dela foi tédio
na cama só tinha desgraça
então recorreu à cachaça
pra fazer papel de remédio

digo logo a consequência
o que lhe tirou a vida
não foi o excesso de bebida
foi de amor, a abstinência

era um bar

Era um bar novo

23:07

- Vamos tentar ir naquele bar novo. Tá sempre cheio, deve ser bom.
Na parede, tinha um quadrinho com uma vidente prevendo que o Cebolinha ainda iria beijar a Mônica. Mas, no fim, fomos eu e ela que transbordamos a cota de casais previsíveis daquela fatídica noite de sexta-feira. E olha que o papo chegou no Ross e na Rachel, no casal Ted e Robin, e no mister Big e Carrie. Por sinal, essa última new yorker apareceu pra mim esses dias acompanhada dos dizeres "Não se apaixone por uma escritora".
Que conselho mais horrível de se dar! Nós, escritores, somos mó legais, entrosamos pra caramba, chegamos na tua mesa de bar te pedindo conselho e marcamos a tua noite mais do que o diabo.
Pois é, meus amigos, dessa vez o escritor entrosão era eu. Não tinha música ao vivo, não tinha harpa e nem gaita de fole. Não tinha dança e não tinha Leoni.
Eu disse que precisava de uma personagem e ela se ofereceu. Disse que ia transformar o meu rascunho em arte final. Eu curti a iniciativa, mas ela logo colocou um obstáculo na minha missão de escrever pra ela.
- Se a gente não deve se apaixonar por escritor, então você, meu amor, não deve se apaixonar por personagem.
Então eu disse pra mim mesmo que não iria escrever sobre ela. Eu mudo o gênero da personagem para que não seja ela. Eu mudo a cor do cabelo e dos olhos pra que não seja ela. Eu mudo o signo da personagem e mudo o dia da semana que a gente saiu. Eu vou inventar que a personagem tem uma pinta onde a menina do bar não tem. É até melhor. Dizem que o leitor gosta de alguns detalhes aleatórios assim. Já sei! Vou dar um presente pra personagem. Pode ser um souvenir de viagem, um chaveirinho. De um cubo mágico, por exemplo, igual àquele que eu vi pra vender em Paris.
- Pra você.
- Nossa, não precisava! Eu adoro cubo mágico!
- Eu trouxe no meio da mala, vê se não tá quebrado nem nada.
- Quebrado não tá, mas os adesivos já estão soltando. Acho que você tentou trapacear hein!
Falou em tom de brincadeira.
Era verdade.

volta ao mundo

Volta ao mundo especial Canasvieiras

00:41

Será que tenho que pegar o ônibus desse lado ou do outro?
Pera aí que vou pensar um pouco. Nunca foi boa com localização e nem dirijo ainda. Confesso que me confundi no Reino Unido, onde tudo é mão inglesa. Mas quase não encontrei pão francês na França. Meu último e mais intenso amor francês foi o pichador de corações. Sou muito grata. Aqui, o pichado não mudou. Veterano não é dono de caloura. RBS golpista. O amor está no mar. O amor está no bar. Trouxe mais amor comigo. Eu que sou a carente abraçadeira. Voltei, e a família tem que comprar mais água, pois eu bebo demais. E tem que comprar mais abraços. Acabou a época dos 3 por 5, mas faço um desconto pra ti. Os shoppings continuam cheios. Meus dedos, arrebentados. E os olhos, orgulhosos de serem castanhos, continuam jogando verde pra qualquer par de olhos azuis que encontram. Trocadilhos e paixões de corredor. Eu bem que deveria parar com isso. Vou escolher uma música pra ouvir enquanto espero.
Mas é, é desse lado da rua, sim.

But if you close your eyes, does it almost feel like nothing changed at all?

poesia

mania

17:15

e ela
que pouco lia
e muito sentia
devia parar
com essa mania
de amar em demasia
toda e qualquer pessoa
feita só de
poesia

microconto

microconto inception

01:16

Dada a ausência do cinegrafista, foi chamado um poeta para substituí-lo. Julgaram que essa seria a alternativa mais apropriada para retratar aquela cena de amor.


microconto explicação do título

Se por um lado eu queria escrever um microconto, por outro... ah, quisera eu ser o poeta escolhido para substituir o cinegrafista. Adoro cenas de amor.

poesia

poema gás

03:12

trato amor igual refri
abro com cuidado
boto rápido no copo
fecho pra não acabar o gás
guardo na geladeira
fresquinho, que delícia
mas as forminhas de gelo estão cheias
pode pegar se precisar
ofereço pra quem eu gosto
e às vezes pra estranhos
mas não aceito copo suspeito
minha mãe me alertou
tem gente que mistura coisa no amor
pra se aproveitar
às vezes não tenho muito
outras, trasbordo o copo
tá com calor?
toma um gole
as gotas que derramo sem querer
são as mais felizes de todas

Jack White

Minha próxima lua de mel vai ser na Grécia

19:52

- Temos que comprar água, amor. Aqui não pode tomar direto da torneira.


Já estávamos acostumadas uma com a outra. A palavra amor já tinha sido tão usada pelas nossas bocas que se tornara um clássico. Mas palavra amor não gasta. Não desgasta. Pode usar com gosto. Pode usar sem medo.
Eu me apaixonei por você na chuva. Foi grande, forte. Foi fora de época, contradizendo todas as meteorologias. Você é exatamente como aquela chuva que estava anunciada para três da tarde, mas que acabou dando uma cochilada e só apareceu lá pelas cinco e meia, obrigando os turistas desavisados a entrarem em ônibus, metrô, restaurante e banca de jornal. O horário previsto da chuva estava em todas as publicações.
Mas você é imprevisto. Você é aquele momento de tensão em que a maquininha que monitora os batimentos cardíacos faz bip bip bip biiiiiiiiiiiiip. Também você é a própria equipe médica que salva quem estava em apuros. Você é a hora do conflito no livro de final feliz. Você é susto. Você me tira o fôlego. Também você é o meu fôlego em si.
Me apaixonei por você na chuva e você se apaixonou por mim quando já estávamos secas. Inaugurei a palavra amor. Deitamos juntas. Coxa com coxa. Braço com braço. Mão com mão e pé com pé, o mais quente esquentando o mais gelado. Nossos corpos gastam e envelhecem, mas a gente usa com gosto. Usa sem medo.

- Amor, olha pro céu, Acho melhor comprar outro guarda-chuva, porque esse já está gasto demais.
- Que estranho esse céu escuro. A previsão não era de chuva.

era um bar

Era um bar com música ao vivo

12:04

Era um bar com música ao vivo, mas não daquele tipo que você deve estar imaginando. Não era alguém com seu violão tocando Caetano e Leoni. Tampouco alguém com seu violão tocando clássicos sertanejos. Acho que tinha um violão, mas havia também uma harpa no lugar, e algum instrumento que soava muito parecido com uma gaita de fole. Além disso, metade do bar estava sem mesas, pois aquele espaço era pra dançar. Como eu danço muito mal, usei uma abordagem clichê para iniciar uma conversa.

- Com licença. Posso falar um pouquinho com vocês? Eu sou um escritor amador.
Sou um escritor que não conhece apenas o português, e confesso que pensei em escrever esse texto em inglês, para que a frase ficasse "I am a writer" e, então, não tivesse gênero. Mas a palavra "amador" é a que me prende à minha língua materna. Delego esse problema para os meus tradutores, se algum dia eu tiver prestígio o suficiente para ser traduzido. Só não tirem o Leoni do texto, por favor.
Falei que estava escrevendo um romance, mas que ainda não conhecia bem o meu herói.
Eu não sei se todos acreditaram que eu era, de fato, um escritor, mas tenho certeza que pelo menos uma pessoa o fez. Acreditou, mas não me deu muita atenção. Talvez foi porque já tinha bebido um pouco. Talvez foi porque estava com preguiça, já que o diálogo não era na sua língua materna. Talvez foi só pela zuera (boa sorte, de novo, tradutor). Mas posso afirmar com convicção que ela acreditou que eu era um escritor, mesmo quando seus amigos duvidaram.
- Não sei o que dizer. Como vamos arranjar idéias para o seu livro?
- Você pergunta esse tipo de coisa na mesa de bar?
- Não gosto dessa história do cara super poderoso e da menina indefesa que só procura um grande amor..
- Mas ela também não precisa morrer sozinha com um monte de gatos.
- Cachorros!
- Hã?
- Cachorros, amiga. Quem aqui gosta de gatos?
Falaram que deveria ser um casal de gays. Ou um casal de lésbicas. Falaram que alguém deveria ter olhos verdes. Falaram que o herói deveria saber dançar. Contaram os romances que já aconteceram e/ou ainda acontecem naquele pequeno grupo. Alguém inclusive pegou meu caderninho e minha caneta e escreveu vários nomes, para depois conectar com traços as pessoas que já tinham sido um casal.
Outro alguém interceptou o caderno no caminho de volta pra mim e escreveu "Eu acho que você não é um escritor".
Eles achavam mesmo que eu estava apenas interpretando? Acham que eu sou um ator? Questionei o grupo, e a pessoa que acreditava respondeu com:
- Não estamos todos interpretando? Talvez sejamos todos atores.
- Que filosófico!
- Eu também sou uma escritora.
Até aqui, eu estava utilizando o pronome feminino porque me referi a ela como "uma pessoa".
- Talvez sejamos todos escritores!
- Talvez sejamos todos bêbados!
- Talvez sejamos todos personagens!
- Agora você já tá viajando demais. O que há para ser escrito sobre as nossas vidas?
- Nossas aventuras, nossos amores, nossas viagens...
- Nosso possível futuro brilhante, um emprego que gostamos, uma casa, um gato...
- Cachorro!
- O que tem para ser escrito sobre as nossas vidas? Perguntemos ao escritor, que sentou aqui com a gente.
- É, as nossas vidas não tem esses dramas complexos como aquela série que você gosta.
- Parei de assistir aquela série. Eu não gosto quando muita gente morre. Até o cachorro morre!
- Por quê?
- Não lembro direito, mas sacrificaram o coitadinho.
- Por que você não gosta quando muita gente morre na ficção?
- Porque é uma contradição. É ilógico. Pra mim, os personagens não morrem. Eles enganam a morte, brincam com a vida. Morrem sem morrer.
- Morrem sem viver, né? Porque, na verdade, eles não existem.
A pessoa que acreditava não soube lidar com isso. Tudo bem os seus amigos gostarem de gatos, mas falar uma heresia dessas? Para uma escritora?
Já escutei que o escritor morre toda vez que é lido. Já li que se um escritor se apaixonar por você, você nunca morre. Já me apaixonei e já escrevi.
Já fiz curso de teatro, já trabalhei como policial e vendedor. Estou feliz sendo escritor amador, mas nunca tinha pensado em ser personagem.
Ela já.

Limparam os corações pichados no ponto de ônibus

19:00

Limparam os corações pichados no ponto de ônibus e assim acabaram várias das minhas paixões platônicas. Tantos casamentos que terminaram em divórcio ou anulação antes mesmo de serem realizados. Morreram tantos filhos que eu nem tive. As casas foram vendidas. Os cachorros foram doados. Esse emprego que arranjei do outro lado do mundo só pra ficar do teu lado, vou largar. A lua-de-mel foi cancelada, uma pena, pois acho que nossas fotos teriam ficado lindas. Ah, paixões de transporte coletivo. Aquela menina, no metrô, estava com o olhar tão triste. Não quer dividir essa tristeza comigo? Serviria de ombro amigo. Antes, quando havia corações pichados no ponto de ônibus. Agora sou frio. Ah, paixões platônicas. A menina da sala de espera. Como que ela era capaz de ser tão linda? Hoje, já não me encanta. A moça que faz vídeos pro youtube, com covers de músicas que eu gosto. Por que ela parou? Hoje, isso nem importa. Alguém que eu conheci em alguma viagem. Em alguma esquina da vida. Hoje, prefiro não imaginar o nosso futuro. Limparam os corações pichados no ponto de ônibus e assim acabaram várias das minhas paixões platônicas.
Separações tempestuosas. Filhos desparidos. Cachorros doados. E minha mãe, que esqueceu seu nome antes mesmo de ficar sabendo qual era.

-

Um menino ligou para alguém e avisou que a polícia estava indo pra lá.
Ele foi minha primeira paixão platônica depois do acidente com os corações.
Ele tirou uma foto, enviou para alguém. Tentou disfarçar, mas eu vi que tinha um sorriso escondido ali. Quem sabe era um romântico, assim como eu.
Na hora de pagar o ônibus, não foi possível esconder que as minhas mãos estavam sujas de tinta vermelha.
Alguém tinha que pintar os corações de volta, não é mesmo?

poesia

plástico bolha

18:30

queria poder enviar
meu amor pelo correio
de tanto que eu anseio
pra que você possa tê-lo
e se precisasse pagar
que fosse o preço de um selo

sei de quem faz coleção
de moeda, selo, coração
likes nas redes sociais
poemas e cartões postais

não quero amor limitado
daqueles encaixotados
se for minha a escolha
nada de plástico bolha
só um aviso: 'cuidado'
e se ele chegar quebrado
a gente lamenta o coitado

queria poder enviar
sentimento por transferência
de tão grande a urgência
de te mostrar meu amor
mas na hora de confirmar
me foi pedido um valor

eu não quero amor taxado
numerado, carimbado
quero-o protegido
sem que seja reduzido

ele fica aqui comigo
já que é a única solução
pois ele não corre perigo
guardado no meu coração

poesia

poema insônia

09:44




















duas horas de choro
não compensam oito de sono
então dorme, menina
pra não ficar com olheira
pra não ter dor nas costas
dorme, menina
dorme menina
descansa a cabeça
tá pensando demais
descansa o coração
tá batendo demais
apanhando também
dorme, menina
dorme pra sonhar
tem coisa ainda na lista
de sonhos não cumpridos
tem abraço e beijo
tem encontro
ainda na lista
então dorme, menina
dorme e sonha
o mundo espera
a lista espera
eu espero

É muito ruim tu comprar algo pra comer?

17:03

Inimigas lamentando minha voz é maravilhosa ! Café daqui meia hora na casa do Victor e Arthur hoje de manhã mas não sei se puxo mais assunto ou não querem xingar a Dilma. Ônibus amarelo é o mesmo babado. Amigos mandem fotos mais conceituais da minha turma que é orelha de gato. Paris das mulheres já é meio velha. Passeio com ascendente em aquário? Luz azul não tenho ânimo pra comer semente do meu aluguel pra pagar. Não consigo separar sexo do sentimento mas eu queria conversar muito, eu que dei moral pra Bruxelas.

Aventuras com o corretor ortopédico na volta da viagem que foi planejada em um café inocente.

15mil visu no blog uhul

volta ao mundo

Volta ao mundo Carvoeira sul [sdds Floripa]

19:00

Pois então, Júpiter em escorpião não é tão ruim quanto você pensa, viu? Mas você tem tudo em escorpião, deveria procurar alguém de aquário. Ou talvez gêmeos. Sempre achava que libra combinava com áries mas li em algum lugar que combina mesmo é com peixes. Bom, devia mesmo era procurar alguém pra esquentar esse teu pé. Ô menina pra ter pé gelado, viu? Sabe o que é, é essa meia que me aperta muito. Deveria esquentar, mas tranca a circulação e esfria mais ainda. Então procura uma meia que não te prenda. Que bonito, procura alguém que não te prenda também. Eu sei que você nunca acostumou a usar anel nessa mão gelada. Passa creme, pra não ressecar. Já tirou a bendita meia? Senta aqui. Se encontrar algum lugar, no meio da bagunça. Me explica agora como que a tua melhor amiga é de virgem. Você, libriana com um monte de planetas em escorpião, nascida no hemisfério sul do mundo. Você espera cada primavera como quem espera para nascer. E renasce. Desabrocha. O pai da Mulan disse que a flor que desabrocha na adversidade é a mais rara e bela de todas. Eu já me contento se conseguir ser rara e bela e desabrochar na adversidade. Então não só pela beleza da palavra, vou começar a chamar os perrengues de adversidades. Saudade é adversidade. Horário, solidão, tristeza, cansaço, ansiedade e stress. Adversidades. Dá um jeito. Te vira. Olha para as árvores, que secam e deixam cair suas folhas durante o frio, mas depois revivem. Frio é adversidade. Até canto let it go, mas a verdade é que o frio always bothered me, anyway. Por isso que acho que devia procurar alguém de touro. Ou quem sabe leão, porque é de fogo. Quais são os outros? Sagitário, serve? Devia mesmo era procurar alguém pra esquentar o meu pé. Mas alguém que não me prenda.
Acho que devia era me encontrar antes de procurar outra pessoa. O problema é que eu estou tão perdida quanto no primeiro dia que cheguei aqui. Nessa cidade, nessa primavera, nesse mundo.
- Desculpa, a senhora sabe se esse ônibus passa na liberdade?

Aqui na cidade onde eu estou morando tem uma praça chamada liberté.

cirrose

A causa foi cirrose hepática. [2]

20:24

Morreu sentada do lado da privada. Falaram que foi de tanto beber. Virou personagem dos conselhos que os pais dão.
- Viram, filhos, por isso que não se deve começar a beber muito jovem.
Disseram que ela bebeu demais, que ela era muito nova pra isso.
Troque seu coração por um fígado, assim você pode beber mais e sofrer menos. Era isso que diziam.
A verdade é que ela sempre foi fraca. Tanto pra bebida quanto pro amor. Um gole já era suficiente. Ficava alterada com pouco. Ficava animada, desnorteada, com voz de bêbada. Apaixonava-se também na mesma velocidade. Ficava alterada com pouco. Ficava animada, desnorteada, com voz de apaixonada. Depois pedia mais.
Gostava de experimentar tudo o que pudesse. Cerveja, vinho, vodca, jurupinga e aquela que tem que tomar com sal e limão. Até bebida azul ela provou. Quanto aos amores, a mesma coisa. Gostava de tudo. Ela era apaixonada por todos ao seu redor e isso era visível. Por isso era tachada de louca. Bêbada e drogada. Piriguete, talvez. Oferecida, dada.
Começou muito cedo, pobrezinha. Aos 15 já tinha se apaixonado perdidamente. Mudou de ideias, cedeu, fez sacrifícios por um amor que não durou. Daí foi ladeira a baixo. A próxima paixão, que deveria reconstruir, só fez destruir ainda mais. Ela era um caso perdido. Cada amor era um precipício. Cada amor era um ataque. Cada amor era um choque. Ela não sabia quando parar.
Acabava parando no bar. Começou cedo. Daí foi ladeira a baixo. A dose seguinte só fez destruir ainda mais. Ela era um caso perdido. Ela não sabia quando parar.
Acabou, por fim, parando no hospital. Disseram que ela deveria tomar bastante água para se hidratar, mas nada hidrata o coração seco. Seu corpo querendo, a todo custo, se livrar daquele amor todo. Que vergonha!
Morreu sentada do lado da privada. Vomitara a noite inteira.

Falaram que foi de tanto beber.
Mas foi de tanto amar.

era um bar

Era a mesma sala de espera

17:03

Era uma sala de espera como outra qualquer. Lá, eu esperei. Ainda estamos em fevereiro. Eu repetia isso pra mim mesma. A menina não vai aparecer aqui hoje. Aquela da bolsa feia e do baseado. Ela deve estar curada. Aliás, pode ser que ela nem estava doente. Tenho certeza que era uma visita de rotina. Não que ela combine muito com a noção de rotina, mas tudo bem. Quem sabe ela só passou aqui para ver o médico bonitão. Só digo que ele era bonitão pois o vi antes de ter as minhas pupilas dilatadas. Também porque ele foi super simpático e disse:

- Tenho um caso de toxoplasmose. A moça é muito jovem.
Muito jovem para ter dor nas costas. Muito jovem pra ser atriz. Muito jovem para se apaixonar por alguém e fugir para as Antilhas Francesas. Eu tenho certeza que foi isso que aconteceu com a menina da outra consulta. Eu percebi que ela estava com um sorriso anormal e com olhos de quem está quase chorando. O quase-choro feliz é um fenômeno peculiar.
Se eu tivesse que apostar, diria que esse foi o primeiro sorriso depois dela perceber que se apaixonou por alguém. Não me leve a mal, as pessoas podem ficar felizes por vários motivos e podem se sentir realizadas de diversas formas. Mas como poeta, eu aposto que era amor.
Aposto que era um dos primeiros sorrisos e que ela viu corações nas calçadas enquanto chegava no hospital. Sabe? Bem no começo, quando tudo parece que tem formato de coração? Talvez foi por isso que ela veio se consultar, no fim das contas.
Em um dado momento, eu percebi. Na falta daquela menina, a doida da sala de espera era eu. Eu com o cabelo raspado do lado, não aprovado pela vovó, e meu 2048 como droga. Lembremos que não pega internet na sala de espera ok amigos. Dentre aquelas pessoas, eu era a estranha que cantava em uma língua que ninguém entendia.
ESTRANHO É PENSAR QUE O BAIRRO DAS LARANJEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEIRAS
Mal sabem eles que meu olho de quem está quase chorando era devido ao gel doido que a médica passou. O sorriso era só comemorando a cicatriz mesmo.
E os corações nas calçadas?
Bom, era o meu próprio coração. 
Que menina largou aqui. 
Logo antes de fugir para as Antilhas.

poesia

fotografia

22:05

fotografia

substantivo feminino
escrever com a luz

poesia
substantivo feminino
manifestação da beleza
substantivo feminino
característica do que cativa
quem observa

você
pronome de tratamento
de origem na expressão
vossa mercê
pronome possessivo
substantivo feminino
minha situação

eu 
pronome pessoal
lírico
adjetivo

eu lírico
quem quer transformar você
pronome de tratamento
em poesia
substantivo feminino

luz
substantivo feminino
torna as coisas visíveis

poesia
substantivo feminino
idem

-

agora apaga a luz
pronome de tratamento
trata de aparecer pra mim
nem que seja em sonho

eu fico na escuridão
só com a recordação
incapaz de escrever com a luz
fazendo fotografia

mas ainda sei da beleza
pois sempre está iluminado
aquilo que foi declarado
graças à poesia

-

feito por uma helena
origem grega
tocha, raio de sol
ou seja,
luz

Ora, pois

22:12



Aqui as ruas tem nomes bonitos. Tem a rua da alegria, a avenida da liberdade e rua da saudade. Saudade, palavra única do nosso idioma para a qual não encontro explicação. Venho sentido saudades, inclusive, do que ainda não deixei. E saudade do que sequer vivi.
Saudade de ser europeu, navegar os sete mares e voltar à península ibérica. Saudade do vinho do porto. Do pastel e do centro cultural de Belém. Mandar cartas de amor ridículas que enfrentam os monstros marinhos para chegar a ti. De comprar vestido branco na rua Augusta e casar em Lisboa, bem na festa de Santo Antônio.
-
Que me perdoem minha vó e os demais parentes conservadores, mas minhas cartas de amor são destinadas a mulheres.
Navegar é preciso, viver não é preciso. Amar não é preciso. Amor é fogo que arde sem se ver. Se o amor nos cega, então cega sou e faço com Saramago nosso ensaio sobre o amor.
Amor é água, que pode parecer que já é mar quando ainda é rio. Como o Tejo, ficando cada vez mais largo até encontrar-se com o Atlântico.
Fique atenta ao correio, a senhorita pode receber uma carta de amor.
Que será ridícula, como todas as outras. Do soneto ao swap no tinder.
E ridículos somos nós, que continuamos a fazê-las incansavelmente.
Eu mesma, não nego.
Apresso-me em amar onde posso. Você me deixa saudade e eu te deixo um pedaço do meu coração.
Herdamos o português dessa terra europeia. Vim de longe, do além mar. De onde os bosques têm mais vida. A vida, mais amores?
A minha, mais amor.

poesia

cadê meu rascunho de ontem?

21:12

ontem com sono e cansada
pensei numa rima pra ti
mas não anotei a palavra
e por azar esqueci

fiquei logo desesperada
procurei na gaveta
balancei a cabeça
rezei pro capeta
mas sem resultado
talvez a perdi

mas no último parágrafo
dá-se o mais inusitado
já quase no final
foi então que percebi
a rima era tão trivial
- ei, poeta, eu tô aqui!

poesia

13/01

21:54

eu gosto de utopia
imaginar, fantasia
gosto de adrenalina
gasolina
de paixões de entrelinhas
do professor da medicina
da enrolada marroquina
do alemão da filosofia
e daquela nordestina
eu gosto de fazer rima
com gente que me fascina
me perco na poesia
mas a xícara de chá se esvazia
a palavra segue sua sina
mas eu vou dormir, menina

Elementar

18:18

- Eu queria ver neve.

Foi a primeira frase que escutei dela. 
- Entra no meu coração congelado.
Foi o que pensei. Mas um coração que te convida pra entrar na primeira frase não pode ser assim tão ruim, pode?

Remember to let her into your heart, then you can start to make it better. 

Ele é gelado só para poder derreter sempre. Vivo todo dia como se fosse o primeiro da primavera. Se você entrar, te dou trono e coroa. Não seria Londres o lugar perfeito para encontrar uma rainha? Uma sucessora. Forgive me, Beth, mas a minha monarquia cardíaca é a única que ainda respeito. O átrio é o hall de entrada e pela tricúspide vamos para o salão de baile que se estende por todo o resto.
Metáforas a parte, o cogumelo da Alice que a deixa pequena não é necessário para a sua coroação. Queen of hearts, que a inglesa conheceu em sonho, talvez.

She's so high I want to crawl all over her.

Com beijos de butterbeer, a gente se mistura como Londres e Westminster e eu não sei mais quem é quem. Vou extrapolar e chamar logo isso de amor. 

Love's such an old-fashioned word.

Entro em uma daquelas cabines telefônicas vermelhas, que combinam com meu batom e sangue real, e disco seu número. 
- Volta.
Faz mágica, incorpora o doctor Who, qualquer coisa.

I'm going back to the start.

Você tem pelo menos uma libra no bolso. Eu só tenho sete. Olho pro relógio. Chegou a hora da minha partida. Deixo o reino de uma rainha mas levo o reino de outra. Minha única sugestão: que ambos sejam menos frios.
Acaba logo, inverno. Acaba.

She's the queen of all I've seen, and every song and city far and near. Heaven help my mademoiselle. She rings the bell for all the world to hear.


Obrigado Queen, Bowie, Beatles, Coldplay, Oasis e Blur pelas músicas.