Sobre amores pré-moldados

22:45

Preciso confessar, sou uma pessimista quanto ao amor. Eu vejo o copo meio vazio. Quando o começo começa, eu já penso no começo do fim. Não botei muita fé em nenhum dos meus romances até hoje. Foram todos pré-datados, tirando o meu caso homossexual com a menina que me encontra todo dia no espelho. Mas não se preocupe, mãe, ela é fantástica, vocês vão se dar super bem. Contudo, meus copos de romances que abrangem mais de uma pessoa ainda estão meio vazios. Duas pessoas, dois corpos, dois umbigos, dois pescoços e quatro olhos. Deparei-me com aquele programa com a Adélia Prado por acaso, mas o meu marido não queria muito assistir comigo. Ela disse que todo poeta é um escritor do cotidiano. Afinal, o que temos além dos nossos sofrimentos e amores diários? Os artistas tratam da perplexidade que é existir. Existir é muito esquisito! Existir a dois, a três, a mundo, é ainda mais. Eu mesma já tenho dificuldade para juntar os meus próprios pedaços depois das explosões, dos tiroteios, das bombas de efeito moral. Já vi um ponto de teletransporte, mas nunca pisei nele. Imagina se eu me desintegro e não volto ao normal? Passou tanto tempo, tantas coisas, tantas pessoas, que eu acho que não volto mesmo ao original. Quem sabe um dia o meu copo já foi meio cheio, mas depois das nossas chacoalhadas, dos meus siricuticos e do último carnaval, ele respingou. Deus sabe onde foi, e sabe se isso é bom. O copo do pessimismo, esse sim eu vejo meio cheio. Há um lado bom, que eu não sei explicar, só sei que mesmo o nosso tragicômico fim não deu conta de estragar aquela música, que dizíamos ser a nossa. Tenho um amor platônico. Um amor idealizado e fora do alcance. Eu quero livre. Quero licença livre, amor livre. De rótulos, de preconceitos e de fins. Quero Adélia Prado. Quero pessoas no lugar dos dementadores, que levam uma a uma as minhas lembranças boas. Quero teatro, mas quero de verdade. Quero um copo cheio pra respingar. Ou foda-se o copo. Adélia Prado disse também que é quase um pecado deixar um texto na sua forma crua, do jeito que vem ao mundo. Mas aqui vai o meu sorriso de mãe na primeira foto com o bebê, logo depois do parto.

professora

24/03

00:59

No carro estava tocando Minority, do Green Day, quando este texto nasceu na minha cabeça. Contei para eles que faço licenciatura. Ah, mas você quer ser professora de escola? Que massa. Eles disseram. Conversamos sobre a situação da educação no estado. Está triste. Mas eu posso sempre dar aula em cursinho, que eu ganho mais. Eles disseram. Riram quando falei que não me preocupo em ganhar muito dinheiro. Falaram que eu vou ver mesmo quando a água bater na bunda. Nesse momento pensei, porra, eu só quero fazer alguma coisa pela educação e vocês ainda ficam rindo de mim? Porra, não deveriam sequer tentar me desencorajar. Lembrei do super heroi Kick-ass, de uma frase em particular. Três assholes batendo num cara enquanto todos estão olhando, e vocês querem saber o que está errado comigo? Acho que quero mesmo é ser da minoria.
Depois tocou Boulevard of broken dreams e cantei junto I walk alone, I walk alone, mesmo sabendo que nem caminho tão sozinha assim. Lembrei do meu pai um dia me dizendo que achava que tinha a doença de ser feliz com pouco. E eu acho que a doença é genética. Lembrei também da minha mãe, da história do menino que foi pra sala da direção com grafite na orelha, também da menina que machucou o dedo com o apontador de lápis. Exatamente como você está pensando.
Quando digo que quero ser professora, me chamam de louca, de corajosa. Piso em uma escola pública e fico ainda mais animada, mas ninguém entende. Nesse momento eu já escutava you shoot me down, but I won't fall. É. Oh yeah. Ingenuidade, burrice ou loucura. Chame como quiser. Apesar de não ser titanium e assumindo que posso desanimar ou desistir, atualmente eu estou mais para don't you dare kill my vibe. Pensei se realmente não há algo de errado comigo. Pensei em relacionar isso com o meu você-lírico. Tem algo de errado comigo? Sorri sozinha lembrando da foto da Nati caindo. Cheguei em casa e ainda comi cachorro quente. Deixei para escrever depois e aparentemente esqueci o final legal para o meu texto lá em Jaraguá. Desculpem-me.

poesia

Jardim de saudades.

01:19

Se saudade fosse contável,
eu teria incontáveis saudades de você.
Dar-te-ia todas as minhas saudades em forma de flor.
Ou melhor, em forma de buquê.
Ou melhor, em forma de jardim.
Ou melhor, eu forma de eu e você.
Porque jardim de saudades é lindo,
mas não para um longa estadia.
Jardim de saudades é lindo,
mas só serve mesmo pra fazer poesia.

Amantes. Cinzas.

00:29

Agora que nós somos dois amantes cinzas
Agora que o carnaval passou
Agora que nós somos duas partículas
Colombina e Pierrot
Samba sou.

Foi um convite inesperado. Quem sabe um beijo inesperado. Mas o coração dela não bateu e a Terra não se moveu além do esperado. Não sei o que houve, nem entendi o que aconteceu depois. Tive que ouvir dos amigos que, quem sabe ela não recebeu a mensagem, quem sabe ela tá sem créditos, quem sabe ela tá tomando banho, há uma semana. Quem sabe ela tá na rua ouvindo o lepo lepo loucamente, não escutou o celular tocar. Quem sabe ela não está mais tão louca por mim. Ah, mas ela já foi, não estou sendo esnobe, eu juro. Ela é um tipo peculiar de pessoa. Peculiar no melhor sentido. Na minha teoria, ela nasce quando o universo quer fazer poesia. Fica até difícil não gostar dela. Mas acho que eu estraguei a porra toda - com o perdão da palavra - pois agora, agora ela tá tão solta, tão livre. Eu que devia ter entendido antes. Uma poesia assim, como ela, não pode ser guardada pra si. Eu não conseguiria, e nem seria certo. Mas eu desejei, mesmo que por um tiquinho de tempo, ela pra mim. Só um versinho, que fosse. Mas chegou o carnaval, ela não desfilou e eu aceitei. Aceitei que ela foi feita pra ser poesia. E eu, para gostar de poesia.

Não aprendi citações nas normas da abnt. O trecho de cima é do Carlinhos Brown.