poesia

praga

19:07

amo
a dor
do fim
do amor
doído
e doido

Jack White

Minha próxima esposa vai gostar de mim

22:35

Oi, moça. Pode entrar, viu? Ah, esqueci por um momento que você já tinha a senha para entrar no meu prédio e na minha cabeça. Como que eu vou encaixar a água nessa história? Com a cidade mais linda do Danúbio, título de romance de Chico Buarque, onde a língua falada é mais complicada do que o dialeto da ilha de Santa Catarina, o tal manezinho, que eu ainda não tenho fluência. O Danúbio eu já conheci, mas aquelas águas ainda não me levaram até você. Até agora. Posso escrever um texto pra você? Dessa vez estou pedindo permissão, porque é assumidamente pra você. De vez em quando, aparecem pessoas, sem permissão, me interpretando e achando que os textos são pra elas. Eu tento disfarçar, jogo aquela do eu lírico e do tu lírico, mas ninguém acredita. Acho que assusto um pouco essas pessoas. Elas passam por mim, apressadas, carregando papéis, tirando fotos. Eu dou um sorriso e elas pensam que eu estou sempre sorrindo. Então, quando me conhecem, elas percebem que eu estou sempre lírica. No texto sobre você, vou dizer que você vai me fazer esquecer de tudo que não me faz sorrir. Você é a felicidade prometida, assim como era a América para os meus antepassados húngaros. Falar com você me acalma. Depois de você, os outros são os outros e só, como já diria o Leoni. Achava que você era errado, era pecado, pois era algo novo. Agora vejo como é normal amar a pessoa que entrega água na sua casa. A pessoa que mata sua sede. Ainda viajo aconselhada pelo Google Earth, mas eu não coloco  mais cadeado na ponte. Não jogo a chave no Sena. Porque eu não quero te prender e não quero ficar presa. No máximo eu jogo uma flor, mas no Danúbio. Carolina disse para Maria Helena que não queria ser atriz, queria ser personagem. Se você também queria, considere feito. Porque por mais que o meu ascendente seja seu signo e isso faça de nós duas dois demônios, eu não posso ser a minha própria poesia. Moça d'água, a minha poesia é você.

juro

Juro que não foi você.

21:20

Você não tem fogo? Como assim? E aquele isqueiro que eu comprei pra você? Mas você também né, me comprar um isqueiro, e eu nem fumo. O que mais você perdeu? A camiseta, aham. As camisinhas, também. Não ia deixar pra usar com outra pessoa né? Deveria? Ué, deveria. Que mal tem? É que não sei, meio estranho. Tudo está com um ar de usado. Eu estou com ar de usado. Espera aí que eu vou tomar banho. Ah, aproveita e leva as tuas toalhas daqui. E todos os produtos que são seus. O perfume que eu te dei, é pra deixar? Caralho, você foi me dar perfume. Leva, leva, não quero isso ainda pra me lembrar. Amanhã eu passo lá naquela loja que a sua mãe falou e compro outro. Mas vê se não compra muito doce, tá? Pronto. Agora já estou me sentindo mais renovado e menos usado. Aqui, toma a camiseta que você me deu pra dormir e o casaco que eu roubei. Já que falamos de perfume, ele tá forte no casaco. Então eu levo o seu cheiro e você fica com o meu, combinado? Tá, né. Mas você tem sacola suficiente pra levar tudo? Eu pensei em levar nesse baú. Diz aí, no seu baú tem espaço pra mim? Para as minhas piras, os meus celulares, as minhas fotos? Vai ficar encolhido, pequeno, e eu vou querer te esmagar mais ainda, mas cabe. Isso é tudo então? Escuta, eu queria te recomendar um filme. Que eu nunca vou ver, agora que você recomendou. Nunca? Nunca. Mas então você me odeia? Não, não, eu vou tentar não odiar você, por isso que já odeio o filme. O isqueiro, o estado e a câmera. Mas depois, como que vai ser? Eu te mando um oi qualquer dia desses. Ou espero a gente se encontrar no mercado, nem que demore anos. Quando eu encontrar a sua mãe, eu nem vou perguntar de você, só vou cumprimentar e sorrir, tá bom? Tá, digo o mesmo. Se cuida, viu? Não esquece de deixar a chave.
Diz aí, o seu baú tem espaço pra nós dois? O meu tem.

poesia

tu lírico (crise de sertanejo)

19:24

sentei no banco da praça
tipo Bruno e Marrone
e pensei em você
como eu penso todo dia
e antes de dormir
e quanto eu tô sonhando
e quando tô andando
e quando eu falo sozinha
eu tô só te esperando
mas não espere tanto
seu guarda
sou carente
sou intensa
sou demônio
e sou só minha

eu sei que te amo
tipo Chitão e Xororó
eu te amo sem saber 
teu nome
teu sexo
tua cor
de onde você é
pra onde você vai
mesmo assim eu te amo
porque tá frio
tá escuro
tá difícil
tá longe
os curingas não aparecem
talvez eu nunca te vi
talvez já
mas eu já sei que te amo
já escrevi tantas cartas
e poemas
e escrevi nos muros
mas depois eu nego

mas você vai saber
tipo Daniel
nas ondas do rádio ou da tv
ou da internet mesmo
ou nas ondas da minha cama
nas minhas
dos beijos
dos toques
dos choques
vai saber que eu amo você
e que eu não existo sem você
porque eu já disse
mas não canso de repetir
que ficar sem amor não consigo
sem você pra me inspirar
meu amor
eu não vivo

era um bar

Era um bar latino

21:55

Não sei dizer dizer se foi amor a primeira vista, se eu reconheci minha alma gêmea ou se foi apenas a one night stand. Não sei dizer o que foi e nem tampouco o que será. Eu vi bem que ela tem uma cara de quem vai me magoar logo. Vou ficar puto com alguma coisa, ou vou desencanar porque sou desses. Mas ela é ainda pior, vai me dizer que tá tudo bem e que podemos ser amigos.
No dia do bar latino, ela vai de batom. Vermelho, rosa, laranja, marrom, ou cor de todas as peles. Porque ela é uma alma que não cabe num mundo com preconceito. Ela simplesmente fica puta, e às vezes sobra pra mim, sem nem ela notar.
Mas hoje vai dar tudo certo. Hoje eu vou conquistar essa menina. Hoje a gente toma porron, mojito, cerveja, caipira e até gim pra ter o sex on the beach depois. Óbvio que é brincadeira, mas eu tenho que beber pra ganhar coragem. Pra eu fazer o que o caranguejo manda no filme da pequena sereia, e beijar logo a moça. Mas ei, cuida com a rede que você joga pra pegar essa sereia, porque ela pode acabar te enforcando. Não deixa a moça sem ar, não deixa.
Não se mete muito porque ela é cilada. Ela só me chama quando eu já tô de pijama, indo dormir. E quando eu já tô querendo voltar pra casa, ela resolve me encontrar, ou sair. E todo mundo sabe que eu sempre vou. Porque preciso de uma fórmula de recorrência, de uma kriptonita, porque eu já sou uma definição recursiva em si. E sou recursiva em sim. Não venha falar assim no meu ouvido, se você sabe muito bem que eu piro nesse sotaque. Nem me mostra esse cabelo curto que eu piro. A tatuagem e o violão.
Depois que você for embora, tranca logo a porta. Não me venha com essa de deixar entreaberta. Eu sei que tem chance de você voltar, mas tranca logo. Você toda hacker vai dar um jeito de entrar aqui no meu quarto pra me inquietar. Com todos os cheiros e gostos que têm esse efeito em mim pior do que o vinho.
Mas deixa um bilhete. Deixa escrito que me ama, mesmo que for mentira. Eu quero exagerar o amor, pra depois dizer que não foi nada, e depois dizer que o nada me incomoda mais do que tudo. Mas você só precisa deixar o bilhete. Depois pode ir embora, ou fica se quiser. Você que sabe, só tenta não abalar tanto minha estrutura. Ou mexer minhas constelações e planetas do lugar. Não move minhas fotos porque eu sou narcisista mesmo. Mas no dia do bar... Então minhas energias são todas canalizadas para a missão de te conquistar. Para a missão de te ter aqui na minha cama. No dia do bar, se prepara, meu amor. Nem que seja por uma noite, eu te conquisto. Ah, eu conquisto.