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21:46

[...]

 No dia 5, ela só escreveu. Escreveu até não poder mais. Chegou em casa e, como se fosse trabalho a ser feito, escreveu. Também como se fosse a novela que ela tanto queria ver – ou livro que ela muito queria ler – escreveu. Como se fosse passatempo, esporte. Como se fosse seu vício, ofício ou sacrifício. Escreveu como se não houvesse amanhã. Como se estivesse apaixonada, depois como se não estivesse. Escreveu até cair o braço. Caíram com ele as palavras, que precisavam sair naquele momento de suas veias, de suas entranhas. Fez das tripas coração e do coração fez texto, tudo para poder ser lida. Escreveu como se a vida fosse só aquilo até o ponto. Depois o outro ponto. Outra vida, era disso que ela precisava! Escreveu para que pudesse dormir de noite. Escreveu para que ou outros pudessem dormir e ela parasse de gritar, em silêncio, todos os pensamentos bons e maus que entravam pela janela e encostavam na sua cabeça fraca. Escreveu porque existiu. Porque viveu mais um dia para contar história e ah! Quanta história ela quer contar. Seus dedos curtos e ágeis a traíam, enquanto revelavam sua vida e morte a quem quisesse e tivesse disposição para descobrir. Era possível escrever sobre escrever, por escrever. Era possível escrever, como verbo intransitivo. Meramente escrever em si. Escrever em sim. Escrever, enfim.
[...]

era um bar

Era o mesmo bar de rock

13:28


Eu vou deixar pra escrever amanhã, porque ainda não li o que eu planejei. Fui na biblioteca querendo te encontrar, mas quando peguei o nosso livro, vi que a gente se encontrou foi numa estação de trem. Foi só isso que eu vi, não cheguei no final ainda. Eu vou deixar pra escrever amanhã, porque a nossa história tem que servir de inspiração, e hoje a gente brigou feio então, se eu escrevesse, poderia até te matar. E eu só me permito matar pessoas se elas forem personagens. Na minha interpretação, eu até posso matá-las, mas elas nunca morrem. Assim como você não morre mais, por razões a priori e posteriori discutidas. Tudo que eu escrevo tem um pouco de você. Até o que eu escrevi antes de te conhecer tem um pouco de você, porque você sempre foi o amor que eu tanto procurava. Se por acaso você não acreditar em destino, não tem problema, porque eu também sempre nego a minha crença. Fomos feitos um pro outro, do jeito poético, literal, físico, metafísico e espiritual. Além de tudo isso, foi uma tremenda coincidência a gente se conhecer nesse universo. Mas não vou escrever sobre nada disso hoje porque já tá tarde eu não vou conseguir encaixar aqui o fato de que eu fui no banheiro e demorei retocando a maquiagem bem na hora que tava tocando Sweet Child O' Mine. Você ficou bravo comigo e nem percebeu que eu te dei um passe livre na melhor música do Guns. Eu, pelo menos, suponho que essa é a melhor música deles, porque foi a única tocada naquela noite que eu reconheci. Esses especiais de banda de rock que você me arrasta, hein. Ainda por cima pra pedir hambúrguer sem cebola, fala sério. E pro show do Jorge e Mateus, quando você vai me levar? Eu já sei que não vai dar dessa vez, porque a gente vai olhar o preço do ingresso e decidir investir em outra coisa. Precisamos de uma panela nova e eu sei que você quer muito comprar aquela blusa que eu gostei, só pra me agradar. Eu me sinto tão amada que é como se sobrasse amor igual sobra açúcar no fundo da xícara de café. Ainda bem que eu gosto de café doce, mas não vou escrever sobre isso hoje, porque corro o risco de não conseguir fazer você sentir o mesmo. Não posso escrever hoje porque sinto que vai aparecer no texto a minha vontade de esfolar a cara de uma pessoa no asfalto. Talvez, depois de escrito, o sentimento se acalme um pouco, mas de qualquer forma, quem ela pensa que é pra querer se meter no meio da gente? Viu, hoje não posso escrever, porque ela queria aparecer, e assim ela vai conseguir. Se for destino isso, então que seja, mas não serei eu a escrever. Não devo escrever hoje porque, mesmo sóbria o suficiente para omitir, estou alterada o suficiente para revelar. Não devo escrever hoje porque aquele bar de rock não me lembrou só de você, mas admito que foi você que arrebatou o meu melhor sorriso da noite. Sem música específica, sem trechos dessa vez e sem solos de guitarra que não vão me conquistar. Nessa madrugada, sem engenharia, sem direito e definitivamente sem matemática. Você é amor em formato máximo e por isso eu não devo te escrever.
Amanhã quem sabe, mas não hoje.

poesia

o poema caleidoscópico

13:50


pode ser que é teimosia
orgulho ou insegurança
se as palavras fazem dança
vou chamar de poesia
essa obra ainda incompleta
eu já tenho até minha meta
até o fim, vou rimar
do jeito que der pra fazer
sou capaz até de apelar
mas eu faço rimar pra você

eu quero é fazer um palpite
de conselho pode chamar
e azar de quem me critique
de qualquer jeito eu vou dar

aprendi coisa pertinente
pra quem é morador, residente
de cidade apaixonável
que tal qual meu coração
até mesmo no verão
tem o clima meio instável

esse guarda-chuva perdido
encontrou, pode ficar
não pense que foi roubado
talvez foi até esquecido
mas agora que conquistado
dele melhor não largar

contanto que ele queira
vê se não deixa escapar
já fiz muito essa besteira
talvez já esteve comigo
mas escuta bem o que digo
não pense que eu vou voltar

vê se não deixa ir embora
como por vezes já fiz
talvez foi em boa hora
agora que foi achado
talvez até consertado
talvez ele é mais feliz

realize esse meu desejo
e os seus melhores pedidos
deixando bem protegidos
os sorrisos que eu prevejo

achei que era chuvarada
meu desejo era desabar
escuta o barulho, inspirada
é o céu a te agraciar

eu que já tive tantos
ou ao menos escrevi
cantos e desencantos
mas até agora, sorri

desde corações quebrados
assuntos mal resolvidos
plurais mal concordados
amores correspondidos
guada-chuvas achados
trens e ônibus perdidos

se achou o meu antigo
eu te aconselho a cuidar
chegasse aqui, meu amigo
primavera há de chegar

e quanto a esse romance
eu que fui azarão
ou você que teve sorte
a gente perdeu a chance
de virar reconciliação
debaixo de chuva forte

não se atreva a analisar
o poema caleidoscópico
rimar tudo é tão utópico
e a minha mão já fria
logo vai raiar o dia
mas quem pode me julgar?
não importa mais o trópico
aqui chove poesia
quero mesmo é me molhar

poesia

ela

21:48

ele me disse
sou sua
como o mais articulado
e impetuoso
ato falho
ele me disse
sou sua
aproveitando-se
das artimanhas
do português
flexionando pronome
e discordando em
gênero, número e grau
ele me disse
que é minha
e assim
concomitantemente
virou musa e artista
e como se não bastasse
virou bela obra ainda
ele me disse
sou sua
porque comigo
ele é o que quiser
e se ele quer ser minha
eu que sou bem feliz
ele me disse
sou sua
como quem fosse
minha paixão
e minha ilusão
minha luz
e escuridão
começo e fim de mês
dia dez e dia
vinte e seis
todas as minhas estações
equinócios, solstícios,
galáxias e constelações
minha primavera
verão e meu inverno
meu céu e meu
inferno
ele me disse
sou sua
e eu respondi
também sou
dela e dele
seu e sua
meu e minha
todinha
somos os dois
ou as duas
rascunho ou arte final
que acaba
por bem ou por mal
mas não chores, não
sorria
se ele é mesmo minha
não duvido
mas quem diria
essa aí vai acabar
é virando poesia