era um bar

Era outro bar de rock

20:35

Mesmo de batom vermelho, pediram a sua identidade porque ela tem cara de novinha. Sem certezas, sem planos e sem carteira. Ofereci carona e já deixei avisado que no meu carro só toca rock 'n' roll.


Ontem a noite, eu conheci uma guria que eu já conhecia de outros carnavais, com outras fantasias.

Foi a mesma coisa no carnaval, no meu aniversário, no último mês que eu envelheci dez anos ou mais, e ontem. Bebeu pra ficar tonta e não me agarrou. Algumas vezes os esquemas não acontecem. Sei lá por que motivo. Não rolou química, física, ou a geografia não estava a nosso favor. O que você não pode, eu não vou te pedir. E o que você não quer, eu não quero insistir.
Eu, que não bebo, pedi um conhaque pra enfrentar o inverno, que entra pela porta que eu abri quando você pediu licença, mas não entrou.

Eu fico pensando em cada sinal. Fico assimilando cada piscada. Cada palavra. Cada sorriso que eu fiquei admirando na cara dura. Cada projeto de sorriso, inclusive. Cada pelo e cada pinta, porque tudo isso importa pra mim. Todo momento com ela é precioso, e eu não quero perder nada.

Com ela, não quero fechar os olhos. Não quero dormir. Senti, sinto, sentiria e sentirei falta dela.
Enquanto voltava pra casa, liguei o rádio e deixei, apenas por uma vez, o rei do pop cantar.

Everytime I love you
It's in and out my life
Driving me crazy
Because baby
Love never felt so ruim.

Featuring:
Aerosmith - I don't wanna miss a thing
Engenheiros do Hawaii - Piano Bar e Eu que não amo você
E, claro, Michael Jackson - Love never felt so good

Etc e tal.

02:10

Sobre a saudade que eu vou sentir da minha mãe. Sobre a saudade que eu vou sentir do meu pai. Sobre ficar um ano sem brigar com a Naná, o que também significa um ano sem abraçar. Sobre eurotrip com a vovó. Sobre meu siricutico de fim de semestre.
Apresentar trabalho, levar café. Sobre última aula. Quanto tempo demora um ano pra passar? Sobre sempre poder voltar pra casa. Sobre concursos, planos de aula, encaminhamentos da vida, formatura e virar adulta.
Sobre pessoas certas, pessoas erradas e poliedros amorosos potencialmente geradores de conflitos. Sobre entregar todas as chaves de todas as portas e ficar só com o chaveiro, que é presente. Sobre presentes que a vida dá e presentes que a vida ganha. Sobre presentes que me dão presentes.
Sobre medo e ansiedade. Sonos perdidos. Dormi na praça pensando nela. Sobre versões de uma mesma música. Seu guarda, seja meu amigo. Me bata e me prenda, faça tudo comigo, mas não me deixe sem a Mirela. Essa versão é do meu pai.
Sobre casais casados. Sogras, noras, genros, cunhados, cachorros e passarinhos. Sobre fugas e procuras. Sobre viagens longas e músicas repetidas. Sobre minha mãe gostar mais da Malta e eu gostar mais dos Jamz. Natural.
Sobre mudanças. Sobre a faxina que eu prometo fazer. Sobre meus cadernos que não estão em dia, mas que eu quero passar a limpo. Sobre livros que eu quero ler, coisas que eu quero aprender, coisas que eu quero escrever.
Sobre Helena, Carolina, Leninha, Manoel Carlos, fotografia e cinema.
Sobre as minhas versões que você conhece.
Sobre aquelas que você não conhece.
Sobre aquelas que ainda nem existem, principalmente.
Nada mal.

Perdida no labirinto

00:26

Meus dedos estão coçando para escrever algo sobre o CFM. O Centro de Ciências Físicas e Matemáticas é onde eu tenho minhas aulas, do curso de matemática. Este também é o centro dos cursos de química, física e meteorologia.
Carinhosamente apelidado de labirinto do Minotauro - o que já diz muita coisa - o CFM, na minha opinião, pode ser descrito em uma palavra: horrível.
Eu tentei me convencer de que ele tinha personalidade, que o importante era o que acontecia ali e não o estado deplorável da estrutura. Tentei me convencer de que era frescura minha, afinal, o que é uma chuvinha dentro da sala de aula, né? Confesso, foi burrice minha, e foi em vão.
Vamos começar pelo que eu já mencionei, a chuva na sala. Tente dar uma volta no CFM em um dia de chuva para ver se é frescura minha. Uma das salas de aula apresenta uma goteira no buraco da lâmpada, e isso já virou clichê no corredores.
Esse semestre eu fiz estágio em uma escola estadual. Num dos dias, choveu e eu percebi que um canto da sala ficou todo molhado devido a uma goteira. Pensei que era coisa de escola do estado antes de ver a mesma situação no centro onde estudo, em uma universidade "de excelência".
Vossa excelência, o departamento de matemática, tem uma linda bandeira do Brasil na frente do prédio. Mas como que o Brasil vai saber de matemática com um centro desses? Como está a formação dos futuros professores de matemática em um centro que mais parece uma prisão?!
A gente não pode parar, como o cinema e a odonto, pois dizem que para aprender matemática, não precisamos de laboratórios, apenas de um lápis e um papel.
Xerox? Lanchonete? Parem de reclamar e usem a estrutura dos outros centros.
Banheiros? Pra que, né? No começo do ano, todos voltaram de férias e acharam que o CFM estava lindo. Por que? Porque pintaram as portas e as paredes! Ainda tem descarga que não funciona e porta que não tranca, mas as portas estão pintadas, olha que lindo gente. Isso sem comentar do tempo em que todos - eu quero dizer todos - os banheiro femininos estavam fechados "para melhor nos atender". Foram dias maravilhosos em que o banheiro mais próximo do CFM era no EFI.
Sobre o prédio do EFI, eu não consigo decidir o que eu mais gosto nele, se é subir cinco andares de escada porque os elevadores só devem ser usados em caso de emergência, se são os quadros mal-cuidados ou se é o luxo dos banheiros.
Estou batendo tanto nessa tecla pois, eu não sei se vocês sabem, mas os encanamentos do CFM foram estourados na demolição de uma parte do prédio. Literalmente, estamos na merda, meu povo.
No centro da física, permanece a inércia. Não sei o que posso fazer além de expressar a minha indignação em forma de texto corrido e reclamações no corredor da direção.
Pois o CFM é mais do que um lugar para eu ter minhas aulas de cálculo e comer meus lanches. Estamos falando de um dos centros que mais produz pesquisa na universidade. Estou falando de um lugar onde deveria ser estimulado o amor pela ciência. Mas sinto que estou em um ambiente onde nada me estimula.
Licenciatura pra quem? Matemática pra quem? Ciência pra quem?
Excelência?! Pra quem?

O meu aniversário tá muito legal.

23:40

Certa estava a Rita, quando disse:
- Não vai hoje, Carol.

Fui te ver aquele dia. Me perdi. Devia ter ficado para assistir Frozen, A Pequena Sereia e A Bela e a Fera, onde ainda existe amor verdadeiro.
Ou pelo menos a ilusão.

Certa estava a Rita, quando me disse para pular bem alto na cama elástica.
- Mas eu já estou pulando bem alto, Rita!
Nem estava tão alto assim. Tinha medo de pular nos cantos (e desencantos).

Certa estava a  Rita, que pulava.
Rita, estou com medo de crescer.

Adultos tem que sair da ressaca e da gripe sozinhos.
Adultos não podem andar cantando.
Adultos tem que preparar aula, jogar xadrez e lidar com sentimentos.

Acho que são todos uns medrosos.
Eles tem que se comportar, não devem brigar.
Adultos tem que ficar na linha.
E tem que ligar para as opiniões de todo mundo - inclusive dos cancerianos - eca!

Eu fui ver você naquele dia do aniversário da Rita.
Perdi altas diversão.
Ganhei tormento.

Meu coração bateu mais forte, meus dedos sentiram o nervosismo.
Estou até doente!

- Carol, não vai hoje. Fica aqui.
Rita, em seu último suspiro com quatro anos de idade.
Eu, querendo que o mundo acabe em camas elásticas.
Para pular mais alto.