feminismo

Sobre Bolsonaro

22:40

Minhas reflexões sobre a treta que me fez virar lésbica, parar de tirar a cutícula e dizer que Deus não existe.


SOBRE A TRETA EM SI

Uma Maria do Rosário chamou o deputado Jair Bolsonaro de estuprador e ele disse que 'não a estupraria porque ela não merece'. Mas não foi com um tom de alguém que entende que nenhuma mulher merece ser estuprada. Rachel Sheherazade tentou convencer seus seguidores disso, mas não. Ele disse depois que ela não merece porque é feia, não o agrada. Ou seja, o bicho mexeu na bosta e ela ficou mais fedida. Ele não estava só dizendo que existem mulheres que merecem ser estupradas, o que já é um absurdo por si só. Ele estava colocando o estupro como algo bom! Um prêmio a ser conquistado, merecido, quase como um elogio. Dá pra entender o absurdo nisso!? 

SOBRE A MINHA REAÇÃO

Ok, eu exagerei lá em cima. Eu ainda tiro a cutícula. Mas essa foi a segunda ocasião nesse ano em que um político me fez chorar. O primeiro foi Levy com seu discurso de 'nós temos que enfrentar essa minoria imagine eu que sou um pai de família um avô'.
Mas bom, Levy era candidato enquanto Jair é deputado eleito, e foi o mais votado. Chorei ao pensar que o meu país elegeu um cara tão escroto para o cargo. Mesmo sabendo que ele é racista e homofóbico, o povo votou nele e ele vai pro sétimo mandato.
Mas né, dei a minha opinião sobre o caso, mas não é a mesma opinião de todo mundo.

Teve gente que veio dizer:

- Ah mas ela defendeu o estuprador no caso lá de sei lá o que.
Isso não justifica uma ameaça de estupro pra ela. Isso não justifica uma ameaça de estupro pra ninguém. Não importa se ele concorda com ela ou não. Não importa se ela é uma boa política ou não. NADA justifica essa ameaça de estupro.

- Ah mas o Bolsonaro não é estuprador, ele defende castração química e isso é bom pra acabar com o estupro.
Então estupro é causado simplesmente por desejo sexual? O tesão é a causa dos estupros? Se fosse assim, tadinho do Ryan Gosling né minha gente? Mas não é. Os estupros acontecem porque somos criados em uma sociedade em que o corpo da mulher não pertence à mulher.
Não cheguei a ler o projeto de lei dele e não tenho opinião formada, mas sei que não adianta punir se a mentalidade não mudar.

- Ah mas cassar o mandato já é demais né?
E o que que você quer? O homem se recusou a pedir desculpas! Disse que não falou nada de errado! Porra meu, se ele pelo menos pensasse sobre isso. Se ele pelo menos tentasse desconstruir esse machismo dele. Mas não, continua com esse discurso podre.

- Então deviam cassar o mandato dela também! Ela o chamou de estuprador!
Sim, ela chamou. Não foi legal. Mas porém contudo todavia NÃO DÁ pra colocar as duas falas no mesmo patamar. Simplesmente porque nenhum homem sai de casa com medo de ser chamado de estuprador. Nenhum homem troca de roupa porque tem medo de ser chamado de estuprador. Nenhum homem pega doença, ganha filho ou morre porque foi chamado de estuprador. Nenhum homem pega táxi porque tem medo de ser chamado de estuprador no caminho de volta pra casa. Essas são situações que a MULHER passa em relação ao estupro. Ela chamou primeiro, não foi legal, mas a reação do cara foi MUITO pior.

- Mas ela que começou!
Caralho velho, isso não é uma briga de irmãos pra ficar com essa de 'começou'.

Tive a infelicidade de saber que o ex da minha irmã e o ex da minha melhor amiga defendem esse cara. MEDO foi a palavra que mais serviu para a ocasião. Eu não quero esse tipo de 'gente' perto de mim e perto das mulheres que eu amo.
Excluí uma galera do facebook para poder concentrar minhas energias num desabafo mais organizado e não sair batendo boca por aí. Excluí sim pode me chamar de radical bitch please

SOBRE O MEU FEMINISMO

Pensei em começar a história pelo avôs ali quando escrevi sobre o Levy.
Eu não conheci nenhum dos meus avôs. Mas conheci uma vó que ficou viúva e criou quatro filhos praticamente sozinha e ainda tenho uma vó que se separou nos anos 70 e que chorou ao planejar sua viagem pela Europa lembrando do quanto teve que batalhar para viver e alimentar as crianças. 
Tenho umas tias super fodas e uma mãe foda também. Meu pai que me perdoe, mas acho que isso contribuiu para eu pensar que mulheres são muito mais poderosas do que homens.
Sem saber, eu era feminista desde criancinha. Eu era uma daquelas crianças chatas, mal-educadas e intransigentes que mostrava a língua e o dedo pra quem mexia com a minha mãe na rua. Mais tarde, comecei a responder 'oi, feio' quando recebia um 'oi, linda'. Eu perguntava por que os homens faziam isso se não tinham nenhuma intenção de conversar com a mulher. Meu pai, bem fora do padrão, respondia que isso era coisa de homem, que homem era tudo tosco mesmo.
Eu me perguntava as coisas de menina pequena, tipo por que homem pode andar sem camisa e mulher não, por que mulher tem que fazer depilação e homem não, por que as tias lavam a louça e os tios não lavam e outras assim.
Eu não gostava de xingar as pessoas de filho da puta. Eu dizia que não fazia sentido xingar a mãe da pessoa, em vez da própria pessoa. Eu dizia que tinha que xingar os meninos de putos, ou de vagabundos, mas a moda não pegou.
Mas a melhor pergunta era: Se Deus é tão importante, por que não o chamamos de Deus mãe, ao invés de Deus pai?
Claramente eu já era femista misândrica e se fosse por mim, viveríamos num matriarcado reich da buceta haha brinks só que é verdade

OK tô de zuera. Contei toda essa historinha pra dizer que desde criança eu não vejo sentido em tantas diferenças de tratamento e tanta hierarquia do homem sobre a mulher. É claro que a coisa é muito mais complexa do que uma competição entre os clubes do Bolinha e da Luluzinha, mas faz parte do nosso desafio tentar compreender algumas coisas, refletir, se colocar no lugar do outro e desconstruir comportamentos que reforçam a opressão.
Não é vitimismo. Não é frescura. Não é histeria.

UMA história envolvendo estupro na família ou entre os amigos é suficiente para que uma mulher SAIA DE CASA COM MEDO TODOS OS DIAS. E muitas têm medo de agressão DENTRO DA PRÓPRIA CASA.
Isso acontece por causa do machismo. Os homens podem entender isso e alguns até viveriam melhor em uma sociedade livre desse mal, mas homens não sentem na pele esse medo que eu estou descrevendo.

Fiquei muito bolada com essa treta toda, como dá pra perceber. Eu tenho medo por mim e pelas mulheres da minha vida. A minha sorte é que eu tenho umas mulheres tão fodas e lindas ao meu redor, que fazem com que nenhuma lágrima tenha caído em vão. Comecei a ler mais sobre esses paranauê e me assumi feminista chata. Feminista eu já era, mas parei de fingir que eu sou legal, boazinha e quieta LET IT GO LET IT GO
Tem coisas que eu não aguento e que não sou obrigada. Estou acompanhando mais discussões e aprendendo o máximo que eu posso. Feminismo não é guerra dos sexos. Feminismo é luta contra o machismo. Feminismo é sobre empoderamento da mulher. Se me chamar de radical eu visto a carapuça. Tento manter a cabeça aberta mas vou teimar até a morte por uma coisa: o fim desse medo para as mulheres.

Ah,sugestões e críticas são bem vindas tá. Eu sou feminiciante.

feminismo

bendito o fruto do vosso ventre

20:00

tá complicado, Maria

eu preciso confessar
tá complicado faz tempo
não tem mais como negar
no dia do meu nascimento
meu destino já foi selado
eu era igual a Maria
a mulher que me deu à luz
então deram pra mim uma cruz
de machismo e patriarcado
você deixou, Maria?
você não me defendeu?
bem que tentei, minha filha
mas sozinha eu não consegui
você é vítima, assim como eu
e tantas outras que conheci
porque nos tornamos mulheres
nos dizem o que devemos fazer
o que podemos fazer
o que devemos sentir
como devemos nos comportar
o que devemos vestir
e o que devemos falar
e quando queremos luta
eles nos dizem inclusive
como devemos lutar!
porque nos tornamos mulheres
somos assassinadas
nossa liberdade é violada
nosso corpo é violado
nosso corpo é condicionado
a ridículos padrões inventados
somos caladas, estupradas
insultadas com falsas cantadas
depois nos chamam de loucas
histéricas, desequilibradas
sofremos todas juntas
Marias, Fernandas e Natálias
pecadoras ou imaculadas
somos nós as crucificadas!
formamos juntas uma família
que podemos chamar de sagrada
não viemos do mesmo ventre
mas somos irmãs de verdade
seguimos a luta por igualdade
contra as opressões, por liberdade
temos como uma arma 
essa tal sororidade

mim da um bj

00:03

perdoa eu e meu português coloquial, as gírias do internetês que eu gosto e minhas declarações de amor por snap zap zap e comentários no fb. perdoa que eu quero ser engraçadinha e que não tenho escorredor de macarrão. é que eu não sei se tô muito preparada pra virar adulta ser feliz e fazer exercício. era tão mais legal poder levantar o vestido e mostrar calcinha sem se preocupar. era tão mais fácil não saber que os adultos ficam julgando. eu já te amava bastante.
obrigada por me ajudar tanto a pensar, inclusive. desculpa por tudo que eu ainda não sei sobre marx fotografia francês cálculo música programação e feminismo. perdoa minha preguiça e fome de vírgulas acentos e letras maiúsculas. perdoa se não ficar como você queria. tô tentando te escrever já faz uma cara e nada parece bom suficiente. você é inescrevível.
se fosse possível te expressar com alguma arte, eu queria poder fazer uma exposição de você e colocar em um museu ou galeria pra que todo mundo pudesse ver os seus sorrisos olhares bocejos tremedeiras e o jeito que você prende o cabelo assim. se você deixar, é claro. daí acho que todo mundo se apaixonaria ou apaixonar-se-ia por você. e eu nem me importaria importar-me-ia iria me importar
não sei se tô preparada pra virar adulta e saber quando vai próclise ou mesóclise e escrever coisas sérias e saber as músicas da elis regina e dos los hermanos se na verdade eu ainda escuto sandy e jr. tranquilidade uma quimera queria sempre essa alegria.
não viver sonhando, quem me dera!
então vemk mim dá um beijo pode ser no sonho mesmo. fala que tá tudo bem me faz um cafuné me fala o que é uma quimera e só sai da minha cama antes do sol nascer se tiver alguma ideia boa pra texto ok
por sinal já to voltando

era um bar

Era uma sala de espera.

21:19

Prometo que esse texto não vai tomar mais tempo de mim do que essa xícara que chá, que tomo na caneca do Corinthians, que era do meu pai, e graças a uma nova chaleira elétrica.
Estava eu em uma das salas de espera do oftalmologista quando vi aquela moça e resolvi perguntar se era naquela sala mesmo que eu deveria esperar. Melhor assim, pois poderia vê-la. Eu estava absolutamente normal e ela toda maravilhosa e doida. Franja pequena, lisa, cabelo claro e óculos redondo. Com uma bolsa feia que só vendo. Eu paguei caro na minha bolsa - gostava da antiga, que ficou velha, e queria outra no mesmo modelo - enquanto ela carrega aquela maleta quadrada feia e continua linda. Li mais alguns textos do livro da Martha Medeiros, que estava na minha bolsa porque na sala de espera não pega internet. Inclusive, desculpa a quem eu não respondi hoje, estava na sala de espera e depois estava com a pupila dilatada demais para responder. Mas o tempo não é esse ainda. Li mais alguns textos enquanto pude e a consulta aconteceu conforme esperado. É a doença do gato. Por isso que eu não gosto deles. Voltei a reencontrar a moça na hora de marcar o retorno. Quando a vi enrolando o baseado ali mesmo no hospital, tive certeza. Pelas minhas contas, essa foi a sétima vez que me apaixonei nessa cidade. Longe de mim banalizar o amor, nada disso, mas alguém que escreve sobre amor não deve perder oportunidades. Na sala de espera do médico da visão, eu só queria que ela percebesse tudo que eu tenho de bom que é invisível. Infelizmente o retorno dela ficou agendado para março e meu para fevereiro.
Outra coincidência terrível do destino foi a aparência do céu quando saí do consultório. Não me leve muito a sério, afinal eu tinha acabado de sair do oftalmologista, mas eu vi muitas cores. Em um cenário, o céu parecia vermelho, rosa, e no outro um laranja tão forte que me senti obrigada a comunicar alguém, mesmo com as pupilas ainda dilatas, o que dificultava o envio de mensagens pelo celular. Verde, também. Verde, óbvio. Como que o céu - que é azul e todos concordam - poderia virar laranja sem passar pelo verde? Alguém pode me explicar?
Tudo isso aconteceu antes do café da tarde. Ainda tomei café da tarde, jantei e assisti O Grande Gatsby, mas só pensei no texto quando voltava para casa.
É um filme bonito. A moça era bonita. Minha nova chaleira elétrica é bonita. O céu estava bonito.
Mas não me leve tão a sério, eu ainda tenho a doença do gato.

volta ao mundo

Volta ao mundo Carvoeira norte

00:15

Tinha um macaco de pelúcia perdido no ônibus. Ele estava sentado, sozinho, no banco da janela. Olaf, que estava comigo, ficou horrorizado. Bem que ele tem razão, ninguém gosta de estar perdido. Eu posso te mandar a minha localização, mas ainda não sei onde posso comer algo quente nessa hora do meu pensamento. Faz tanto tempo que tá escuro que eu achei que era mais tarde. E tá frio, até pro Olaf. Juro que é ele quem insiste pra ter conchinha toda noite. Tá frio pra perder bonecos de pelúcia no ônibus. Tá frio demais pra não se apaixonar. Cai a chuva e molha o meu amor, já diziam Sandy e Júnior na playlist pra não chorar que eu criei. Estou perdendo artigos e pronomes possessivos nesse trajeto do ônibus, que vai do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul. Sabe, achei que tinha algo nas minhas costas. De tanto coçar, encontrei algo: as marcas dos arranhões que eu mesma fiz. Faz tanto tempo que tá escuro que eu já deveria estar dormindo, mas todos concordamos que um macaco de pelúcia perdido no ônibus não é assunto para desperdiçar. Por um momento, pensei até que era uma pegadinha.

Espera aí que tem algo estranho.
Excusez-moi.
Pardon.
Merci.
Ela recuperou o seu macaco de pelúcia e eu não me senti mais tão maluca por andar com um Olaf pela cidade. Que bom que o macaco não vai dormir sozinho. Eu também não.

Uma paródia pra vocês

22:42

Não adianta chegar, ficar de cara feia, porque eu já tinha o blog antes de te namorar.
Se você me ama, segura a sua onda. Participa, não critica ou tenta interpretar.
É assim que é. É assim que tem que ser. Ficar pensando em texto até o amanhecer.
É assim que é. É assim que tem que ser. Segunda a segunda eu vou escrever.

Esse vinho. Esse vinho me pegou.

Baseado em pagodes parisienses. A batucada te pegou.

02/11

21:50

já era até esperado
que eu fizesse um textinho rimado
sobre o nosso amor inusitado
simples e nada rebuscado
logo no dia de finados

volta ao mundo

Volta ao mundo Carvoeira leste

21:42

angústia
estresse
masoquismo
impaciência

auto conhecimento
cheio de dúvidas
amigos e viagens
brigas e vontades

amor
poesia
frio
machucado

lembra de mim?
cicatriz
trauma
guerra

querer ser importante
tentar ser diferente
único
depois encontrar semelhantes

depois paz
valsa
calma
esmalte

depois band aid
saudade
mãe
e lembranças

(depois fotos sem rimas
poemas embaçados
escrever é minha maneira
de te fotografar

depois 5 da manhã
me desculpa
depois primavera
e depois cura)



poesia

praga

19:07

amo
a dor
do fim
do amor
doído
e doido

Jack White

Minha próxima esposa vai gostar de mim

22:35

Oi, moça. Pode entrar, viu? Ah, esqueci por um momento que você já tinha a senha para entrar no meu prédio e na minha cabeça. Como que eu vou encaixar a água nessa história? Com a cidade mais linda do Danúbio, título de romance de Chico Buarque, onde a língua falada é mais complicada do que o dialeto da ilha de Santa Catarina, o tal manezinho, que eu ainda não tenho fluência. O Danúbio eu já conheci, mas aquelas águas ainda não me levaram até você. Até agora. Posso escrever um texto pra você? Dessa vez estou pedindo permissão, porque é assumidamente pra você. De vez em quando, aparecem pessoas, sem permissão, me interpretando e achando que os textos são pra elas. Eu tento disfarçar, jogo aquela do eu lírico e do tu lírico, mas ninguém acredita. Acho que assusto um pouco essas pessoas. Elas passam por mim, apressadas, carregando papéis, tirando fotos. Eu dou um sorriso e elas pensam que eu estou sempre sorrindo. Então, quando me conhecem, elas percebem que eu estou sempre lírica. No texto sobre você, vou dizer que você vai me fazer esquecer de tudo que não me faz sorrir. Você é a felicidade prometida, assim como era a América para os meus antepassados húngaros. Falar com você me acalma. Depois de você, os outros são os outros e só, como já diria o Leoni. Achava que você era errado, era pecado, pois era algo novo. Agora vejo como é normal amar a pessoa que entrega água na sua casa. A pessoa que mata sua sede. Ainda viajo aconselhada pelo Google Earth, mas eu não coloco  mais cadeado na ponte. Não jogo a chave no Sena. Porque eu não quero te prender e não quero ficar presa. No máximo eu jogo uma flor, mas no Danúbio. Carolina disse para Maria Helena que não queria ser atriz, queria ser personagem. Se você também queria, considere feito. Porque por mais que o meu ascendente seja seu signo e isso faça de nós duas dois demônios, eu não posso ser a minha própria poesia. Moça d'água, a minha poesia é você.

juro

Juro que não foi você.

21:20

Você não tem fogo? Como assim? E aquele isqueiro que eu comprei pra você? Mas você também né, me comprar um isqueiro, e eu nem fumo. O que mais você perdeu? A camiseta, aham. As camisinhas, também. Não ia deixar pra usar com outra pessoa né? Deveria? Ué, deveria. Que mal tem? É que não sei, meio estranho. Tudo está com um ar de usado. Eu estou com ar de usado. Espera aí que eu vou tomar banho. Ah, aproveita e leva as tuas toalhas daqui. E todos os produtos que são seus. O perfume que eu te dei, é pra deixar? Caralho, você foi me dar perfume. Leva, leva, não quero isso ainda pra me lembrar. Amanhã eu passo lá naquela loja que a sua mãe falou e compro outro. Mas vê se não compra muito doce, tá? Pronto. Agora já estou me sentindo mais renovado e menos usado. Aqui, toma a camiseta que você me deu pra dormir e o casaco que eu roubei. Já que falamos de perfume, ele tá forte no casaco. Então eu levo o seu cheiro e você fica com o meu, combinado? Tá, né. Mas você tem sacola suficiente pra levar tudo? Eu pensei em levar nesse baú. Diz aí, no seu baú tem espaço pra mim? Para as minhas piras, os meus celulares, as minhas fotos? Vai ficar encolhido, pequeno, e eu vou querer te esmagar mais ainda, mas cabe. Isso é tudo então? Escuta, eu queria te recomendar um filme. Que eu nunca vou ver, agora que você recomendou. Nunca? Nunca. Mas então você me odeia? Não, não, eu vou tentar não odiar você, por isso que já odeio o filme. O isqueiro, o estado e a câmera. Mas depois, como que vai ser? Eu te mando um oi qualquer dia desses. Ou espero a gente se encontrar no mercado, nem que demore anos. Quando eu encontrar a sua mãe, eu nem vou perguntar de você, só vou cumprimentar e sorrir, tá bom? Tá, digo o mesmo. Se cuida, viu? Não esquece de deixar a chave.
Diz aí, o seu baú tem espaço pra nós dois? O meu tem.

poesia

tu lírico (crise de sertanejo)

19:24

sentei no banco da praça
tipo Bruno e Marrone
e pensei em você
como eu penso todo dia
e antes de dormir
e quanto eu tô sonhando
e quando tô andando
e quando eu falo sozinha
eu tô só te esperando
mas não espere tanto
seu guarda
sou carente
sou intensa
sou demônio
e sou só minha

eu sei que te amo
tipo Chitão e Xororó
eu te amo sem saber 
teu nome
teu sexo
tua cor
de onde você é
pra onde você vai
mesmo assim eu te amo
porque tá frio
tá escuro
tá difícil
tá longe
os curingas não aparecem
talvez eu nunca te vi
talvez já
mas eu já sei que te amo
já escrevi tantas cartas
e poemas
e escrevi nos muros
mas depois eu nego

mas você vai saber
tipo Daniel
nas ondas do rádio ou da tv
ou da internet mesmo
ou nas ondas da minha cama
nas minhas
dos beijos
dos toques
dos choques
vai saber que eu amo você
e que eu não existo sem você
porque eu já disse
mas não canso de repetir
que ficar sem amor não consigo
sem você pra me inspirar
meu amor
eu não vivo

era um bar

Era um bar latino

21:55

Não sei dizer dizer se foi amor a primeira vista, se eu reconheci minha alma gêmea ou se foi apenas a one night stand. Não sei dizer o que foi e nem tampouco o que será. Eu vi bem que ela tem uma cara de quem vai me magoar logo. Vou ficar puto com alguma coisa, ou vou desencanar porque sou desses. Mas ela é ainda pior, vai me dizer que tá tudo bem e que podemos ser amigos.
No dia do bar latino, ela vai de batom. Vermelho, rosa, laranja, marrom, ou cor de todas as peles. Porque ela é uma alma que não cabe num mundo com preconceito. Ela simplesmente fica puta, e às vezes sobra pra mim, sem nem ela notar.
Mas hoje vai dar tudo certo. Hoje eu vou conquistar essa menina. Hoje a gente toma porron, mojito, cerveja, caipira e até gim pra ter o sex on the beach depois. Óbvio que é brincadeira, mas eu tenho que beber pra ganhar coragem. Pra eu fazer o que o caranguejo manda no filme da pequena sereia, e beijar logo a moça. Mas ei, cuida com a rede que você joga pra pegar essa sereia, porque ela pode acabar te enforcando. Não deixa a moça sem ar, não deixa.
Não se mete muito porque ela é cilada. Ela só me chama quando eu já tô de pijama, indo dormir. E quando eu já tô querendo voltar pra casa, ela resolve me encontrar, ou sair. E todo mundo sabe que eu sempre vou. Porque preciso de uma fórmula de recorrência, de uma kriptonita, porque eu já sou uma definição recursiva em si. E sou recursiva em sim. Não venha falar assim no meu ouvido, se você sabe muito bem que eu piro nesse sotaque. Nem me mostra esse cabelo curto que eu piro. A tatuagem e o violão.
Depois que você for embora, tranca logo a porta. Não me venha com essa de deixar entreaberta. Eu sei que tem chance de você voltar, mas tranca logo. Você toda hacker vai dar um jeito de entrar aqui no meu quarto pra me inquietar. Com todos os cheiros e gostos que têm esse efeito em mim pior do que o vinho.
Mas deixa um bilhete. Deixa escrito que me ama, mesmo que for mentira. Eu quero exagerar o amor, pra depois dizer que não foi nada, e depois dizer que o nada me incomoda mais do que tudo. Mas você só precisa deixar o bilhete. Depois pode ir embora, ou fica se quiser. Você que sabe, só tenta não abalar tanto minha estrutura. Ou mexer minhas constelações e planetas do lugar. Não move minhas fotos porque eu sou narcisista mesmo. Mas no dia do bar... Então minhas energias são todas canalizadas para a missão de te conquistar. Para a missão de te ter aqui na minha cama. No dia do bar, se prepara, meu amor. Nem que seja por uma noite, eu te conquisto. Ah, eu conquisto.

poesia

direito legítimo de amar

18:28

família
sou bi
isso mesmo
bissexual

se deixar
sou até bilinear
e bivalente
não tô doente
não tô precipitada
mãe, não quero ficar calada
eu não quero ser censurada
só porque tenho amor demais
olha o que o povo faz
me bate
me cala
me mata
mas agora eu virei chata
agora eu vou falar
pode me julgar
pode me bater
pode me matar
a minha luta não vai morrer
escuta bem o que eu digo
tem mais gente comigo
e o nosso pedido
não é complicado
e nem é pecado
podem acreditar
se existir um deus
ele há de concordar
que a gente tem direito
de expressar o nosso amor
de andar junto, sem pudor
de casar, se assim for
podem acreditar
se existir um deus
ele há de concordar
vocês não podem negar
que a gente tem direito
legítimo de amar.

Tretas incuráveis

17:18

Eu estou controlada. Relaxa, porque eu ainda estou de boa. Mas o meu pensamento já cai em você quando escuto músicas românticas. E eu rio. Tem nuvem escura no céu. Vai chover.
Não se preocupa, porque quando eu vejo os corações nos buracos da calçada, eu ainda tento me controlar. Para de sorrir, menina. Você tá vendo corações onde eles não existem. Isso não vai prestar. Eu sempre digo, mas eu nunca escuto.
Tem nuvem escura no céu e o meu guarda-chuva tá na bolsa. O sexo tem que ser seguro, mas ainda não inventaram proteção pra foder corações. E daí eu vou te culpar por qualquer coisa que você me passar.
E eu imagino que você tenha umas tretas incuráveis pra me passar.

Como aquela flor de plástico que você me deu, ou aquela de papel crepon que você pegou pra mim. Por que diabos me dar uma flor que não morre?! Você sabe que eu nunca vou ter coragem de jogá-la fora. Quem sabe eu passei um pouco disso pra você também. Não me cospe da sua vida assim. Não me esquece.
Todas as horas em vão que a gente passou. Todas as besteiras que a gente comeu. Todos os filmes que a gente viu. Todo o álcool que a gente bebeu.
A sua mãe, cara. Manda um abraço pra ela, sério. Os seus amigos. Diz, por favor, que eu não sou uma vaca, tá?
Todos os fins de tarde que a gente passou juntos. Eu não vou lembrar de tudo, mas alguns detalhes vão ficar. Aquele dia que eu cantei. Aquele dia que você falou das minhas unhas. Aquela aula que eu matei pra ficar com você. Aquela piada horrível. Aquele dia que você cantou. Aquele primeiro toque que me deixou arrepiada. Aquela escada. Aquela blusa sua que eu gostava.
Todos os elogios que você me fez. Todos que eu te fiz. Todos os carinhos. Isso é AIDS pro coração. Não cura, não sara e vou passar para todos os próximos.

Toma cuidado. Eu tô me controlando, mas vários testes deram resultado positivo. Eu tenho várias doenças amorosamente transmissíveis que são incuráveis.
Te dou um conselho: corre ou arrisca. Vai na sorte mesmo.
Na verdade, acho bom que você me passe alguma treta incurável. Se não, do que eu vou lembrar?
Assim que a gente faz amor inseguro.
Assim que tem que ser.

Um brinde de kriptonita #3anosdeblog

16:38

Não só tem lugar pra você na minha cama. Você também dorme nela muito melhor do que eu. Sabe, poderia te mostrar o meu certificado de procrastinadora profissional, mas eu ainda não entreguei aqueles papéis, acredita? Só não atraso beijos, cortes de cabelo e textos. As coisas que me libertam. Mas essa procrastinação do sono não tá legal. Não é charme, não é inocente. O nome disso é insônia e o sobrenome é olheira.
Mas, eu sou aquela amiga que diz que ele ainda não te mandou mensagem porque tá tomando banho ou dormindo há 3 dias, então tento ajeitar o cabelo e pensar nas putarias que a vida faz.
Hoje, dia 22 de setembro é um dia muito especial. Hoje é aniversário de três anos do meu blog \todos comemoram. Queria mandar um beijo pros russos. Outro para as mulheres da minha vida.
Quero mandar um beijo pros exs e outro pros atuais haha brinks viu pai. Um beijos pras exs dos exs, pras atuais dos exs, pras exs dos atuais e pras atuais dos atuais #suruba! brinks de novo pai, relaxa.
Um beijo pra quem me viu trocar aquário por gêmeos e sagitário e continuar tomando no cu hihi
Um beijo pra quem me vê com cara de perdida e falando sozinha no mercado.
Um beijo pra quem já sabe que comigo tem verde no por do Sol, no nascer do Sol e outro pra quem ainda não sabe do meu daltonismo psicológico.
Um beijo pro Chitãozinho e outro pro Xororó. Um boa sorte pra quem vai me aguentar passar pelas próximas TPMs sem mãe e sem Negresco.
Um beijo pra quem manda comentário anônimo. Um beijo pra você que não tinha nada pra fazer no domingo e resolver ler um blog.
Um beijo pro Páris, um pro Menelau, um pro rei e outro pro cavalo, porque eu sou dessas.
Um beijo pro Leminski, que certamente não vai se importar se eu usar um textinho dele.

eu te fiz
agora

sou teu deus
poema

ajoelha
me
adora

Um beijo pra quem sabe que eu curto poemas, mas esse é só um textinho cheio de beijos, frases soltas e nenhuma rima.
Mas eu gosto.
Tem lugar pra ele no meu blog. Tem sim.

poesia

sobre helena poema

18:50

moleque tão lindo
esse jeito de falar
não sei se tem coragem
de por mim se apaixonar

de homem eu não entendo muito
eu não falo engenharia
não sei nada de jogos
só entendo de poesia

eu não entendo de fotografia
não sei nada de cinema
nem de tecnologia
eu só entendo de helena

pinto a boca de rosa e laranja
quando eu quero te beijar
e de vermelho
quando quero te conquistar

eu passo máscara nos cílios
pra você sentir quando eu piscar
pisca pisca pisca
tô querendo te alcançar

pinto as unhas coloridas
quando quero te agarrar
e até boto vestido
se você gostar

hoje no computador
a seguinte pergunta eu vi
deseja verificar e corrigir helena?
adivinha o que eu respondi

juro

Juro que não fui eu.

17:49

Você tem fogo? Eu nem fumo, mas vamos fazer uma pausa do tempo de um cigarro. Aceita alguma coisa? Um vinho? Um abraço? Uma pastilha pra garganta? Você quer dormir aqui? Não vai seguir o protocolo de se fazer de difícil? Reparou nas minhas estrias? Não reparei. É pra apagar a luz? Você quer? Eu não quero. Quer que eu coloque uma música? Melhor não. A gente não quer acordar ninguém, não é mesmo? Tem camisinha? Tenho. Você é muito bom nisso. Tem certeza que prefere a luz acesa? Tenho, mas apago se você quiser. Eu não quero. Muito calor aqui. Vou tirar esse vestido. Aquela parede parece vazia sem você. Se você não gostar de alguma coisa, você diz. Eu gosto disso. Eu também. Gosto dos nossos corpos e das nossas regras. Como vai ser depois? Hoje a gente tá tão encostado que a gente até se confunde. Mas depois, cada toque vai soltar uma faísca. Vai ser de 'quero mais' ou de desconforto? Não sei ué. Depois é depois. Agora é agora. Desligou o celular? Acho bom. Posso tomar banho aqui? Mas você trouxe escova de dente? Tem certeza que trancou a porta? A sua cama tem lugar pra mim? Posso abrir os braços? As pernas? Precisa de travesseiro ou você consegue dormir aqui no meu ombro? A gente fica junto, cada um vai pra um lado ou o que vier é lucro? De manhã a gente se beija? Pergunta se foi bom? Acho meio cafona. A minha mãe me ligou. Você quer um café? Não vai esquecer os seus óculos. Deixa que eu abro a porta pra você. Te acompanho por um pedaço do caminho. Me avisa quando chegar. Ah, vou ter que contar pra alguém. A gente se fala mais tarde?
Diz aí, a sua cama tem lugar pra nós dois? A minha tem.

Do avesso

18:38

De um lado da folha tá escrito "Por que não publicar poemas de amor?" e do outro "Topologie et analyse fonctionnelle - aula do dia 15/09". O professor fala português, quais são as chances? Enfim, em duas folhas de caderno eu misturei português e francês, bolas e poemas de amor. E faço pior, misturo roupa clara e escura pra lavar, ai se a minha mãe visse. Preciso de mural pra viver, e o meu mistura fotos, cartões postais, poemas de papel quadriculado e a frase "fico feliz por saber que criei duas almas livres", que escutei de um poeta quando descobriu que tinha as duas filhas bissexuais. Ah, e meus sonhos eróticos misturam meninos, meninas e Shakira. Eu misturo sentimentos. Na verdade meu cérebro é tão organizado quanto o meu quarto, que tem sutiã e grampo de cabelo jogado pra todo lado, mas eu gosto.
Misturo verde com laranja, azul e rosa. Misturo meu sorriso no seu e sua vida na minha. Misturo Chitãozinho e Xororó com Los Hermanos na mesma playlist.
Mas espera aí, a página com o título "Por que não publicar poemas de amor?" tá vazia. Não achei nenhum outro motivo que não fosse a comparação do poema com a walk of shame e a riqueza dos detalhes que um poema de amor? Sério, eu não valho nada mesmo. Inspirada na grazi, sou amor do fim ao começo. Por fora e do avesso.

poesia

por que publicar poemas de amor?

15:56

por que publicar poemas de amor?

porque o tempo passa
a gente esquece
chega o inverno
muda a Lua
se não for agora
no fresco
no ato
quando vai ser?
e se eu esquecer?
não me leve a mal
mas e se esfriar?
se virar banal
usual
trivial
tem que ser agora
tem que ser
vai que a gente não combina?
vai que eu perco você?
vai que depois dá raiva
e eu rasgo o pobre poema?
deixo que ele me ataque logo
sei que é legítima defesa
prefiro vê-lo escancarado
ao vê-lo morto em minha cabeça

por que não publicar poemas de amor?

esse fica na gaveta
um dia eu mostro
ou mato
quem sabe

poesia

Poema do papel quadriculado

19:16

Hoje eu tô linda
Pode me encontrar
Quem sabe o universo conspire
Pra gente se cruzar
Esbarra comigo no centro
Eu bem que ia gostar
Se a gente se ver
Não precisa nem encostar
Só diz oi
Ou só sorri
Tô treinando sorrisos de resposta
O dia inteiro
Descobre logo minha loucura
Cabelo, cheiro
Tamanho e doçura
A cor que escolhi hoje
Acho que me cai muito bem
A felicidade também
Não vem me chamar de apressada
Você que perdeu o trem
Eu sou poesia
Meu bem
Se eu não me apaixonar
Não sou nada nem ninguém
Se o poema já tá aqui
Cadê você, que não vem?

Rappelle-toi,

20:16

Preciso confessar. A primeira noite foi foda.
Sem família, sem amigos e sem internet. De repente a menina do interior tava em Brest sozinha, desolée.
Segundo Coldplay, every teardrop is a waterfall. Eu vou dizer, para efeitos de poesia, que cada lágrima é uma chuva. Et, rappelle-toi, Helena, il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là.
Só me mantinha no sonho de menina, na calma enterrada e na poesia.
Frejat me desejou que, quando eu ficasse triste, que fosse por um dia e não um ano inteiro. Pois é, acho bom, porque tenho um ano inteiro pela frente aqui, Frejat. Já a Amy me lembrou que my tears dry on their own, ou - se me permitem - my waterfalls dry on their own.

Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t'ai croisée rue de Siam
Tu sourriais
Et moi je souriais de même

Minha professora nem poderia imaginar que a Siam me traria uma alegria tão grande. Era a única coisa que eu sabia sobre essa cidade! Rappelle-toi Barbara. Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là.
Guardei pela sonoridade. Guardei porque queria aprender. Guardei porque era poesia misturada com sonho e guerra.
Então, Barbara, vou logo me apresentar para que você não tenha que me fazer nenhuma pergunta constrangedora. Meu nome é Helena, mas pode chamar de Carol. Libra com ascendente escorpião. Eu gosto de meninos e meninas, do Coldplay, da Amy e do Frejat. Francês tarado não tem vez avec moi. Eu vejo verde no por do Sol e se você me disser que não tem, nunca vai conseguir me entender. Aliás, sem uma pitada de sensibilidade do outro lado do rio, você não vai me entender. Ah, e entender é diferente de interpretar. Tenho um blog, adoro escrever, mas não tente me interpretar. Tô numa nova cidade, num novo país e num novo continente, então me dá um desconto, s'il te plaît. Todo mundo fala tu sem medo.

Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas

Esse fica sem fim. Porque tá bem longe do fim, anyway.

Poema que a prof trouxe para a gente aprender o passado que fala de Brest: http://alain.liscoet.pagesperso-orange.fr/barbara.htm

poesia

Tem verde no por do Sol [2]

20:24

pinta o por do Sol
mas não pode usar verde
porque não tem verde no por do Sol

escolhe o que você quer fazer
mas não pode ser letras
não pode ser música

talvez eu seja louca
insana

talvez eu seja a única da família
que serve para poesia
sirvo a poesia
e ela me serve

talvez eu só não enxergue cores
mas disseram que mulher não tem daltonismo

é isso mesmo
dentre tantas imposições
nem daltônica eu posso ser!

talvez, então, eu seja homem
mas dessa opção eu não gosto

porque, enquanto mulher,
posso virar uma matemática
ou uma música

eu vejo verde no por do Sol
estou praticando
pois quero me tornar
poesia.

Jack White

Minha próxima esposa vai gostar de Jack White

19:50

- Você conseguiu. Estragou todas as outras pra mim.

Moça da água, tudo bem com você? Queria te contar sobre o que eu estou vendo aqui, mas sem os clichês de 'é tudo lindo'. Nem tudo é lindo. Sabe, moça, entrei numa igreja forrada de ouro. Tinha fila para entrar, e nesse tempo eu vi pessoas mendigando. Digo pessoas, porque sei que são, mas vivem como objetos descartáveis. E mesmo vendo o luxo das igrejas e palácios, ainda temos a ousadia de chamar os mendigos de vagabundos. Tá certo isso, moça? Eu vi gente jogando moedas na fonte de água, fazendo pedidos. Vi gente passando mais tarde e catando as moedas. São a mesma gente, moça? Somos todos a mesma gente? Pude ler liberdade, igualdade e fraternidade, só não pude ver.
Eu chorei, moça, quando vi um certo argentino que só usa branco e mora na Itália. Ele diz que pessoas homossexuais são, antes de tudo, pessoas. E que mães solteiras são, antes de tudo, mães. Mas esse pensamento não deveria ser óbvio, moça?
Acho engraçado quando uma pessoa vê outra pessoa com um cachoro e, em vez de sorrir para a pessoa, sorri para o cachorro. Entendeu? E eu sempre faço isso, moça. Vou te contar um segredo. Eu tenho medo das pessoas, principalmente dos homens. Somos criados para desconfiar do próximo. É bom isso, moça?
Estou tirando várias fotos. Algumas com você, inclusive. Amor-próprio e um pouquinho de narcisismo é bom, sim, mas o que eu quero mesmo é mudar o mundo. Quero mudar pra mim e para as outras pessoas.

- Agora fui toda aberta. Tô translúcida. Trans lúcida. Se alguém diz que nunca se apaixonou, é porque não te conheceu ainda, moça da água.

Jack White

Meu próximo marido vai gostar de Jack White [2]

09:39

- Water, please.

- Sparklig water or still?
- Eeeh... no sparkling. Thank you.

Oi, moço da água. Tudo bem aí? Desculpe pelo 'no sparkling'. O meu inglês é bom, mas eu estava nervosa. Por que? Porque não é fácil para alguém que não estava nem um pouco empolgada com Viena e que não gosta de falar com estranhos se localizar na cidade. Além disso, meu conhecimento de alemão se resume a oktoberfest, bier e pretzel. Você, na verdade, foi a primeira coisa boa que me aconteceu aqui. Moço, me desculpe de novo, meus amores curingas estão em outro continente. Eu não tenho escolha, tenho que me apaixonar. Mas não deixe isso acontecer se você for um chato, um machista ferrenho, um deslumbrado. Ah, e a gente também não pode se beijar nessa cidade. Pois no Belvedere está O beijo, do Gustav Klimt. E eu só quero um beijo se for o melhor que essa cidade já viu. Frescura minha, mas por favor entenda. Também não podemos andar de mãos dadas. Tem alguma coisa nessa água, moço, que está deixando as minhas mãos cheias de bolhas. Estou de tpm, mas odeio que perguntem. Esse é um dos meus segredos. Também, sou orgulhosa e não gosto de chorar. Apesar do meu pesar, gostei daqui. Da história da rainha Sisi e dos homens vestidos de Mozart.

- Meet me at the Opera. I'll be wearing a red dress.

feminismo

Insônia feminista

02:01

mulher I

de que menino você gosta?

com oito anos, tive que responder
falei Lucas ou Guilherme
não sabia o que dizer

depois de virar mocinha
tive que começar a tirar os pelos
não demorou muito
e a depiladora apareceu num pesadelo

eu quero ficar bonita
unha feita, corpo escultural
ai de mim se eu descuidar
não me caso nem a pau

tem coisas que eu nao fazia quando solteira
passar e engomar
mas agora que eu casei
tive que começar

não entendo de política
nem quero, não é coisa de mulher
meu voto é igual ao do meu marido
confio no que ele disser

tenho que me dar o respeito
tanta coisa eu não posso fazer
tenho que ser mulher, como disserem
esse é o meu dever

queria que todos vissem
o absurdo dessas sentenças
mas para chegar lá
a jornada e longa e intensa

o que faz de você mulher?
casamento, beleza, depilação?
mulher não rima com muita coisa
vou apelar para a despadronização

mulher II

o que faz de você mulher?
é a soltura das rimas
das amarras
a dor nua
que vira luta
a beleza das curvas
mulher é poesia
ciência
e amor
se alguém escreve bem
escreve como um homem
dizem
ainda bem
ainda bem
que estão errados

poesia

Gaston, o que você sabe sobre os meus sonhos?

19:48

quando falam
é o seu sonho
eu me incomodo
pois é uma palavra tão forte

conheci uma mulher
que me disse:
- eu só queria ter dinheiro 
pra comprar umas telas
e criar umas galinhas
é o meu sonho

é o meu sonho
sonho
sonho

eu sonhando com Paris
e ela teve que acampar embaixo de lona
pra ter um pedaço de terra

e ainda tem gente
que já tá cheio de Paris
do riozinho
e do Centre Pompidou

sonhos
a gente tem tantos
mas eu troco Paris por igualdade

troco um príncipe europeu
por um mundo sem racismo
sem homofobia

troco todas as igrejas 
por igualdade de gênero

troco a tumba do Napoleão
pelo fim dessa padronização da beleza
e culto a juventude

troco todo o Paris Saint-Germain
por educação pública de qualidade

troco todas as lindas construções
por respeito ao meio ambiente

eu troco o museu das armas
e tudo o que eu puder
pela paz

poesia

Lunática

20:53

tá um dia lindo lá fora
até as cortinas estão saindo pelas janelas
para brincar com o vento
e eu aqui fazendo serviço de banco

meus sonhos ultrapassam a minha conta
minhas histórias vão além dos 32 quilos em cada mala
minha beleza não cabe no tamanho 44
meus pensamentos saem da cabeça

como as cortinas
que, em um dia lindo como esse
não conseguem parar
como será que elas se sentem nos dias sem vento?

era um bar

Era outro bar de rock

20:35

Mesmo de batom vermelho, pediram a sua identidade porque ela tem cara de novinha. Sem certezas, sem planos e sem carteira. Ofereci carona e já deixei avisado que no meu carro só toca rock 'n' roll.


Ontem a noite, eu conheci uma guria que eu já conhecia de outros carnavais, com outras fantasias.

Foi a mesma coisa no carnaval, no meu aniversário, no último mês que eu envelheci dez anos ou mais, e ontem. Bebeu pra ficar tonta e não me agarrou. Algumas vezes os esquemas não acontecem. Sei lá por que motivo. Não rolou química, física, ou a geografia não estava a nosso favor. O que você não pode, eu não vou te pedir. E o que você não quer, eu não quero insistir.
Eu, que não bebo, pedi um conhaque pra enfrentar o inverno, que entra pela porta que eu abri quando você pediu licença, mas não entrou.

Eu fico pensando em cada sinal. Fico assimilando cada piscada. Cada palavra. Cada sorriso que eu fiquei admirando na cara dura. Cada projeto de sorriso, inclusive. Cada pelo e cada pinta, porque tudo isso importa pra mim. Todo momento com ela é precioso, e eu não quero perder nada.

Com ela, não quero fechar os olhos. Não quero dormir. Senti, sinto, sentiria e sentirei falta dela.
Enquanto voltava pra casa, liguei o rádio e deixei, apenas por uma vez, o rei do pop cantar.

Everytime I love you
It's in and out my life
Driving me crazy
Because baby
Love never felt so ruim.

Featuring:
Aerosmith - I don't wanna miss a thing
Engenheiros do Hawaii - Piano Bar e Eu que não amo você
E, claro, Michael Jackson - Love never felt so good

Etc e tal.

02:10

Sobre a saudade que eu vou sentir da minha mãe. Sobre a saudade que eu vou sentir do meu pai. Sobre ficar um ano sem brigar com a Naná, o que também significa um ano sem abraçar. Sobre eurotrip com a vovó. Sobre meu siricutico de fim de semestre.
Apresentar trabalho, levar café. Sobre última aula. Quanto tempo demora um ano pra passar? Sobre sempre poder voltar pra casa. Sobre concursos, planos de aula, encaminhamentos da vida, formatura e virar adulta.
Sobre pessoas certas, pessoas erradas e poliedros amorosos potencialmente geradores de conflitos. Sobre entregar todas as chaves de todas as portas e ficar só com o chaveiro, que é presente. Sobre presentes que a vida dá e presentes que a vida ganha. Sobre presentes que me dão presentes.
Sobre medo e ansiedade. Sonos perdidos. Dormi na praça pensando nela. Sobre versões de uma mesma música. Seu guarda, seja meu amigo. Me bata e me prenda, faça tudo comigo, mas não me deixe sem a Mirela. Essa versão é do meu pai.
Sobre casais casados. Sogras, noras, genros, cunhados, cachorros e passarinhos. Sobre fugas e procuras. Sobre viagens longas e músicas repetidas. Sobre minha mãe gostar mais da Malta e eu gostar mais dos Jamz. Natural.
Sobre mudanças. Sobre a faxina que eu prometo fazer. Sobre meus cadernos que não estão em dia, mas que eu quero passar a limpo. Sobre livros que eu quero ler, coisas que eu quero aprender, coisas que eu quero escrever.
Sobre Helena, Carolina, Leninha, Manoel Carlos, fotografia e cinema.
Sobre as minhas versões que você conhece.
Sobre aquelas que você não conhece.
Sobre aquelas que ainda nem existem, principalmente.
Nada mal.

Perdida no labirinto

00:26

Meus dedos estão coçando para escrever algo sobre o CFM. O Centro de Ciências Físicas e Matemáticas é onde eu tenho minhas aulas, do curso de matemática. Este também é o centro dos cursos de química, física e meteorologia.
Carinhosamente apelidado de labirinto do Minotauro - o que já diz muita coisa - o CFM, na minha opinião, pode ser descrito em uma palavra: horrível.
Eu tentei me convencer de que ele tinha personalidade, que o importante era o que acontecia ali e não o estado deplorável da estrutura. Tentei me convencer de que era frescura minha, afinal, o que é uma chuvinha dentro da sala de aula, né? Confesso, foi burrice minha, e foi em vão.
Vamos começar pelo que eu já mencionei, a chuva na sala. Tente dar uma volta no CFM em um dia de chuva para ver se é frescura minha. Uma das salas de aula apresenta uma goteira no buraco da lâmpada, e isso já virou clichê no corredores.
Esse semestre eu fiz estágio em uma escola estadual. Num dos dias, choveu e eu percebi que um canto da sala ficou todo molhado devido a uma goteira. Pensei que era coisa de escola do estado antes de ver a mesma situação no centro onde estudo, em uma universidade "de excelência".
Vossa excelência, o departamento de matemática, tem uma linda bandeira do Brasil na frente do prédio. Mas como que o Brasil vai saber de matemática com um centro desses? Como está a formação dos futuros professores de matemática em um centro que mais parece uma prisão?!
A gente não pode parar, como o cinema e a odonto, pois dizem que para aprender matemática, não precisamos de laboratórios, apenas de um lápis e um papel.
Xerox? Lanchonete? Parem de reclamar e usem a estrutura dos outros centros.
Banheiros? Pra que, né? No começo do ano, todos voltaram de férias e acharam que o CFM estava lindo. Por que? Porque pintaram as portas e as paredes! Ainda tem descarga que não funciona e porta que não tranca, mas as portas estão pintadas, olha que lindo gente. Isso sem comentar do tempo em que todos - eu quero dizer todos - os banheiro femininos estavam fechados "para melhor nos atender". Foram dias maravilhosos em que o banheiro mais próximo do CFM era no EFI.
Sobre o prédio do EFI, eu não consigo decidir o que eu mais gosto nele, se é subir cinco andares de escada porque os elevadores só devem ser usados em caso de emergência, se são os quadros mal-cuidados ou se é o luxo dos banheiros.
Estou batendo tanto nessa tecla pois, eu não sei se vocês sabem, mas os encanamentos do CFM foram estourados na demolição de uma parte do prédio. Literalmente, estamos na merda, meu povo.
No centro da física, permanece a inércia. Não sei o que posso fazer além de expressar a minha indignação em forma de texto corrido e reclamações no corredor da direção.
Pois o CFM é mais do que um lugar para eu ter minhas aulas de cálculo e comer meus lanches. Estamos falando de um dos centros que mais produz pesquisa na universidade. Estou falando de um lugar onde deveria ser estimulado o amor pela ciência. Mas sinto que estou em um ambiente onde nada me estimula.
Licenciatura pra quem? Matemática pra quem? Ciência pra quem?
Excelência?! Pra quem?

O meu aniversário tá muito legal.

23:40

Certa estava a Rita, quando disse:
- Não vai hoje, Carol.

Fui te ver aquele dia. Me perdi. Devia ter ficado para assistir Frozen, A Pequena Sereia e A Bela e a Fera, onde ainda existe amor verdadeiro.
Ou pelo menos a ilusão.

Certa estava a Rita, quando me disse para pular bem alto na cama elástica.
- Mas eu já estou pulando bem alto, Rita!
Nem estava tão alto assim. Tinha medo de pular nos cantos (e desencantos).

Certa estava a  Rita, que pulava.
Rita, estou com medo de crescer.

Adultos tem que sair da ressaca e da gripe sozinhos.
Adultos não podem andar cantando.
Adultos tem que preparar aula, jogar xadrez e lidar com sentimentos.

Acho que são todos uns medrosos.
Eles tem que se comportar, não devem brigar.
Adultos tem que ficar na linha.
E tem que ligar para as opiniões de todo mundo - inclusive dos cancerianos - eca!

Eu fui ver você naquele dia do aniversário da Rita.
Perdi altas diversão.
Ganhei tormento.

Meu coração bateu mais forte, meus dedos sentiram o nervosismo.
Estou até doente!

- Carol, não vai hoje. Fica aqui.
Rita, em seu último suspiro com quatro anos de idade.
Eu, querendo que o mundo acabe em camas elásticas.
Para pular mais alto.

poesia

O rei afogado.

23:36

Inundei a sala com lágrimas,
e meu rei afogado é você.

Tecnicamente,
é um empate.
Ainda assim,
eu sinto que perdi.

Fiquei procurando um complemento para esse texto antes de gostar dele assim mesmo.

O casamento da minha melhor amiga.

00:30

Minha melhor amiga vai casar. Minha irmã vai se formar. Eu, sinceramente, espero não estar aqui para nenhum destes eventos. Eu seria madrinha do casamento. Fui designada para esta função porque minha melhor amiga conheceu o meu primo aqui em casa. Uma sonhadora e um galinha. Era isso mesmo, falo sem vergonha nenhuma. Apaixonaram-se em algum momento da história e deu certo. No começo eu era contra, achava que era cedo pra ela namorar, que podia dar errado se amarrar no primeiro amor e blá blá blá. Mas só de vê-la feliz com ele, percebo que vale a pena.
Falando em primeiro amor, minha irmã vai se formar no terceirão. Como é de conhecimento geral, eu escrevo muito sobre amor. E tudo começou no primeiro, que foi agarrado numa formatura bem parecida com a que a minha irmã vai ter. Mas o sonho não era esse.
Agora a passagem está comprada e o destino é, de fato, um sonho de adolescente. Uma cidade, uma luz, uma torre, um arco e uma nossa senhora. Um rio, uma ponte cheia de cadeados. Um muro onde está escrito 'eu te amo' em várias línguas. Já vi tudo isso com imaginação e google earth.
Já me vejo chegando lá também. Eu vejo um mundo pequeno cheio de cidades grandes. Eu vejo um aeroporto enorme, agitado, e uma menina pequena e calma que não sabe nada. Minha melhor amiga tá de casamento marcado e eu ainda nem sei se gosto mais de homens ou de mulheres. Não sei se acredito no amor. Não sei se já me apaixonei, mas eu acho que sim.
Não sei o que vou fazer com a saudade, mas espero que tudo vire texto.

O dia em que a Rita descobriu que o nome da Carol é Helena

00:56

Se você olhar bem,

vai ver que eu tenho um traço no nariz.
Vou mentir que fiz plástica, 
mas, como você vai descobrir, 
eu não minto muito bem. 

Se você me adicionar no facebook, 
pode logo ficar sabendo que eu gosto de escrever. 
Vai descobrir que minha família me chama de Carol. 
E eu vou falar da Rita.

Se você pegar na minha mão, 
vai sentir uma verruga. 
Se olhar a minha perna, 
vai ver uma cicatriz. 

Se chegar a tirar a minha blusa, 
vai descobrir que eu tenho umas manchinhas na barriga e nas costas. 
Vai poder ver como a minha coluna é torta. 
Mas nada que me faça querer apagar a luz.

Se a gente conversar bastante, 
você vai descobrir que eu sou indecisa. 
Não tenho medo de mudar de opinião, 
mas não gosto de gente estilo ~tanto faz~.  

Não tenho potencial para conflitos 
e gosto de fofoca.

Se a conversa ficar sentimental, 
você vai perceber que eu não guardo rancor dos exs, 
mas desejo a todos eles vida longa. 

Vai descobrir que sou funkeira, pagodeira e sertaneja. 
Isso sem falar que sou comuna 
e feminista 
com todas as letras.

Você pode descobrir que eu sou medrosa. 
Gosto de atenção. 
Desejo ser algo novo. 
Algo que te cative. 

O complemento ortogonal de tudo o que já existe no mundo.

Se perguntar,
vai descobrir que estou sempre apaixonada. 
E nem sei negar.

Se você olhar bem, 
vai ver que eu tenho um traço no nariz. 
Se olhar ainda mais, 
vai ver que adoro o meu nariz com traço.

Sobre Leninha

01:13

Helena, manda um beijo pro Maneco. Nosso querido Manoel Carlos fez mais uma novela em que a protagonista se chama Helena. O Maneco gosta do nome e da história da Helena de Tróia, e eu não tenho nada a ver com isso. Mas, porra, Maneco, por que fazer com que os outros personagens a chamem de 'Leninha' ou 'Lelê'? Nada contra os apelidos, mas como você gosta do nome e é o autor da novela, aproveita e deixa esse roteiro cheio de 'Helena'. Agora sim com opinião, o nome é bonito, é sonoro e é forte.
Porque né, eu sei bem, quando falam em Helena, logo lembram de Tróia. O rosto que lançou ao mar mil navios, a mulher mais bonita do mundo e aquela coisa toda. Preciso confessar, essa história ajuda muito a levantar a autoestima de qualquer Helena, mas existem várias versões para ela. Deuses, oráculos e promessas fazem parte delas. Podem dizer que Helena não teve culpa, que foi um destino transcendente que ela teve que cumprir, ou podem dizer que ela escolheu, que era uma puta ou que se apaixonou. Ou as duas coisas, quem sabe? Raptada ou levada. Eu gosto de todas as versões.
Já me disseram que eu me acho por me chamar Helena. E eu acho que me acho mesmo. Me acho porque me perco. No caminho entre Floripa e Jaraguá, irmã e amiga, libra e escorpião, louca e louquíssima, eu me perco. Me achei um pouco quando cortei o cabelo. Me achei linda e, depois de anos, com cacife para assumir o cabelo cacheado. Me acho também pelo cabelo, que de vez em quando ganha um elogio. Me acho com meus olhos e com meus sorrisos, que escancaram o meu ascendente em escorpião. O signo do amor e o ascendente no signo do sexo. É pra pirar mesmo. Uma vez eu li que librianos têm essa terrível mania de tentar conquistar todo mundo e depois não saber o que fazer com as vítimas. Talvez isso seja coisa de libra, mas também pode ser coisa de Helena. Eu me acho com o blog, sim, que tem 10 mil visualizações. Não é muito, mas já é legal.
Achei mais um pedaço de Helena hoje, quando esse texto estava nascendo na minha cabeça. Pensando sobre meu próximo corte de cabelo e sobre esse negócio de se assumir. Faltava eu assumir alguma coisa para mim mesma, e acho que descobri o que é. Eu, Helena, assumo que só procuro um grande amor. Grande e intenso, mas livre de guerras. Mas livre, sobretudo.

poesia

Estágio I da depressão

23:19

como que querem que eu aprenda
se a sala não tem porta?
eu não tenho livro
carteira
cadeira
eu não tenho educação

querem que eu aprenda
a tirar raiz quadrada da fração
tudo bem
tudo o que eu tenho é fração
uma fração menor do que um
fração do que é necessário
fração da porta

mas me jogam os conteúdos
como se fossem pedras
hipotenusa cateto cateto
delta menor do que zero
número é coisa complexa

querem me ensinar
um tal de logaritmo
que nunca vi mais gordo
tenho que aprender
pro vestibular

eles ficam me testando
botando medo
pra ver se eu sei mesmo
eu não sei
aprendi pra prova
e nem lembro mais
da fórmula a área

na dúvida
e na esperança
fui fazer licenciatura
olha mãe
palavras pomposas
descontextualização
e paradigma

não passei fome pra estudar
tinha mochila bonita
caneta colorida
mas já me disseram
que o poeta não mente
a dor de um poeta
é a dor de tanta gente

tem um buraco
do tamanho do buraco da porta
que nem os cálculos
nem as ciências sem fronteiras
e tampouco as metodologias
vão preencher

despertador toca
pego o ônibus
hipotenusa cateto cateto
poema exato
boa aula

Suspeitos demais

00:15

Comprar a poltrona 35 do ônibus para viajar amanhã. Sentar ao lado do meu amigo. Pegar o UFSC semi-direto ou o volta ao mundo Carvoeira norte. Ou sul. Eu sempre confundo. Passei em geometria, mas não sei me localizar. Quero ir para a França, mas para lhe ser franco, eu nem sei onde fica Miami. Fica para lá de Arariúna, não é mesmo? Pelo menos, foi isso que perguntaram para o Alessanderson, em Pé na Cova, que eu só estava assistindo porque estava pintando a unha. De azul, que está na moda, segundo minhas amigas.
E por falar em Arariúna: Ai que saudade que eu tenho lá do Pará, das coisas boas que só tem por lá.
Como que deu tão certo eu passar por você bem no exato momento em que você não estava olhando. Foi proposital? Pode falar, mas não sei ainda qual seria minha reação. Por falar em reação, e a química, rolou? Acho que uma hora e meia já está bom para o banho-maria, não está? O miojo fica pronto em cinco minutos, veja bem. Mas quando não rola, acho que não rola mesmo.
Mamãe já está fazendo 44, eu vou fazer 20 e a Naná tem 17. É isso, né? Dezessete, Naná! E eu, que usei aparelho por 10 anos, só pra poder sorrir. Já posso sorrir, mesmo?
Cheguei a te contar que a música 22 da Taylor Swift é muito mais legal do que a da Lily Allen? Lily é diva, ok, mas nessa música ela reclama demais. Sério, Lily, coloca um módulo aí na sua vida pra ficar sempre positiva.
Quem foi? É bem o teu tipinho, mesmo. Mas deixa, fica aqui no módulo comigo. Deixa rolar até chegarmos a suspeitar desse destino. Desse destino capeta que o oráculo mandou. Mandou uma pinta no pescoço, uma situação-problema e uma nova piada do Pinho. Mandou um cheiro bom e um sonho estranho. Será que Deus decidiu tudo isso no sexto dia?
Antes ou depois de decidir a probabilidade de uma caixa de fósforos cair em pé?

Sobre amores pré-moldados

22:45

Preciso confessar, sou uma pessimista quanto ao amor. Eu vejo o copo meio vazio. Quando o começo começa, eu já penso no começo do fim. Não botei muita fé em nenhum dos meus romances até hoje. Foram todos pré-datados, tirando o meu caso homossexual com a menina que me encontra todo dia no espelho. Mas não se preocupe, mãe, ela é fantástica, vocês vão se dar super bem. Contudo, meus copos de romances que abrangem mais de uma pessoa ainda estão meio vazios. Duas pessoas, dois corpos, dois umbigos, dois pescoços e quatro olhos. Deparei-me com aquele programa com a Adélia Prado por acaso, mas o meu marido não queria muito assistir comigo. Ela disse que todo poeta é um escritor do cotidiano. Afinal, o que temos além dos nossos sofrimentos e amores diários? Os artistas tratam da perplexidade que é existir. Existir é muito esquisito! Existir a dois, a três, a mundo, é ainda mais. Eu mesma já tenho dificuldade para juntar os meus próprios pedaços depois das explosões, dos tiroteios, das bombas de efeito moral. Já vi um ponto de teletransporte, mas nunca pisei nele. Imagina se eu me desintegro e não volto ao normal? Passou tanto tempo, tantas coisas, tantas pessoas, que eu acho que não volto mesmo ao original. Quem sabe um dia o meu copo já foi meio cheio, mas depois das nossas chacoalhadas, dos meus siricuticos e do último carnaval, ele respingou. Deus sabe onde foi, e sabe se isso é bom. O copo do pessimismo, esse sim eu vejo meio cheio. Há um lado bom, que eu não sei explicar, só sei que mesmo o nosso tragicômico fim não deu conta de estragar aquela música, que dizíamos ser a nossa. Tenho um amor platônico. Um amor idealizado e fora do alcance. Eu quero livre. Quero licença livre, amor livre. De rótulos, de preconceitos e de fins. Quero Adélia Prado. Quero pessoas no lugar dos dementadores, que levam uma a uma as minhas lembranças boas. Quero teatro, mas quero de verdade. Quero um copo cheio pra respingar. Ou foda-se o copo. Adélia Prado disse também que é quase um pecado deixar um texto na sua forma crua, do jeito que vem ao mundo. Mas aqui vai o meu sorriso de mãe na primeira foto com o bebê, logo depois do parto.

professora

24/03

00:59

No carro estava tocando Minority, do Green Day, quando este texto nasceu na minha cabeça. Contei para eles que faço licenciatura. Ah, mas você quer ser professora de escola? Que massa. Eles disseram. Conversamos sobre a situação da educação no estado. Está triste. Mas eu posso sempre dar aula em cursinho, que eu ganho mais. Eles disseram. Riram quando falei que não me preocupo em ganhar muito dinheiro. Falaram que eu vou ver mesmo quando a água bater na bunda. Nesse momento pensei, porra, eu só quero fazer alguma coisa pela educação e vocês ainda ficam rindo de mim? Porra, não deveriam sequer tentar me desencorajar. Lembrei do super heroi Kick-ass, de uma frase em particular. Três assholes batendo num cara enquanto todos estão olhando, e vocês querem saber o que está errado comigo? Acho que quero mesmo é ser da minoria.
Depois tocou Boulevard of broken dreams e cantei junto I walk alone, I walk alone, mesmo sabendo que nem caminho tão sozinha assim. Lembrei do meu pai um dia me dizendo que achava que tinha a doença de ser feliz com pouco. E eu acho que a doença é genética. Lembrei também da minha mãe, da história do menino que foi pra sala da direção com grafite na orelha, também da menina que machucou o dedo com o apontador de lápis. Exatamente como você está pensando.
Quando digo que quero ser professora, me chamam de louca, de corajosa. Piso em uma escola pública e fico ainda mais animada, mas ninguém entende. Nesse momento eu já escutava you shoot me down, but I won't fall. É. Oh yeah. Ingenuidade, burrice ou loucura. Chame como quiser. Apesar de não ser titanium e assumindo que posso desanimar ou desistir, atualmente eu estou mais para don't you dare kill my vibe. Pensei se realmente não há algo de errado comigo. Pensei em relacionar isso com o meu você-lírico. Tem algo de errado comigo? Sorri sozinha lembrando da foto da Nati caindo. Cheguei em casa e ainda comi cachorro quente. Deixei para escrever depois e aparentemente esqueci o final legal para o meu texto lá em Jaraguá. Desculpem-me.

poesia

Jardim de saudades.

01:19

Se saudade fosse contável,
eu teria incontáveis saudades de você.
Dar-te-ia todas as minhas saudades em forma de flor.
Ou melhor, em forma de buquê.
Ou melhor, em forma de jardim.
Ou melhor, eu forma de eu e você.
Porque jardim de saudades é lindo,
mas não para um longa estadia.
Jardim de saudades é lindo,
mas só serve mesmo pra fazer poesia.

Amantes. Cinzas.

00:29

Agora que nós somos dois amantes cinzas
Agora que o carnaval passou
Agora que nós somos duas partículas
Colombina e Pierrot
Samba sou.

Foi um convite inesperado. Quem sabe um beijo inesperado. Mas o coração dela não bateu e a Terra não se moveu além do esperado. Não sei o que houve, nem entendi o que aconteceu depois. Tive que ouvir dos amigos que, quem sabe ela não recebeu a mensagem, quem sabe ela tá sem créditos, quem sabe ela tá tomando banho, há uma semana. Quem sabe ela tá na rua ouvindo o lepo lepo loucamente, não escutou o celular tocar. Quem sabe ela não está mais tão louca por mim. Ah, mas ela já foi, não estou sendo esnobe, eu juro. Ela é um tipo peculiar de pessoa. Peculiar no melhor sentido. Na minha teoria, ela nasce quando o universo quer fazer poesia. Fica até difícil não gostar dela. Mas acho que eu estraguei a porra toda - com o perdão da palavra - pois agora, agora ela tá tão solta, tão livre. Eu que devia ter entendido antes. Uma poesia assim, como ela, não pode ser guardada pra si. Eu não conseguiria, e nem seria certo. Mas eu desejei, mesmo que por um tiquinho de tempo, ela pra mim. Só um versinho, que fosse. Mas chegou o carnaval, ela não desfilou e eu aceitei. Aceitei que ela foi feita pra ser poesia. E eu, para gostar de poesia.

Não aprendi citações nas normas da abnt. O trecho de cima é do Carlinhos Brown.

poesia

poema cadê?

13:11

acho que isso é peso demais
pra uma pessoa de braço fino
como o meu

sou todos esses pedaços que tenho que juntar
carregar
e alimentar
cabeça
pulmões
coração
braços
clitóris
e pernas
que poderiam estar entrelaçando um corpo
o seu
numa ardência
desejo
e felicidade

pernas
que poderiam estar andando
até a Venezuela
ou nadando
até Cuba
junto com braços
pulmões
coração
olhos
e clitóris

a cabeça já tá lá
hablando español, mi cariño
mas não tá fechada não
tá vendo tudo
com os próprios olhos
e óculos
e cabeça
e braços
e mãos
e pulmões
e coração
e pernas
e clitóris

cabeça é uma coisa onipresente
tá também na França, peut être
en parlant le français
com língua
cabeça
braços
e pernas
aquela coisa toda
e roupas

roupas sem marca
surradas
em frente
cansadas
como eu
que estou surrada
cansada
em frente
porque sou mulher
amiga
professora
mãe
irmã
companheira
trabalhadora
negra
índia
pobre
amante
sorridente
e ainda tento ser poeta

parecia um fardo muito pesado
para alguém de braços finos
pouca altura
e muita perna
braço
pulmão
coração
clitóris
e cabeça
mas agora que tudo escreveu
o peso do fardo
cadê?

feminismo

Carol,

21:03

A gente não pode mais andar na rua aqui no bairo, Carol. Os homens mexem muito com a gente.

O jeito é ficar em casa mesmo.
A gente não pode, Carol. Os homens podem.
Não dá pra sair de vestido, Carol. Os homens mexem muito com a gente.
Culpa do vestido. A saia era muito curta. A blusa era muito justa. O batom era muito vermelho.
A gente não pode se arrumar, Carol. Os homens mexem muito com a gente.
Olham como se fossem predadores. Nós somos as presas, Carol. Temos que nos preservar.
E como se o olhar que me dá nojo não bastasse, eles vão além.
Que delícia, hein. Gostosa. Ô lá em casa.
A gente não pode mais andar na rua, Carol.
Os homens mexem muito com a gente.
A gente não pode, Carol.

poesia

Poema não chorei

01:48

Eu vou me enforcar
num pé de cebola
e você nem vai notar.

Já me falaram que você me admira
eu imagino que você me ame
me ame!

Eu só peço
imploro
seja boa
não me ofusque assim

Não seja assim tão
tão
tão
amável
com todo mundo

E não comigo!
Por que não comigo?
O que fiz?

Eu sempre te cuidei
desde que nascemos
ou antes

Por amor
medo
pena
raiva
esperança
da cor dos seus olhos

Perto de você
parece que eu não sou
nada
ninguém
sem alegria
sem razão
sem aniversário

Porque todo mundo te ama
sua amável
mais que eu
eu, gato
eu, criança
eu, prazer

Longe de você
eu esqueço
eu não vejo
eu finjo
te amo

Aqui, longe
tantos me amam
não todos
mas nem ligo
alguns
suficiente

E eu fico tão feliz
de ser amada
de ser linda
de ser querida
de ser feliz

Ninguém aqui sabe
dos nossos segredos
das suas mentiras
do tamanho maior do mundo
e da minha compostura
do meu controle

Ninguém sabe que chorei no carnaval passado
por sua causa
melhor nem saberem
vou negar

Só você me faz chorar
você é única
a única razão, motivo,
porquê
por que?

Porque o meu coração tá lacrado
acumulou tanto limo
tanto bolor
em volta
por sua causa
que ele conhece amor
mas amor não o conhece

Pois qualquer amor
que ele conhece
conhece você
cedo ou tarde
eu não posso esconder
fugir

Você me persegue
tá no meu espelho
nos meus genes
no meu café com bolacha

E você estraga
eu me estrago
por você
choro
esperneio
sou criança
e acaba
fim

Posso tentar resistir
ser forte
mas não dá
tentei amiga,
igreja,
psicóloga
nada resolve

Tentei me aproximar
e você me repeliu
somos tão parecidas assim?
não acho

Te acho chata
não te suporto
de tão querida
de tão sabida
de tão tão
que nunca te achei

Procurei
em você
em mim
na casa
não encontrei

Encolhi distância
pé de guerra
sem fingir
sem te olhar
nem perceber
como somos iguais
e diferentes

Fica bem
seja boa
pare de mentir
cuida de mim
me ame
faz todo mundo gostar de mim
faz tudo ruim passar

Ou passa
passa longe
passa daqui, igual cachorro

Vire outra pessoa
se vire!
vire-se do avesso
se joga na máquina
pra ver se sai limpa

E se estiver limpa, pode voltar
joga meu orgulho fora
por favor
joga meu orgulho fora!
ele não cabe mais aqui
amor ocupará
tomara

09/02

00:03

Case-se com um homem que te ame mais do que você o ama. Uma noiva deu este conselho, talvez com outras palavras, para Carrie Bradshaw. Talvez com outras palavras, mais especificamente sem o verbo casar, eu mesma já escutei conselhos assim. Quem ama mais, sofre mais. Ou até o absurdo "Manda mais quem ama menos."

Não consigo entender. Estão mesmo me dizendo para amar menos?
Conter o amor? Mas o melhor é o amor que não cabe em si! Amor intransitivo, platônico, exagerado, livre, dramático. Amor.
Mil desculpas, mas este conselho a minha essência ignora. O meu todo ignora, e assim também todas as minhas partes. A artista, a revolucionária e a interseção.
Se é assim, me dêem licença. Pois eu sou Vinicius, eu sempre serei e eu sei que vou te amar. Por toda a minha vida.

Vem me ver.

00:31

Vem me ver, tá? Mas não hoje, estou meio gripada. Amanhã também não, te juro que tenho que estudar. Segunda é a minha prova, não vai rolar. Peguei trauma de terça, foi o dia que você me deu um bolo. Quarta seria um bom dia, se eu não tivesse aula o dia todo. Quinta eu já quero viajar, pra voltar só na outra segunda. Mas daí vou estar cansada, melhor deixar pra terça. Se bem que terça eu saio mais cedo, prefiro ir direto pra casa ver a novela, não é nada pessoal. Já conversamos sobre quarta. E quinta, de novo, puts, quinta tem The voice. Sexta pode ser, se o meu amigo não quiser vir aqui em casa de tarde. Fim de semana você tá cheio de planos, né?
Vem me ver. Quem sabe na outra segunda, se der...

Texto velho que achei nos rascunhos. Sem alterações.

feminismo

Não quero mais que você pegue a moto

14:03

Não quero mais que você pegue a moto. Aliás, não quero mais você saindo tanto de casa. Que bom que parou de trabalhar fora, assim cuida melhor do nosso lar. Pode deixar que eu te sustento. Só peço - lê-se ordeno - que o jantar esteja pronto quando eu chegar e que você não pegue mais a moto. Frango, de novo? O que você tá pensando? Tá perdendo tempo com leitura, é? Já dizia o Gaston, na idade média, que mulheres não devem ler livros, porque começam a ter ideias, a pensar. Não quero mais que você leia tanto. Não quero mais que você pense tanto. Melhor continuar assim, estúpida, bicho burro. Onde estão os nossos filhos? O mais crescido, que você teve com 19 anos, logo que a gente se casou, é machão igual ao pai. Reprodução, é pra isso que servem vocês, mulheres. Prazer? Que absurdo! Sei bem, você apaga a luz porque tem vergonha de si mesma, buscando um prazer que nunca vai atingir enquanto não se libertar dessa repressão sexual em que te amarram, que tens que engolir como se fosse intrínseca da sociedade. Eu sei disso, mas não quero você descobrindo. Melhor apagar a luz de novo, para que você não veja esse corpo de mulher na cama. Tão cheio de pecado, quase demoníaco e,
espera,
lindo.

Como chegamos nisso?

Quase sem querer

17:51

Perguntavam-me por que eu gostava de você e eu dizia que não sabia. Falavam que o outro era mais bonito, mais legal, que a gente combinava mais.

Queria sempre achar explicação pro que eu sentia.

Perguntavam-me o que eu via em você e eu dizia que não sabia. Você, com esses olhos de peixe morto, nas palavras de um amigo meu. Ele ficava impressionado que eu gostava de você, mas eu não.

Já não me preocupo se eu não sei por que. Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.

Perguntavam-me como eu gostava de você. Eu te defendia, viu? Caçava suas qualidades, falava que você não tinha culpa de nada. Quem sabe não tinha mesmo, mas, sem dúvida, foi penoso assistir, de camarote, o meu pobre cérebro se deteriorando enquanto inventava realidades alternativas, em universos paralelos, onde você me retribuía esse gostar sem explicação.

Não sou mais tão criança a ponto de saber tudo.

O fim do espetáculo foi a deixa para isso acabar. E foi quase sem querer.
Perguntam-me hoje por que eu gostava de você e eu digo que não sei. Honestamente, não sei.

Ainda estou confuso, só que agora é diferente.

Optei por não fazer alterações no que eu escrevi com lápis e papel durante a vivência do EIV.

Imagina que louco

01:58

Imagina que louco uma casa sem portão. Várias casas sem portão. Uma terra onde as pessoas que chegam são recebidas com uma cuia de chimarrão e uma boa prosa. Pense no absurdo, as pessoas confiam umas nas outras e todas se cumprimentam na rua. Imagina que doidera, uma terra construída no vermelho, mas tudo que se vê é verde. Cinquenta tons de verde. Quinhentos. Cinco mil. Nada de cinza. Verde até no por do Sol, junto com rosa, laranja e amarelo.
Imagina que lindo, um ponto de ônibus cheio de margaridas. Mas, pensa que contradição, o ônibus só passa três vezes por semana.
O lindo progresso não chegou pra esse povo ainda. Deve estar vindo com o caminhão de lixo, que também não passa aqui, pra esse povo que se cumprimenta. Para esse povo, o céu de lona preta foi o mais estrelado por muito tempo.
É um povo bom. Preconceituoso, muitas vezes. Contraditório, muitas vezes. Mas é um povo bom. Que tem uma história muito mais sofrida, calejada e de luta do que muita gente. E tem gente que se acha melhor que esse povo.
Porque tem terra, porque tem carro, porque tem luxo. Imagina que absurdo.
E no louco do louco, a história da menina autista e do advogado coadjuvantes se torna muito mais interessante do que a história dos protagonistas.
Protagonistas de história têm terra, têm carro, têm luxo.
Eu gosto muito mais dos sem terra, sem carro, sem luxo.
Nesse céu de lona preta,
eles são as estrelas.
Pense no absurdo.

Jack White

Meu próximo marido vai gostar de Jack White

00:31

- Alô. Queria pedir uma água.

Oi, moço da água, como você tá bonito hoje. Tem troco para um beijo? Na verdade, não quero te beijar, mas achei a frase boa. Não atendi o interfone porque não gosto de me comunicar através dele. Esse é um dos meus segredos, os outros você pode descobrir enquanto esvaziamos uma garrafa de vinho. Mas antes disso, água. Ainda bem que você trouxe 20 litros, moço, eu estava morrendo de sede. Leva esse galão velho e vazio embora e me dá um novo, mas não precisa ter pressa. Pega aqui esse copo, deixa eu te contar uma coisa. Ontem fui para Paris. Aconselhada pelo meu agente de viagens preferido, o Google Earth, parei na ponte dos cadeados. Tirei da bolsa aquele bem lindo que comprei, tranquei-o e joguei sua chave no Sena. Tudo isso para selar meu amor próprio. O vinho do copo acabou? Pega aqui mais um pouco, tenho mais uma confissão a fazer. Estou sempre apaixonada. Quem sabe por essa paixão latente que eu coloquei o cadeado na ponte. Mantenho, inclusive, uma paixão curinga. E uma paixão curinga para o curinga. E se você quiser me ganhar, tem que ser limpo, colocando todos os curingas do jogo no seu devido lugar. Ah, e claro, aceitando a minha paixão não tão secreta por esmaltes e sutiãs. Gostava de fazer teatro. Sempre mostrava a calcinha nas fotos de criança. Em uma foto, alguém colou um adesivo com os dizeres 'Meu próximo marido vai ser normal', como se eu estivesse falando isso para a minha irmã. Mas bom, impossível descobrir muita coisa agora sobre o seu futuro cunhado. Não dá nem pra dizer que ele existe. Mas em caso afirmativo, grandes chances dele gostar de Jack White, é bem o meu tipinho. No filme 'A Dona da História', meus dois egos são amigos e Carolina diz para Maria Helena que não quer ser uma atriz, quer ser um personagem. Uma vilã, por favor. Quanto mais bitch, melhor. Talvez, posso ser a responsável pelo fim de um namoro que tinha até cadeado na já mencionada ponte, ou então uma assassina de conceitos da psicanálise. Personagem de um poema, de um filme, de uma música, já pensou? Moço da água, não estou muito na vibe de ~quando estou amando, eu sou mulher de um homem só~ até porque estou sempre amando e nunca sou de ninguém, mas não esquece de assinar o meu cartão fidelidade, viu, seu lindo.

- Pra abrir o segundo portão, é só apertar a campainha do lado. Obrigada.

Sobre o título, só coloquei porque achei que ficaria engraçado.

feminismo

Pequeno despertar.

00:40

Igor, 6 anos. Mãe do Igor, mulher que trabalhou no último dia do ano para chegar em casa e encontrar o marido virado na cachaça. Dona Zeli diz que isso nunca aconteceu. Dona Zeli ficou até espantada. O marido fala que tem 'medo' da mulher. Que medo? Eu é que tenho medo pela mulher.
Porque a mulher é minha vó.
A mulher é minha mãe.
Eu sou a mulher.
Olha esse menino, rodeado de mulher - o pai dizia. Rodeado de mães.
Igor tem mãe aqui, na praia e no sertão.
E aquele cara que não consegue conduzir direito a bicicleta devido a embriaguez, esse que assustou o nosso filho, fez o menino chorar, em pânico, ele é o meu marido. A gente se casou.
Muito prazer, Zeli.
Maria. Joana. Cleusa. Iara. Luzia. Socorro.
Vocês querem um copo de água?
Eu não quero água, eu quero amor.
Quero o amor próprio que fez uma mulher se separar do marido nos anos 70. Uma mulher que eu conheço. E outras tantas que nem sei. A mulher vendendo caldo de cana nesse dia 31, perdi a chance de entregar a flor para ela. A mulher que trabalha limpando o prédio. A mulher que serve comida.
Mulheres. Tantas. Todas.
Eu digo e elas não acreditam. Elas são bonitas demais.
Eu digo e elas não acreditam. Elas são livres demais.